Um dia de domingo.
Um dia acordou ao amanhecer em pleno domingo. Rolou na cama e o sono não veio. Decidiu sair. Sem celular, carteira, documentos, ou mesmo comer, se foi. Ao menos foi vestida. Roupa íntima, calça jeans, sutiã esportivo, camiseta larga e sandálias. Estava suficiente.
Mas saiu para quê? O que iria fazer? Para onde iria? Com quem falaria? Sabia resposta nenhuma para todas estas perguntas. Se alguém perguntasse, diria que descobriria na hora. A única coisa em que pensava era: nada. Tinha a mente vazia, sabe se lá porquê. No fundo, no fundo, talvez estivesse inquieta e não sabia. Para acordar tão cedo num domingo e sair assim sem mais nem menos, algo deveria ter acontecido.
Problemas na escola? Não. Com a família? Não. Românticos? Não. Falta de romance? Também não. Dinheiro? Talvez, mas não era esse o caso. Amigos? Necas de problemas. Que diacho esté errado com aquela menina!? Os pais perguntariam mais tarde quando soubessem do dia que passaria. As pernas foram levando e ela foi olhando as árvores. Estava junto dos pais na casa dos avós no interior. Talvez isso pudesse atraí-la para sair assim desse jeito. Posto que nunca fora muito chegada em natureza, estava ainda assim extremamente entusiasmada em olhar e contemplar ao seu redor.
Pomares dentro das chácaras com árvores de todos os tipos. Limoeiros, laranjeiras, pintagueiras, macieiras, jabuticabeiras, caramboleiros, pereiras, amoreiras, mais e mais eiras e eiros e apenas olhava. Mais tarde sentiria fome e pegaria alguma coisa, porém, só mais tarde. Agora as pernas continuavam. Adquiriram vida própria, deixando o cérebro ao encargo de analisar tudo junto com o coração que talvez pudesse ajudar em alguma coisa, vai saber.
As pernas foram e foram, até que pararam. Ela que só olhava para os lados resolveu olhar para frente. Onde havia parado? Num lago. Que lago? Um lago que visitara muito durante a infância. Os avós a traziam para brincar quando ela era mais menina. Hoje não tinha mais tanta graça sair correndo com um maiô peça única e pular ali dentro. Na verdade, o lago não tinha mais tanta graça assim. Mas porque a atraía? Não soube responder. O que essa menina sabe também? Perguntariam alguns. Que seja; ficou a olhar. E olhar. E olhar. Até que o olhar virou contemplação.
Via todos os pontos do lago como se fossem um só. Em cada canto enxergava algo diferente. A posição do vento, algumas bolhas que subiam, talvez de algum animal, movimentações em partes específicas que poderiam ser peixes, talvez, e as árvores farfalhando e deixando cair algumas frutinhas.
Ficou, ficou e ficou. Não viu o tempo passar. O sol subiu; agora estava a pino. A fome bateu e o lago começou a lhe parecer uma opção interessante para se refrescar, mas a fome era maior. Continuou olhando o lago e sem perceber se levantou, a cabeça só não continuou olhando pois o corpo girou na posição contrária e seria desconfortável ficar olhando para trás.
Voltou até os pomares, pulou uma pequena cerca e um senhor de idade a viu. Ela olhou para ele e o fitou, ele olhou para ela, com olhos mansos e também a fitou. Viu alguma coisa nela que não conseguia explicar. Não fazia idéia do que era, mas lhe era totalmente familiar. Ele não disse nada. Na verdade não precisou. Apenas assentou seu chapéu a cabeça e ela fez “o mesmo” afirmando com a cabeça junto de um sorriso. O velhinho sorriu de volta e viu que ela apontava para uma de suas árvores. Uma goiabeira. Ele apenas fez um gesto jogando a mão para fora e virando-a, como querendo dizer: Farte-se.
Ela deu mais um sorriso e agilmente, com um impulso, segurou um dos galhos e subiu. Sentou-se, olhou em volta as goiabas, escolheu uma e ficou olhando. Era quase uma esfera perfeita. Redonda. Polpuda. Macia. Apetitosa. Madura. Com aquele cheiro de recém apanhada que incitava a morder e devorar aquilo como se fosse a última e melhor fruta existente de todo o planeta.
Ainda ficou a contemplar a goiaba em sua mão. Ficaria ali quase o dia todo, igual ao lago, apenas não fosse seu estômago que fez um dos barulhos mais altos que ouviria na vida. Aliás, tudo naquele dia estava tão silencioso que qualquer barulho seria ensurdecedor. Mas voltemos, ela simplesmente obedeceu, primeiro mordiscou a goiaba e quando aquele doce lhe bateu na língua, mastigou rápido e deu uma bocada com um enorme sorriso de satisfação que podia ser visto naqueles olhos fechados e rosto levemente esticado.
Comeu a primeira, a segunda, a terceira e continuou comendo até fazer exatamente aquilo que o gesto lhe sugerira. Farte-se. Encostou-se na árvore para descansar. Com a cara e a camiseta toda lambusada de goiaba alisou a barriga que agora estava cheia e começou a ouvir alguns pássaros que começaram a chegar em árvores próximas. O canto inicialmente não a agradou. Não a agradou mesmo. Estava tudo tão silencioso, por que tinham de vir pássaros para estragar? Mas logo a mente abstraiu e esqueceu que os pássaros sequer existiam. Ficou ali em cima da árvore com raios de sol passando entre as folhas, bem acomodada, sentada aos galhos e observado o terreno bem plano e cheio de árvores ao redor. Tanto da chácara daquele senhor ao qual não sabia o nome como de outros.
As pessoas faziam coisas. Que coisas? Bem, não se lembra. Os pais realmente estavam preocupados. Mas que diachos ela fez hoje!? Voltemos. Continuou na árvore, mas logo lhe bateu cansaço de estar sentada naquela posição. As pernas pediam exercício, desceu e foi andar. O sol em algumas horas iria se por. Mas quem ligava? As pernas sabiam que deveriam voltar quando era noite. Ainda não era noite. Portanto…
Caminhou, caminhou e caminhou. Até que resolveu se sentar numa cerca com o sol já quase se pondo. Via um homem montado a cavalo levando algumas vacas de volta para algum lugar. E se olhasse para trás veria ovelhas. Como sempre achou ovelhas mais fofinhas do que vacas, virou-se na cerca para olha-las com aquela luz laranja-avermelhada. Ficou ali vendo as ovelhazinhas… e só. E como eram as ovelhas? Tinham forma de ovelhas. Responderia mais tarde. Mas nenhuma característica marcante? Eram ovelhas, mãe. Os pais se entreolhariam, mas isso ainda não é agora.
Quando as ovelhas começaram a ser recolhidas por um homem e alguns cães e viu que o céu agora não estava mais laranja e sim arroxeado, as pernas começaram o caminho de volta por aqueles arvoredos. Voltaria a casa sob um céu limpo, com uma lua em meia crescente e um mar de estrelas a iluminar seu caminho.
Voltou e entrou. Os pais estavam preocupados e a encheriam de perguntas, mas a que nos importa é essa: ─ Certo e você esteve o dia todo fora fazendo o que, mocinha? ─ ─ Nada. ─ Respondeu. E era verdade. Fez nada. Seu corpo fez. Seus instintos fizeram, mas ela ficou ao ócio. Com a mente longe, o coração também longe. Apenas a contemplar a vida, o universo e tudo o mais.
Que texto legal Owen, um dos que eu mais gostei aqui do seu blog.
Agradeço General. Me sinto bem em saber que há pessoas que gostam dos textos.