A fantástica amizade do sono.
Enquanto eu cozinho uma pequena série de histórias, filosofemos sobre bolo.
Bolo é gostoso é saudável e é uma mentira. Na verdade estou aqui para falar sobre sono.
É um fato indiscutível de que caso você seja um ser humano, você sente sono e cansaço. Até aí isso é de uma obviedade sem tamanho, porém, o caso que gostaria de discutir é os efeitos que a falta de sono causam sobre o corpo humano. Os efeitos mais comuns são a lentidão dos reflexos, a falta de atenção e a impaciência.
Quando é atingido o estado de impaciência, isso geralmente quer dizer que seu corpo, e principalmente seu cérebro, querem descansar o mais breve possível. Mas também não é sobre esse estado, são os estados de alucinação que quero falar. Mais exato, quero contar uma pequena história.
Um estranho de camisa preta veio ao pub recentemente, estávamos quase na hora de fechar e quase todos os clientes já tinham ido embora quando ele pediu um copo de whisky e alguma coisa que o pudesse deixá-lo acordado. Os olhos estavam vermelhos e era possível notar as olheiras. A cara estava bem pálida e abatida. O rapaz não dormia a três dias pelo que eu pude reparar. Fiz algumas coisas dessas quando era jovem e ainda me recordo dos efeitos.
Pedi a ele que se sentasse numa das poltronas e se sentisse comfortável. Ele disse que não. Beberia em pé ao lado do balcão. Tenteni convencê-lo como pude ao lhe colocar sua dose de whisky, mas nada feito, ele queria apenas o whisky e um café. Pedi ao Tom que preparasse um café reforçadamente forte e tentei conversar um pouco mais com o rapaz para saber por que ele estava naquele estado.
A voz era arrastada e morosa, mas ainda não chegava a ser um balbucio de palavras aleatórias e incompreensíveis. Ele virou o copo de whisky sem gelo em um só gole. Balançou a cabeça como para acordar ou se livrar de um gosto ruim e os olhos envidrados e opacos se tornaram ligeriamente mais vívidos e brilhantes. O grande problema é que eu descobri nos próximos 5 minutos que ele não deveria ter tomado aquela dose naquele estado, pelo menos não tão rápido.
Foi quando o rapaz começou a alucinar. Ele olhou para uma das paredes e muito polidamente me disse: Belo quadro. O elogio seria interessante se naquela parede em específico tivesse qualquer quadro. Agradeci e lhe perguntei: O que achou da pintura? “É uma pintura muito interessante de uma sereia.”
Enquanto o pub realmente tem uma pintura de uma sereia ela estava e ainda está na parede oposta ao qual o rapaz estava olhando. Ou ele havia entrado nas alucinações ou sua vista estava começando a embaralhar e trocar peças de lugar umas com as outras a uma distância maior que a sua mão podia tocar. Eu fico imaginando o que aquele rapaz estava vendo além de quadros onde não existiam. Afinal, ele desde que entrou passou a imagem de alguém um tanto quanto calado.
Foi quando Tom voltou com a xícara de café. O estranho ao pegar na xícara para tomar seu café foi interrompido por mim: Não quer fazer dele um café irlandês? É melhor para acordar, sabe?
- Café irlandês? – Ele respondeu com a voz que voltava a se tornar macilenta.
- Sim, com whisky. – Eu completei
- Vai me sair mais caro? – Ele me perguntou entre risos de um bêbado de sono.
- Não não, rapaz. É por conta deste irlandês aqui. – E peguei uma garrafa das garrafas de meu bar.
Ele autorizou e o que normalmente seria uma dose apenas de whisky tratei de colocar três. Era uma xícara grande de café e Tom não havia enchido tanto para deixá-lo justamente mais forte. Digo que normalmente é uma, pois caso alguém queira mesmo estragar um bom café ou um bom whisky se coloca mais de uma.
O whisky ajudou a diminuir a temperatura do café o que também ajudou o estranho a tomá-lo mais rápido. Não muito tempo depois quando ele terminou de tomar o café eu reparei nas pernas dele a fraqueza. Ele já estava a tempo demais sem dormir e o álcool apenas ajudou a reforçar o efeito. Disse para um dos garçons para limpar a mesa atrás dele e se preparar para pegá-lo quando ele caísse de costas. Continuei ainda conversando com o rapaz que foi lentamente tirando a carteira para poder me pagar com os olhos já fechando. Foi quando ele a colocou em cima da mesa que caiu, mas Alex o pegou a tempo. Ajudei o garoto e juntos colocamos o estranho na poltrona.
Olhei na carteira e nos bolsos dele sinais de qualquer informação para quem eu pudesse ligar, mas nada. Apenas um papel com um número anotado, porém, muito curto para ser de telefone. Deixei o ali, tirei da carteira dele o equivalente a uma dose de whisky e uma xícara de café preto e disse que aquela noite ficaria no pub. Seria uma longa noite, mas eu tinha mais coisas a escrever. Foi lucrativa para todos.
O estranho acordou no dia seguinte com uma dor de cabeça quase insuportável; eu que havia terminado de limpar algumas coisas e era minha vez de estar com sono preparei um café para ambos. O estranho um tanto quanto cabisbaixo e não muito feliz por ter dormido, comeu com grande apetite. Durante o café me perguntou se eu havia vigiado seu sono durante toda a noite. Respondi lhe em partes que sim. Havia passado a noite no pub e que portanto estava por perto.
O ânimo dele que retornou mostrou sua gratidão com uma expressão em seu rosto. Ele pagou pelo café da manhã e disse que voltaria a visitar o pub, porém, em melhores condições de descanso. Ao sair ele olhou alguns textos no meu quadro de avisos e perguntou o por quê deles. Expliquei sobre o que fazemos no pub e ele disse com um sorriso um tanto quanto maroto demais para meu gosto que voltaria com algumas boas histórias.
Essa é mais uma das histórias do pub e da importância do sono.
A equipe do Fox Pub deseja à todos um ótimo início de semana e uma boa noite de sono mais tarde.

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