Final de ano…

sáb - 31/12/2011 Deixe um comentário

31 de dezembro de 2011, apenas algumas horas para uma virada de ano… e o pub continua aberto.

Se depender de mim, levarei-o enquanto puder levar, quando não mais, avisarei o porquê. Mas de qualquer forma, o fim de ano.

O ano acabará logo. Que acabe. Que comece de novo. Não que ele tenha sido ruim. Anos não são ruins por si, são ruins se assim o definirmos. A vida é como definimos. Mestre do óbvio este barman, não?

Mas é bom relemberar o óbvio. Nada mais é do que os fundamentos, e pode parecer descabido, mas esquecemos isto. Esquecemos muitas coisas, mas o fundamental é o que esquecemos mais. Teorias para este esquecimento existem diversas. Mas não estou aqui para isso.

Final de ano. Hora de fazer fechamento do pub. Emitir notas fiscais e preparar o local para os clientes do ano que vem. É para isso que estou aqui. Mas hey, ainda estamos servindo, se quiser alguma coisa, não hesite.

O Fox Pub agradece a todos que visitaram, leram os textos, se emocionaram de alguma forma e/ou encheram a cara e propiciaram risadas. Também desejamos que todos tenham um bom final de ano com responsabilidade.

Sobre a vida… – Jamais publicar

sex - 30/12/2011 Deixe um comentário

A realidade é irreal. Isso é um fato. Mas não vim aqui para falar disso. A grande verdade é que como estou me sentindo para baixo resolvi escrever alguma coisa.

Sim, donos de pub também ficam para baixo. Eles ainda são humanos, não importa que sejam irlandeses e bem… donos de bar. Não vim implorar ou pedir consolo para ninguém eu só queria escrever alguma coisa mesmo. Antes de mais nada. Se você que estiver lendo esse texto vier com palavras de carinho, de que tudo vai dar certo ou de que eu deveria entregar meus problemas a uma entidade superior, digo-lhe que seu comentário será sumariamente apagado sem dó nem piedade. Se eu quisesse ler esse tipo de comentário, leria autoajuda. E livros de autoajuda… hahaha… autoajuda! Bahaha! Muito engraçado. Livros de autoajuda! Quem inventou isso foi um gênio! Lucrou horrores em cima da insegurança alheia.

Aiai. De qualquer forma é bom estar batendo nesse teclado. Embora eu gostaria realmente de ter uma máquina de escrever. Tudo bem eu jamais vou publicar isso aqui mesmo. Mas voltando a máquina de escrever, ah!, essa nova geração… nunca vai conhecer o doce som e as formas perfeitas dos tipos de uma Olivetti ou mesmo uma Adler. Ah, a nostalgia…

Mas também não é para escrever sobre máquinas de escrever que vim escrever. Vim para escrever sobre a vida, como o próprio título diz. Uma das regras de redação que muitas pessoas esquecem é: Seu título tem que ter algo em comum com o seu texto e vice-versa. Mas que seja. O que é a vida?

Bem, gosto da definição de Fernando Pessoa de que a vida nada mais é do que apenas um intervalo até nossa morte e que o ser humano não passa de um cadáver adiado. Cru, direto, franco, doloroso, mas como só a verdade causa dor, Fernando Pessoa estava certo.

O ser humano é um cadáver adiado. Então viver para quê? Qual a razão de nossa existência? Qual o sentido da vida? É para a esquerda ou para a direita? Suponho que não seja nenhuma das duas. Talvez para o norte, quem sabe o sul? Peguemos a rosa completa dos ventos, ou ao menos assim como eu chamo as direções cartográficas que aceitam oito pontos de referência e não apenas quatro, e decidamos isso no palitinho ou no cara e coroa.

Que importa o sentido da vida? Nada. Eis a questão que abrange n+1 respostas onde n = n+1 e portanto indefinido. O sentido da vida é figurado como todos sabem. Afinal de contas ninguém entra numa crise existencial sem mais nem menos, entra sempre por algum motivo, seja ele fútil ou não. Damos um caminho hoje, amanhã nos perguntamos por que demos essa solução e depois de amanhã dizemos que anteontem foi o pior erro de nossas vidas, como indíviduo ou como humanidade.

Erros… hmph. Claro que erramos. Sim isso é um fato. Mas o erro não passa de um juízo de valor. Este pode ser relativizado o quanto a pessoa quiser desde que seja mantido para si e só para si. Ainda existem regras no mundo. Existem regras até para discordar. Se quiser discordar de todos, no entanto, pedimos-lhe gentilmente que caia fora da sociedade. Por favor, senhor incompreendido maltratado pelo sistema, mostre nos que seu caminho pode ser de fato a melhor coisa para a sociedade como um todo e o seguiremos. Caso contrário, por favor deixe o narcisismo aqui ao lado e tente se integrar.

Vida, vida. Doce vida. Tão doce que enjoa. Tão doce que nos é amarga. Tão doce que nos faz passar mal. Tão doce que alguns durante o tempo contraem diabetes e isso, além de uma verdade, é uma piada cruel. Mas estava eu falando sobre narcisismo. Ah! Narcisismo! É uma palavra um tanto quanto difícil. Remete a Narciso, o homem que gostava tanto de si que se apaixonou pelo próprio reflexo num lago, foi tentar alcançá-lo, caiu, afogou-se e morreu. Linda história, mas ao mesmo tempo batida e desgastada que dá pena.

Narcisismo, uma palavra que caiu em superuso. Por que não usar chauvinista de si? Ou então, por que não dizer que é um ferrenho praticante da egolatria? Apesar de ego estar já bem desgastada, egolatria ainda não está, crê este ser que vos fala.

Para que escrevi isso? Bom, um pouco para mim. Quem escreve geralmente se identifica com um assunto antes de começar. Se mais alguém se identificou, que bom, isso significa que você não leu setecentas e sessenta e seis palavras até a palavra “palavras” para nada. Alguma coisa você tirou disso. O que mais você tirou disso e vejamos o que mais eu posso adicionar a isso para que eu tire mais disso e não saia com uma impressão pior do que entrei?

Bem, como o texto não será publicado, poderia adicionar qualquer coisa que me apetecesse, mas como quero seguir o fluxo de ideias, vejamos o que ainda sai de meus dedos e meus olhos ao som de piano.

Piano, outra coisa que nunca fui bom. Também nunca pratiquei. Tive um teclado que foi aposentado tardiamente depois que descobri que ele era praticamente inútil em minhas mãos e que poderia muito bem ser melhor empregado em outras mãos mais habilidosas e mais dedicadas, para música, do que as minhas.

Outra cousa que nunca entendi foi por que ainda temos a ideia de que a melancolia é o que nos ajuda a escrever? Tenho uma vaga teoria de que na verdade estamos saturados de felicidade. Estranho? Pois não. Estranho de fato, mas talvez verdade. Quando temos felicidade ela se esvai rápido. Depois precisamos de mais e cada vez quantidades maiores para nos sentirmos minimamente satisfeitos, enquanto a infelicidade não aguentamos o simples desgosto de um não.

Queremos a infelicidade, pois nos tornamos um bando de crianças mimadas e nada melhor do que sofrer pela arte ou então lutar por algum ideal completamente desprovido de fundamentação quando se tem casa, cama, comida, roupa lavada e passada. Por que não? Mesmo que nós tenhamos de fazer e pagar por todas essas coisas, o máximo que aprendemos é dar o mínimo valor a elas.

Não, não advogo em favor da miséria antes que algum idiota me pergunte. Não advogo em favor de voltarmos a era das cavernas. Mas advogo em favor de sermos seres humanos melhores. Quanto idealismo, não? De fato é verdade, advogo em favor de melhorias. Mas advogo em favor de continuarmos como estamos. Nem todos almejam ser melhores, então, para que mudar isso? Deixem os com seus próprios mundos. Quando dizem que a ignorância é uma benção, as pessoas falam sério. Existem pessoas felizes e algumas que almejam conhecimento descobrem de uma maneira com gosto incrivelmente forte e vivificante que, na verdade, eram felizes e não sabiam.

Sei que isso não se aplica a todos e aqui vai uma coisa. Nem sempre o você está se referindo a você e nem sempre o nós se refere a mais de uma pessoa. Vai entender. Pior ainda, tente entender a estupidez. Dizer que todos são estúpidos é uma grande verdade. É só não abrir exceções e você tem idiotas. Mas o que são idiotas? Pessoas que muitas vezes não compartilham de seu ponto de vista. Se bem que existem os idiotas de facto. E de facto pois ignoram as factualidades, ou seja, ignoram a realidade como ela é com suas ideias descalabradas e que só fazem sentido em seus mundos.

Ai ai. “Mundo mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo, isso seria uma rima e não uma solução.” Saudades de você Drummond, gostaria de conversar contigo se qualquer dia desses eu tiver a chance. Sem drogas e alucinógenos externos da minha parte, claro. Mas sabe, me pergunto e gostaria de tua opinião: Como as pessoas podem querer saber o sentido da vida se elas não sabem nem o significado do que elas mesmo fazem? Que significado tirar do texto desse aspirante a escriba? Que significado tirar da leitura deste texto? Que significado, não oculto, pois estes não existem em abundância, tirar do simples hábito?

Perguntas, mais perguntas e nenhuma resposta. “A vida é um círculo de perguntas e respostas sem fim.” Diria um sábio anônimo em momento de profunda reflexão.

Vícios e mais vícios. Não de substâncias, mas sim de linguagem. Pronomes desnecessários, frases longas demais, falta de coerência de ideias e coesão quando recebem-se e expoem-se cousas numa linguagem oral e escrita.

Os dedos param. O cérebro pede para continuar, mas ele não fornece mais nada. A mão também não sabe mais o que escrever. Quando esses momentos chegam e um parágrafo como este é escrito a olhos voluntariamente vendados é porque o texto chega a seu fim. Um fim prematuro? Tardio? Ao ponto? Mal passado com alho? Quem  sabe?

O que se sabe é que as mãos continuam a bater, os olhos deixam de enxergar os erros para enxergar as palavras em suas formas; ah!, quem me dera ter uma Olivetti. Descarregar a força encrustada em cada um dos dedos ao delicioso som que torna-se acordes de piano para ouvidos… frescurentos… chamemos eles assim, frescurentos. Frescurentos como em frescura que por sua vez vem de frescor que significa no fundo que é algo novo, recente. De onde tiraram que frescura era algo não condizente com o sexo da pessoa que executa a ação, ou ainda então que possuem uma certa exigência em particular, ou que clamam por algo que lhes é querido mas que aos outros se torna estranheza?

Estranheza, por quê? Entendimentos outros e discrepantes, por quê? Palavras, por quê? Pessoas, por quê? Vida, por quê? A resposta é simples. Ao menos assim sempre foi vislumbrado por este que vos escreve. Porque é divertido, eis o porquê. Porque é o que tem para hoje, eis o porquê. Porque é melhor que o tédio, eis o porquê. Eis o porquê…

Toda ideia e todo texto precisam de uma conclusão. Mas a conclusão se deu no parágrafo acima. Isto aqui, caso ainda esteja lendo, é só uma nota de rodapé. Só para lhe lembrar que reticências podem sim ser conclusão de algo. Com isso digo: Até mais, obrigado pelos peixes, pela escrita, pelas ideias, pelo papel virtual que pode nunca esquecer e sigo no desejo de um dia vir a ter uma máquina de escrever. Embora difícil, quem sabe eu ache uma nem que para relembrar o som da mesma…

Um gatinho…

sex - 23/12/2011 1 comentário

Não é do feitio do Pub, tampouco de meu feitio, mas deixe-me lhes contar uma história que acabou de ocorrer com este que vos escreve.

Estava eu pensando com meus botões quase chegando em casa. Peguei as cartas que haviam na caixa da entrada, verifiquei-as apenas por curiosidade coloquei as na mão esquerda, peguei minha chave e girei o tambor da fechadura do portão. Quando eu abro a pequena porta do portão de lata, vejo para minha surpresa, um pequeno gato ─ não sei de qual sexo, mas usarei o masculino mesmo ─ olhando para cima.

Me surpreendi no começo por encontrar aqueles dois pequeninos olhos azuis turquesa à minha frente, mas imediatamente, abaixei-me e estendendo calmamente minha mão direita, perguntei a ele: “Viestes de onde, gatinho?” O qual ele gentilmente respondeu cheirando minha mão e dando uma lambida.

Comecei a acariciar aquela dócil criatura quase toda cinzenta, tirando algumas manchas pretas na área das orelhas que faziam uma espécie de divisão de pelagem. Coloquei as cartas ao chão, abri minha mochila com a mão esquerda e enfiei as lá dentro. Olhando para ele ─ pequenino mesmo, no máximo um palmo de comprimento ─ resolvi pegá-lo no colo e perguntar se era de algum vizinho meu, porém, não havia ninguém nas casas próximas a minha.

Estranhei o fato, mas ainda tinha que dar um jeito naquele gato que se enroscava em minhas mãos e apoiava a cabeça em meu peito. Olhei-o novamente, coloquei-o no chão ao meu lado, peguei minha chave e entrei. Ele, da forma como eu esperava, entrou junto. Entrou e ia andando pela garagem de forma que dava até dó. Coitadinho, a garagem está bem bagunçada e ele teve até certa dificuldade em me seguir. Miava agudo de medo quando eu passava por alguma porta e ele tomado de curiosidade não via para onde eu ia. Mas quando eu voltava ele olhava de novo para mim e me seguia.

Larguei minhas coisas num banco e fui para a cozinha com ele me seguindo. Queria dar algo para beber e comer à criatura. Mas a geladeira estava vazia de qualquer coisa que um gato pudesse comer e o filtro estava seco. Olhando a despensa, achei uma caixa de leite que abri, coloquei um pouco numa vasilha e coloquei no chão para ele, que inicialmente fugiu, mas logo voltou, cheirou, olhou e bebeu.

Bebia rápido em pequenas lambidas, mas estranhamente não bebeu muito. Logo satisfez-se, deu um bocejo e vendo que eu estava saindo novamente para a porta de entrada, seguiu-me. Abri a porta e coloquei algo para pará-la. Sentei me num dos degraus e ele chegou perto. Tornou a me cheirar e dessa vez começou a se enroscar por entre minhas pernas enquanto ronronava. De fato era uma criatura adorável. Mas o que eu faria com aquele gato? Pensei.

Eu não tinha e ainda não tenho como cuidar de um, do contrário nomearia-o e ficaria com ele. Daria ele para alguém? Para quem? Para onde eu poderia levá-lo? Deveria bater de porta em porta procurando seu dono ou tentando convencer alguém a se tornar dono daquele belo animal? Para início de conversa, como foi que ele entrou por aquele portão de lata sem brechas? Da onde viera? E agora, José?

Essas dúvidas me assolaram enquanto eu o acariciava, ele fugia algumas vezes, ia para a calçada, mas logo miava e voltava para mim que tornava a acariciá-lo. Isso se repetiu talvez durante uns dez minutos, até que passou uma senhora morena, com cabelos pretos até um pouco depois dos ombros, carregando uma sacola vermelha e vestida com um uniforme de trabalho que exclamou: Que bonitinho!

Sem pensar, lhe perguntei: A senhora é daqui? É que achei este gato aqui dentro ao abrir meu portão e não faço ideia de onde ele possa ter vindo.
Não. Ela me respondeu. Não sou daqui. Mas você vai ficar com ele?
Não sei. Eu mesmo não tenho como cuidar de um gato. Por quê? A senhora quer ele?
Ah, se você não for ficar eu levo ele sim.
Tem certeza?
Claro, vai que ele é daqui e eu acho o dono, mas meu marido está por perto e de carro, levo ele sim.

Peguei o gato carinhosamente e entreguei a ela que o segurava apenas com uma mão, mas ele fugia e voltava para mim. Entre exclamações da parte da senhora de “Ele gostou de você.”, ele finalmente aceitou que poderia ir com ela quando ela o segurou de maneira mais firme, mas sem machucá-lo.

Foi assim que me despedi daquele gatinho. Não tive a ideia de tirar uma foto, aliás, melhor que nem o fiz, poderia assustá-lo. Mas agora que olho tudo isso, bate até um certo egoísmo, hehe. Se eu ficasse com ele  chamaria-o Tata ou algo similar que abrangisse dois sexos. Mas tinha um gatinho atrás de meu portão. Atrás de meu portão, tinha um gatinho. Nunca me esquecerei que ele apareceu e se foi como uma ilusão. Mas tinha um gatinho atrás de meu portão. Atrás de meu portão, tinha um gatinho.

Passeio pela floresta.

qua - 21/12/2011 Deixe um comentário

A ideia mais genial que tivera até então. Entrar sozinho na floresta, a noite, sem qualquer fonte de iluminação. Uma ideia excelente de qualquer ponto de vista. Afinal equipamentos de segurança, lanternas, canivetes e bom senso são para os fracos. Mesmo que não tivesse bom senso, ele ainda tinha seus motivos. Era um atalho. Genial! Cortar caminho pela floresta. Ele só faltava ir saltitando e cantando: “Pela floresta, eu vou bem sozinha, levar alguns doces para a vovózinha…” Claro, com toda a concordância nominal para o gênero destre ilustre ser.

Mas vamos olhar o lado positivo, a floresta não era tão extensa assim, ou ele pensava. Pelo menos um caminho que ele poderia fazer em vinte minutos durante o dia agora estava durando uma hora e duraria muito mais, com exclamações do tipo: “Eu já não passei por essa árvore, antes?” Quando se está escuro todas as árvores parecem iguais. Nem mesmo Lua ou estrelas poderiam ajudá-lo, o céu estava com nuvens que pressagiavam chuva. E o vento carregando o som ao longe confirmou o presságio de chuva. Trovões. “Droga, preciso chegar logo, mas parece que não acaba esse corredor.”

Ele continuava a andar, estranhamente sem se cansar. Era como se estivesse sempre com o frescor de quando entrou por entre as árvores. Pela falta de senso comum, ou por um pouco dele, sabia que quando parasse de andar o cansaço nas pernas viria com tudo e ele só iria querer saber da cama dele. Amanhã era domingo; então qual era o problema dele acordar mais tarde pois foi passear na floresta?

Continuou andando mais um pouco, quando de repente os sons ao redor cessaram. Os grilos e sapos pararam com sua cantoria. Os que faziam barulho, agora eram o vento passando por entre as folhas das copas das árvores e os trovões incessantes ao longe.. Isto ele percebera e percebera também que o local ficara mais escuro. Olhou ao redor e finalmente algum sentimento de autopreservação o acometeu. O coração pulou uma batida, a respiração ofegou durante um tempo, mas apenas respirou fundo e seguiu o mais rápido que pode.

Se pudesse correria, mas como quase não conseguia enxergar o chão e ao raciocinar que tropeçar não seria um ponto positivo aquela noite, apenas andou o mais rápido que pôde. Foi então que sentiu uma estranha falta de forças. De um momento para outro, todo o corpo mudou e ele sentiu-se como se estivesse caminhando por extensas horas sem qualquer descanso. O que era fato. Nunca chegou a perceber, mas tinha andado mais aquela noite do que andaria conscientemente.

As pernas pareciam de consistência gelatinosa naquele momento. Perdeu toda a sustentação que por ventura tinha e caiu. O coração que estava calmo à oitenta agora ia para quase duzentas batidas. A respiração passou de normal para corredor de domingo ofegante. A adrenalina também não ajudava em nada e apenas piorava um quadro que já não estava bom. O suor era uma mistura de algo incrivelmente quente, quase fervendo, de exercício e frio de congelar por causa da tensão.

Com o que lhe restava de força e com um alto grau de desespero, puxou-se com seus braços até uma árvore e encostou-se. Olhava para um lado e para o outro e as árvores que quase não enxergava, agora se tornaram completamente invisíveis. Inclusive a árvore onde estava encostado já não mais enxergava, aliás, tampouco via suas mãos que levou quase ao olhos e que usava para tatear seu corpo na esperança de que nada havia desaparecido.

A única coisa que veio enxergar naquela escuridão absoluta foi um par de olhos se aproximando lentamente. Eles não faziam barulho, tampouco pareciam alocados a alguma face ou mesmo a um corpo. Eles encaravam-no e dos seus escorreram algo quente. Lágrimas, ele pensou e… vamos deixar ele pensar que eram de fato lágrimas.

A criatura dos olhos laranja continuava a se aproximar. Não conseguia decidir se era um animal de quatro patas ou algo pequeno que se movia em duas ou qualquer outra coisa. Quando eles finalmente chegaram a aproximadamente um palmo de distância de sua face que ele sentiu um bafo frio. Percebeu, tardiamente que não havia chance de salvação. Ele se viu de frente com o que traria sua morte.

Não. Não viu a vida passar diante de seus olhos, tampouco teve qualquer sentimento positivo, de arrebatamento, ou como queira chamar. A única coisa que sentiu foi impotência. Impotência ao descobrir que existiam mais coisas entre o céu e a terra do que sua vã filosofia e impotência ao descobrir que seria morto por uma delas.

A única coisa ouvida foi o retornar de grilos e sapos. Nenhuma palavra. Nenhum guincho. Nem mesmo um gemido de sua parte. Também nada por parte da criatura de olhos laranja. Ela simplesmente fez o que queria e tinha de ser feito. No dia seguinte, algo saiu da floresta. Este algo tinha corpo de homem. Um homem que fora incauto. Nunca mais cometeria este erro novamente, pois o que fora incauto jamais teria uma segunda chance…

CategoriasGeral, Histórias

Conversas com o diabo – parte 2

seg - 19/12/2011 Deixe um comentário

─ O que teria acontecido se eu não tivesse existido? ─ Perguntava uma garota sentada naquele banco de praça.

Era uma noite de verão, ainda com sol  e quente de suar em bicas. Nem o vento ajudava, pois apesar de estar soprando, este era morno e só piorava a situação. A garota em questão estava apenas pensativa. Pensativa talvez até demais. Mas se algo pode ser dito sobre pensar demais é que ajuda a esquecer o calor que está sendo feito.

─ O que será que teria acontecido? ─ Ela continuava a se perguntar. Algo tão difícil de fato. Imaginar o nada, algo complicado.

─ Muitas coisas poderiam ter acontecido mocinha, mas você não saberia de nenhuma delas. ─ Respondeu um velho que se aproximou devagar pela direita. ─ Posso me sentar? ─Ele perguntou tirando seu chapéu e revelando uma cabeça com cabelos bem finos e já completamente embranquecidos pelo tempo.

─ Ah! Quem é o senhor!? ─ Ela perguntou, obviamente, assustada.

─ Apenas um velho. E não, não sou pedófilo. Posso me sentar? Está um tanto quente. ─ Ele completou esta última frase tirando um lenço do bolso de sua camisa branco e enxugando a testa.

─ Hmm… cla… claro.

─ Obrigado. ─ Ele disse acomodando-se no banco não muito perto dela para lhe dar espaço. ─ Agora retornando a sua pergunta. ─ Ele continuou ─ A não existência implica simplesmente em não existência.

─ Do que o senhor está falando?

─ Estou falando da sua pergunta: “O que teria acontecido se eu não tivesse existido?”

─ Quer dizer que o senhor ouviu? ─ Ela disse, encabulada. Afinal estava falando sozinha, quem tivesse ouvido deveria achar que ela era maluca.

─ Ah, sim. Sim. Mas não se preocupe, minha jovem. Perguntas como essas ocorrem das mais diferentes formas e em qualquer idade. Há não muito tempo atrás, peguei-me perguntando o que teria acontecido se o diabo não tivesse existido.

─ Por que o diabo?

─ Por que não o diabo? Em tese não é ele a causa de todos os males? Mas sigamos. A sua pergunta, pelo menos a meu ver, é fácil de ser respondida. A não existência de algo, significa simplesmente a não existência.

─ Isso o senhor já falou.

─ Então você estava prestando atenção.

─ Sim… ─ Ela respondeu desnorteada. ─ Mas não faz muito sentido.

─ Veja dessa forma, se você não existisse, simplesmente não teria conhecido as pessoas que conheceu, não teria feito as coisas que fez e não haveria reflexo algum das coisas que você realizou direta ou indiretamente neste mundo.

─ Mas a dúvida é se isso seria melhor ou pior para a vida de meus amigos e dos meus pais.

─ A dúvida, na verdade, não deveria ser esta. Você simplesmente teria como imaginar nada, caso não tivesse existido.

─ Sim, mas como seria, o que eles teriam feito?

─ Sobre?

─ Tudo.

─ Da mesma maneira que fizeram até então.

─ Não estou entendendo.

─ É difícil mesmo, por uma confusão comum. Trabalhando com a possibilidade da não existência, você trabalha com todas as possibilidades existentes.

─ Como por exemplo?

─ Seus pais no dia da sua concepção ao invés de terem ido para a cama ganharam na loteria e resolveram não ter filhos. Ou seu pai ter sido atropelado naquele dia e não poder comparecer. Sua mãe ter sido hospitalizada por problemas no sistema reprodutor e ficado estéril. Eles terem tido feito todo o processo de concepção mas utilizando de métodos preservativos… ─ A medida que Adamastor falava a garota ficava cada vez mais envergonhada e de certa forma com certo nojo, afinal uma coisa eram dois desconhecidos, outra era a ideia de seus pais transando. ─ … e muitas outras possibilidades. Mas não concorda que cada uma dessas levaria a caminhos talvez semelhantes, mas distintos.

─ Ahn… ─ Ela concordou coma  cabeça por concordar e ver o que se daria daquela conversa toda.

─ Eu explico. Se você quer mesmo saber o que aconteceria caso você não existisse, você teria de considerar todas as possiblidades existentes o que te tomaria um tempo que você não terá, uma paciência que você também não terá, além  de recursos que você provavelmente nunca conseguirá para que pudesse pesquisar. Então, ao menos para satisfazer a pergunta sem abrir uma cadeia de linhas de tempo é só pensar que nada teria acontecido.

─ O senhor é professor, ou físico, ou matemático? Porque você fala de um jeito que…

─ Não condiz com minha idade? Muito jovem talvez? Queres que eu mude o pronome de tratamento para tu? este humilde senhor pode fazer isto se quiseres.

─ Não, não. ─ Ela disse com alguns risinhos. ─ É mais porque você é diferente dos meus avós e dos avós de meus amigos.

─ Minha jovem, velho não necessariamente é xucro e desgosta de aprender coisas novas. Você só precisa achar o jeito certo de mover o interesse deles. Meu interesse se move por qualquer coisa, talvez por isso seja mais fácil.

─ Desculpe o comentário, mas o senhor é estranho.

─ Está desculpada. Mas deixe-me adicionar, a vida é estranha minha jovem. Só não fique com a cabeça muito vazia, pois ela é a oficina do diabo.

─ Mas eu não penso em fazer maldades.

─ Mas isso não o impede de trabalhar ali dentro, como ele de certa forma, já trabalhou. ─ Ele fechou a frase com uma risadinha, colocou seu chapéu e foi embora.

Anúncio… Sim de novo.

sex - 16/12/2011 Deixe um comentário

Olá pessoal. Antes de mais nada, não, o Pub não fechou. Porém, forças outras me deixaram afastado da escrita durante esta semana e eu não possuia qualquer plano de contingência comigo.

Esse fim de semana poderei passar escrevendo e as coisas voltam à normalidade começando por segunda da semana que vem.

Até lá e aproveitem as bebidas… com responsabilidade.

A equipe do Fox Pub deseja a todos uma excelente e RESPONSÁVEL happy hour, além de um ótimo fim de semana.

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Um sobrado de interior… – Parte 1

sex - 09/12/2011 1 comentário

Douglas Carvalho Sales era o feliz comprador daquela excelente casa de campo no interior de São Paulo. Como diria uma música infantil, guardadas as suas devidas proporções é claro, ela era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Reitero as devidas proporções pois teto tinha. Destruído, mas tinha.

Um teto feito de um misto de telhas de coxa e madeira que foi usada para tampar os buracos causados por todas as intempéries que vez por outra assolam aquela região. Teria de mandar consertar, isso era uma certeza. Mas sem problemas, sobrara muito dinheiro. Aquela casa estranhamente saira barata. Muito barata. O dono ficou feliz de se ver livre dela. Também, estava caindo aos pedaços e “parada” o que alguém poderia querer? Mas mesmo assim estava muito barata… que fosse, aproveitaria assim mesmo. Era só fazer uma reforma básica e aquela casa serviria perfeitamente para férias de verão ou mesmo para alugar.

A propriedade toda deveria ter bons oitocentos e cinquenta metros quadrados. Sendo que desse terreno todo, duzentos e setenta e dois eram ocupados por aquele sobrado. A casa era bem grande, mesmo vista a distância em sua pick-up. Desceu do carro, abriu os portões já bem enferrujados pelo tempo e foi se aproximando devagar subindo a pequena trilha em direção ao sobrado no topo daquele pequeno cerro.

Foi subindo e o sobrado que já era grande passou a quase não caber em sua visão quando chegou próximo a varanda. Era uma varanda amigável, se você desconsiderasse as duas árvores raquíticas e cadavéricas, pois sem folhas, que se prostravam perto da entrada com os galhos de forma a  parecer que agarrariam quem estivesse saindo. “Preciso mandar cortar essas árvores depois.” Foi o primeiro pensamento que ocorreu.

Pegou a chave em seu bolso. Daquelas antigas, de abrir baús que realmente tem formato de chave e não essas porcarias de metal comido que vemos hoje em dia. Colocou a na fechadura da porta, arrastando consigo algumas pequenas teias de aranha ao passar pelo buraco e com força a girou. “Trocar a fechadura.” Olhou mais atentamente para a porta e logo outro pensamento emendou: “Talvez seja melhor tirar a porta toda.” Talvez realmente fosse uma boa ideia, aqueles marcas de garra e patas quase na metade da altura da porta não eram nem um pouco convidativas. Eram de cachorro, mas mesmo assim, deveria ser um cachorro teimoso ou muito forte para fazer um sulco daquela profundidade.

Entrou e procurou algum interruptor para que pudesse acender alguma luz. Como não encontrou de início, deu um jeito de abrir uma das grandes janelas da entrada. E fez isso o mais rápido possível, pois se a casa parecia grande por fora, por dentro e escura ela parecia algo imensurável. Abriu uma das janelas e nada que um pouco de luz não resolvesse. Tornou o pensamento de que era quase imensurável. Imensurável em termos de espaço e de quanto ele gastaria em tinta e reforma.

A casa era de alvenaria velha. Algumas paredes já tinham inchado e ele sentia o cheiro de bolor de infiltrações por causa das chuvas. Abriu outra janela e outra, até que abriu as quatro janelas principais da sala. Era um cômodo grande, precisava de ventilação, muita ventilação. Também precisava passar por controles de pragas, pois ao abrir a janela começou a ouvir movimentações. “Ratos! Tem ratos nesta casa.” Seria estranho se não houvesse.

Mas ele prosseguiu. Foi até a cozinha que ficava atrás da sala e com a luz que vinha da sala conseguiu achar um interruptor. Ele fez um grande estalo ao ser ativado, mas a lâmpada não fez nada. Resolveu abrir as janelas, o cheiro daquela casa começava a impregnar na sua cabeça e ele queria ar fresco o mais rápido possível. Existia uma logo de frente a pia, abriu tomando cuidado para não se cortar com o vidro quebrado nas molduras. Ela rangeu, travou, voltou a ranger, até que depois de um pouco de força cedeu.

Aquele ar impregnado de mofo certamente lhe faria mal no fim do dia. Mas preocuparia se com isso depois, precisava terminar de ver a casa e quando olhou a cozinha gostaria de nunca tê-la de fato olhado. Estava suja, mas isso não é suficiente para descrever. Estava imunda, mas isso também ainda não era suficiente. Estava com a parede multi-colorida de diversos tipos de mofo e gordura acumulada com o tempo no papel de parede. “Quem tem a brilhante ideia de colocar papel de parede numa cozinha!?”

Abriu a torneira da pia para ver se havia água. Não abriu tudo pois não fazia idéia do que saíria dali. Depois de uma barata sair do cano um pouco de água começou a sair. Uma água enferrujada, barrenta, cor de tétano. “Ugh!” Teria de trocar os encanamentos, e nem queria saber se ainda havia algum bom, trocaria todos eles.

Aquele lugar lhe dava nojo, náusea e um profundo mal-estar aliado com uma repulsa indescritiveis. Descobrira que pagara mais caro do que imaginava. Que fosse. Subiria para ver o primeiro andar, ou segundo dependendo de sua perspectiva, e logo sairia dali.

Se o térreo era repulsivo, e isto pois ainda não tinha olhado tudo, o primeiro andar não ficava muito atrás. A escada e o assoalho de madeira rangiam. Mesmo controlando seus passos aquelas coisas rangiam. Nhéck. Nhêck. Nhéck. Um calafrio cortou seu corpo a medida que o ranger ficava mais alto e também mais rangido, digo mais rangido pois ele conseguia ouvir movimentos muito rápidos e distintos de seus passos. “Mais ratos!” Muitos mais. Existia uma colônia naquela casa, isso já lhes adianto.

Os cômodos na mesma situação que os de baixo não possuíam nada. Apenas o cheiro podre e marcas de onde havia alguns móveis em tempos mais antigos. Talvez aquilo tudo um dia já fora muito bonito. Mas agora era apenas ruína. A reforma demoraria, seria cara e trabalhosa. Mas faria. ─ Eu deveria era colocar essa casa abaixo e construir outra! Acho que sai mais barato.

Voltaria na semana seguinte com uma equipe. Até lá, a casa que não gostou nada do que ouvira faria… digamos, algumas alterações próprias.

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