Bicicletas – Racha na Alemanha Oriental
Olá, sejam bem vindos de volta.
Três pints de Guinness, já está saindo.
… Aqui está. Desejam mais alguma coisa? Ã? Saber como foi criado o Pub?
Bom, esta é uma longa história, mas creio que posso contar uma pequena parte dela, hoje.
Essa história tem a ver com corridas de rua, tráfico de drogas, muita violência e bicicletas.
Tudo começou em 1987. O proprietário, localizava-se no momento na Alemanha Ocidental para treinamento em cervejarias. Como cervejarias são absurdamente comuns na Alemanha; você encontrava uma a cada duas esquinas, hoje uma a cada esquina, isso explica o gosto dos alemães por cerveja e por estarem bêbados, mas eles ainda não ganham dos Irlandeses.
Os estudos sobre a produção e apreciação de cerveja corriam muito bem. Com um alemão fluente e o gosto natural por cerveja herdado por seus pais britânico-irlandeses o proprietário se destacou mesmo entre os alemães ocidentais. Porém, o trabalho que nosso proprietário tinha na época pagava-lhe pouco. Era apenas o suficiente para que ele pudesse continuar com os estudos e seguir a vida. Mas precisava de dinheiro, para que assim um dia pudesse realizar seu antigo sonho de abrir seu próprio Pub.
Ainda me lembro, foi numa tarde de sexta-feira quando estava voltando de bicicleta com os amigos da cervejaria que ficava a quatro quadras da minha casa; a que ficava a apenas dois eram muito ruim e de qualidade absurdamente inferior; que um deles após os meses de estudo que passamos juntos me perguntou: “Precisas de dinheiro?” Respondi-lhe que sim, precisava economizar para montar meu próprio Pub.
Foi quando ele me confidenciou: Existem, ou melhor, existiam rachas ilegais de bicicletas na Alemanha Oriental, que poderiam pagar um bom dinheiro para o vencedor por meio de apostas e prêmios. “Você tem uma boa bicicleta e até hoje nunca lhe vi cair na curva, creio que podes participar.” Para quem não sabe, todas as ciclovias que existem na Alemanha desde 1722 são perfeitamente planas e retilínias, em raríssimos casos você encontra uma curva ou então uma região acidentada e como cair numa das únicas curvas que existiam era uma coisa apenas para os mais retardados; 90% da população da época, hoje apenas 1%, e sim, melhorou muito, foi quando acabou o comunismo que as pessoas de repente se tornaram sãs de novo; eu não sabia muito o que esperar.
Mas mesmo assim, aceitei. Se pagavam bem e eu poderia participar de uma corrida de bicicletas, um esporte que sempre gostei junto com o nobre esporte não poderia ser tão ruim.
Então acompanhei meus amigos e fui até a fronteira e passamos para o lado oriental. Devo ressaltar que antes de passar eu fui responsável por salvar um filhote de gato de uma árvore e como não tínhamos muito tempo, levei o comigo no meu casaco.
Meus amigos logo me indicaram onde eu deveria ir e me acompanharam até as corridas, porém, ao chegar lá, eles me traíram, me espancaram e roubaram minha bicicleta.
Eis o seu barman, deitado numa rua desconhecida e totalmente obtusa e obscura da então Alemanha ocidental cujos únicos pertences eram o passaporte, uma nota de 5 marcos alemães e um filhote de gato que me lambia o rosto por compaixão.
Depois de me recuperar um pouco da dor tentei entender os fatos e pensar no que fazer. Afinal o que eu faria com uma nota de cinco marcos, meu passaporte e um filhote de gato? Pensei em voltar para a Alemanha Ocidental e me vingar, porém, sem minha bicicleta seria um percurso de 722 km a pé; com uma bicicleta fazíamos uma média de 342 km/h; então resolvi tentar me virar por lá mesmo.
Seja a sorte, destino, acaso ou sina, o fato é que o proprietário conseguiu com sua nota de cinco marcos um lugar razoavelmente bom para ficar por dois meses e ainda me sobrou 2 marcos. Foi 2 marcos de aluguel e 1 de caução o qual eu não esperava recuperar.
Tentou arrumar emprego, porém, com seus conhecimentos da época; física nuclear e produção de cerveja artesanal; não conseguiu arrumar nenhum, afinal a Alemanha Oriental estava cheia de pessoas que sabiam produzir cerveja e físicos nucleares graças aos programas da então URSS.
Foi quando um dia de volta para casa, fazendo carinho no meu então gato que chamei de John, um drogado tentou me atacar. Como estava drogado e meu pai irlandês havia me ensinado briga de rua, não tive problemas em subjugá-lo. Após interrogação nosso proprietário descobriu que o drogado queria apenas o gato para arrancar-lhe um pouco dos pelos para que pudesse misturar a sua droga.
Foi nesse dia que o proprietário aprendeu como fazer uma das drogas mais poderosas do mundo. O Gasgezeit. Obviamente não contará os ingredientes nem a quantidade de cada um, mas levava um pouco de cerveja e pelos de gato na mistura.
Tendo isso em mente, Owen pediu desculpas a John seu então gato e começou a produzir Gasgezeit. Em pouco tempo ele era um dos traficantes mais influentes da Alemanha Oriental, visto que tinha seu próprio gato, gatos na época eram proibidos e qualquer um encontrado era aniquilado sem chance alguma de defesa.
John, algumas vezes sofreu por eu ter de arrancar pelos dele, mas ele foi bem recompensado e depois de uma época ele próprio passou a soltar muitos pelos em minha roupa, o que facilitava o meu trabalho e me dava uma grande disponibilidade do ingrediente secreto.
Logo, me tornei um dos traficantes de Gasgezeit mais influentes da Alemanha Oriental, o que me deu dinheiro suficiente para comprar uma bicicleta e assim retornar à Alemanha Ocidental.
Quando a comprei, o vendedor da loja discretamente me sugeriu participar num racha que ele estava organizando, o vencedor levava um grande prêmio e uma parte de todas as apostas, por ele ter me parecido sincero e eu ser um dos mais importantes traficantes e ter algo que chamamos “contatos” se é que me entende, resolvi aceitar, afinal este era o objetivo original.
Para minha sorte e na época dele, o vendedor foi uma das pessoas, senão A mais honesta que tive o prazer de conhecer. Ele me levou até o local e me inscreveu. O prêmio estava avaliado em 1 milhão de rublos tortos e sedentos; que equivaleria na época a 10 dólares canadenses; eu era um novato mas estava confiante e pronto para qualquer coisa.
Ele se lembra até hoje da reunião do racha onde as regras forão explicadas e ditas em voz alta. E as regras eram:
1 – Você não pode fumar sua bicicleta.
2 – Apesar de pertencer a URSS você não poderia deixar que sua bicicleta andasse em você.
3 – Você não pode cair de sua bicicleta.
4 – Você não pode parar, ou seja deve estar em movimento constante, alterações na velocidade, são contudo, permitidas.
5 – Você não pode não agredir seu competidor. As agressões mínimas consistiam em buzinadas; para os que possuíam; e ofensas e iam até a física em movimento.
6 – Você pode aplicar golpes com sua bicicleta caso achar necessário.
E essas eram as regras. Tendo isso em mente, Owen se preparou para a corrida e começou. Agradeceu ao fato da URSS não ter modificado muito o trecho das ciclovias da Alemanha Oriental. Mas o trecho era difícil, possuía ao total 3 curvas. seria uma competição ferrenha até o fim e depois da terceira curva, apenas os melhores estariam na disputa.
A concorrência foi forte devido ao número de 300 pessoas no início, mas devido a pessoas que caíram, não ofenderam ou pararam para fumar suas bicicletas o número de participantes foi reduzido a 5, sendo o proprietário um dos 5.
Na reta final, por estar sem arma para retiraros outros concorrentes utilizei de palavras de baixo calão na minha língua materna o Irlândes. Dessa forma consegui retirar mais dois competidores ofendendo os com uma simples piada de “Sua mãe é tão gorda que…” Acreditem, não queiram ouvir alguém gritar uma piada de “Sua mãe é tão gorda que…” em Irlandês. Corações fracos pereceriam no processo, e eu estava entre pessoas brutas que mesmo assim não conseguiram aguentar.
Os outros dois removi usando métodos diversos. O 2º lugar retirei dando a ele um pouco de Gasgezeit. Porém, para o Gasgezeit fazer melhor efeito, é necessário que você fume uma bicicleta depois de ingerido. Ele imaginou que fosse suco, mas a necessidade de fumar sua bicicleta veio em alguns instantes e logo ele estava para trás fumando-a.
O último concorrente. Estavámos disputando palmo a palmo, centímetro a centímetro. Foi quando ele me ultrapassou e a linha de chegada se aproximava. Reunindo suas últimas forças o proprietário utilizou de um golpe milenar Irlandês que foi passado por seu avô. A bicicleta voadora. Como descrever o golpe é complexo e demoraria dias, aqui vai uma foto para ilustrá-lo.
O oponente foi atingido pouquíssimos segundos antes de cruzar a linha de chegada. O proprietário então mesmo sem conseguir manter perfeitamente o equilíbrio, cruzou a linha de chegada ainda com a bicicleta em movimento apenas para cair em seguida.
A multidão que o aguardava vibrou e as pessoas que apostaram num completo novato com uma chance de 357089023/1, levam uma vida tranquila até hoje.
Com o prêmio em dinheiro e uma porcentagem das apostas consegui o total de 2 milhões de rublos tortos e sedento; 20 dolares canadenses; quantia pequena comparada ao desafio. Mas a fama do proprietário se espalhou na Alemanha Oriental por 20 minutos. Tempo suficiente para que ele pudesse participar de uma festa com muita comida bebida e dança.
Quando retornei ao lado Ocidental com meu dinheiro já convertido, uma nova bicicleta e John como meu novo companheiro, quebrei a cara de meus colegas e voltei para a Irlanda, onde lá me continuei a me dedicar para que meu sonho se realisasse.
E esta é apenas uma parte. Outra ficará para uma próxima. E… 23… 38… Puxa, 40 novas pessoas que não pediram por estarem ouvindo a história? Não se preocupem, há cerveja o bastante para todos.



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