Arquivos

Posts Etiquetados ‘arco 3’

“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 4

qua - 30/11/2011 4 comentários

─ O que você quer comigo!? ─ Foi o que Melissa, aos prantos, eventualmente gritou no fim daquela noite, mas antes de chegar a isso, voltemos um pouco no tempo.

Na semana passada Rodrigo a deixara em casa. Dona Lurdes sofrera por alguns dias com uma filha estranhamente mal humorada, perguntou se era a faculdade, se era o trabalho se era alguma coisa que tinha acontecido, mas a filha continuava emburrada. Bem, isso como já disse, melhoraria tempos depois. Porém, avancemos e vamos até a quarta-feira.

Apesar dos pesares e das muitas dúvidas que pairavam na sua cabeça, Melissa estava conseguindo fazer seu trabalho impecavelmente como de costume. Até é claro a chegad de Rodrigo. Ele se sentou e mesmo antes de pedir o prato virou e perguntou a ela:

─ Sente-se melhor hoje, senhorita?

─ Ah… cla… claro. Desculpe por semana passada.

─ Não foi nada, senhorita. Aliás, se me permite, diria até que foi um prazer.

Ela enrubesceu e, como pôde, anotou o pedido dele para aquela noite. “…diria até que foi um prazer… Bastardo, maldito, cretino. Por que ele fica brincando assim comigo? Por quê!?” Ela realmente não queria admitir, mas tinha se apaixonado por aquele rapaz. Se ela sequer recordasse do que falara há quase sete meses atrás quando ele primeiro veio ao restaurante numa quarta-feira enevoada e fria, provavelmente entenderia o porquê de tudo isso. Queria alguém que fizesse o “dever de casa”. Rodrigo fez. Desestabilizou-a e cativou-a.

Muito bem, a noite parecia interminável para Melissa. Desde semana passada não estava bem. as aulas de uma semana da faculdade passaram batidas, o trabalho só fazia pois se tornara quase automático e porque a concentração em determinadas coisas faziam com que ela esquecesse outras, mas agora com o olhar dele sobre ela era difícil se concentrar mesmo no trabalho.

Aquele olhar que — sei que é repetitivo, mas este é o ponto — agora a rasgava, acariciava, despia, vestia com algum tipo de manto romântico e penetrava tudo sem sequer tocá-la, lhe deixava doente. Graças a este olhar, algumas mesas tiveram pedidos trocados na bandeja, outras receberam um guaraná ao invés do suco de laranja, mas nada muito grave. A maioria não estava com vontade de discutir numa quarta a noite e alguns dos homens nessas mesas vendo uma garçonete tão bonita, mas ao mesmo tempo que estava tão atrapalhada e tímida, simplesmente ficaram olhando mais ainda. Ou seja… piorou.

No final da noite, Melissa que estava com um cansaço fora do habitual, fora ajudar Anna com as cadeiras e as mesas.

─ Melissa, você está bem?

─ É claro que não estou bem. ─ Ela disse quase aos berros.

─ Calma mulher, o que aconteceu?

─ Oras, você sabe muito bem… e eu não sei o que fazer.

─ Já pensou em falar com… ─ Anna lembrou-se que naquele tom de voz Rodrigo poderia e quase com certeza estaria ouvindo. ─ …a pessoa que te deixou assim?

─ E o que você acha que eu devo falar?

─ Que tal a verdade? ─ Anna perguntou e logo depois que terminou: ─ Algum problema, senhoritas? ─ Rodrigo que ouvirá os berros, entrou naquela parte do salão para ver se estava tudo bem.

─ Não senhor está tudo… ─ Começou Anna, mas logo foi interrompida, pela frase com que iniciamos tudo isto. ─ O que é que você quer comigo!? ─

Agora já não era mais possível disfarçar. Ela estava aos prantos, o rubor da face tinha dado lugar a soluços, nariz escorrendo e lágrimas. O restaurante a esta altura já estava fechado, nenhum cliente mais estava por lá. Mas isso não impediu a equipe de ver o que estava acontecendo e logo depois fingir que não era com eles.

─ Me diz! O que é que você quer!? Você fica me encarando desde a primeira vez que veio aqui. Você sabe muito bem que você é um cafajeste. Se você não quer nada fala logo de uma vez e para de me atormentar! Ou melhor, por que você não vai some logo, vai embora de uma vez e deixa em paz!?

─ Eu…

─ Você o quê!? HEIN!?

─ Eu me apaixonei por você desde a primeira vez que a vi. Mas já que quer assim… ─ Rodrigo foi até o caixa, onde já tinha pedido a outro garçom para fechar sua conta, pagou, pegou uma sacola junto com o garçom e foi embora.

Verdades sabidas. Uma verdade sabida é algo que todos sabem, mas que por alguns motivos não podem ser amplamente divulgados. Neste caso, todos sabiam da paixão não admitida de Melissa por aquele rapaz. O que eles presenciaram foi quase o fim de uma novela. No caso um homem de coração partido que de fato se esforçou para conquistar uma mulher por quem se apaixonara e uma mulher que não queria admitir que gostava do homem que tanto se esforçou.

Todos fingiram que não tinham nada a ver com o que tinha ocorrido e voltaram ao trabalho para fechar o restaurante. Mas Melissa, ah!, esta chorava copiosamente. Anna a ajudou a arrumar as cadeiras e ainda tentava conversar um pouco com ela sobre o que tinha acontecido, mas ela se mostrava impassível. Tudo que ela pode fazer foi colocar um papel em seu avental. Ela encontraria quando chegasse em casa e com certeza faria alguma coisa quando o arrependimento batesse.

Já Rodrigo, simplesmente voltou para casa. Não estava bravo. Decepcionado, sim. Afinal seus esforços haviam sido, podia se dizer em vão. Mas por que haveria de se irritar? Sim, não era daqueles de se contentar com o tão, erroneamente conhecido, amor platônico, mas o que podia fazer? Se não dera certo, não dera certo. Embora, com o que havia passado para Anna há alguns dias atrás, torcia para que algo acontecesse, por isso colocou dois pedaços de bolo na geladeira e esperou.

Quanto a Melissa, esta voltou para casa, chegou um tanto quanto mais tarde “Ônibus de merda que tanto demora.” com o rosto e os olhos inchados do choro que passara, mas retornara no exato instante que ela saiu do ônibus. Mas não só isso. Também o que Anna previra: remorso. Ela passou meses negando, mas até que gostava daquele cafajeste e agora era quando se sentia mais para baixo. Depois de feita a besteira e ter praticamente expulsado-o do restaurante.

Foi em silêncio até a lavanderia para não acordar sua mãe. Esvaziava os bolsos das roupas pensando: “O que eu fui fazer. Por que eu fui falar aquilo? O que eu tinha na cabeça.” Quando sentiu na sua mão um papel. Duas coisas estavam escritas quando parou para lê-las. Um endereço numa caligrafia totalmente desconhecida e um recado de Anna. “Caso você mude de idéia…”

─ Mas será que…

Sim, era. Ela hesitou por um momento, mas depois teve certeza, era o endereço dele. ─ O que eu faço? O que faço? ─ Perguntava-se andando de um lado apra o outro. As pernas ajudaram o corpo a decidir, levou o conjunto até a porta da casa. Quando os olhos repararam onde estavam e informaram ao cérebro, este travou. Quis dar ordem de, meia volta, volver, e ir para a cama, precisava ir para a faculdade amanhã. Mas o coração discutiu. Disse que queria ir, disse que precisava ir e utilizou, vejam só, de lógica com o cérebro, dizendo que se não fosse, ele não conseguiria tirar qualquer proveito da “faculdade” que estava usando como desculpa para ir para a cama.

O cérebro sem um bom argumento, perdeu. O coração ganhou o controle e ordenou as mãos para pegar as chaves a carteira e santo deus! dane-se a bolsa. Peguem só o essencial e vamos logo.

Rodrigo continuava sentado à mesa esperando e esperando e esperando. Esperaria a noite toda se fosse preciso. O relógio marcou meia-noite. ele não se recolheu. Uma da manhã. Ele não se recolheu. Duas da manhã. Ele bocejou, mas não se recolheu. Quase três da manhã. A cabeça pesava para frente e os olhos lutavam para ficar abertos. Dormiria na cadeira, mas não se recolheria. Quando enfim os olhos pareciam desistir e se fechar para dormir, um ding dong foi ouvido.

Abriu a porta e na sua frente, via uma Melissa de cabelo desfeito, olhos e rosto inchado, vermelha e ofegante de cansaço da corrida do ponto de ônibus até a casa e com o rosto encharcado de gotas misturadas de suor e lágrimas começou: ─ Arf… Eu… eu… eu queria pedir… ─

Ele não a deixou nem terminar de falar. Sabia que não era necessário e a abraçou apertado. Ela abraçou-o de volta, apertando com a força que lhe restava e os dois ali naquela noite selaram seu primeiro beijo como casal.

Obviamente que os dois não ficariam ali na noite agarrados até o sol nascer. Digamos que eles levaram isso para locais mais privativos e mais confortáveis, onde podiam se sentir a vontade, inclusive para retirar algumas peças de roupa caso sentissem calor… Enfim, acordaram no dia seguinte, ambos atrasados para suas respectivas responsabilidades, mas não ligaram. Justificariam aquilo tudo de alguma forma. Ela foi tomar banho, Rodrigo foi preparar o café e pôs a mesa. Pão, biscoitos, café, suco e dois pedaços de bolo de nozes.

Cinco anos depois:

─ Você Rodrigo, aceita Melissa, como sua legítima esposa, na saúde e na doença, na fortuna e na pobreza e promete amá-la até que a morte os separe?

─ Sim. Eu aceito.

─ E você Melissa? Aceita Rodrigo como seu legítimo esposo, na saúde e na doença, na fortuna e na pobreza e promete amá-lo até que a morte os separe?

─ Sim. Eu aceito. ─ Disse ela apertando carinhosamente a mão dele.

─ Então eu os declaro marido e mulher. Podem selar esse matrimônio, com um beijo.

“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 3

“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 3

qua - 23/11/2011 1 comentário

“Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo…”

Devem conhecer este trecho. De qualquer forma, Rodrigo realmente cativou-a e agora poderia ele jogar as cartas que queria. Na semana seguinte ele não foi, o que causou uma certa estranheza à Melissa e Anna. Mas que foi ignorado, como a primeira vez sempre é. Provavelmente tinha algum outro compromisso naquela quarta a noite. Voltaria na semana seguinte para continuar lhe secando, foi o que Melissa pensou. Aliás, até ficaram gratas de poder fechar o restaurante “mais cedo”.

Na semana seguinte também não voltou e agora era uma preocupação real. “O que será que aconteceu? Afinal ele virou cliente habitual.” “Será que está bem?” “Será que haviam feito algo que não lhe agradava, ou teria ele algum problema com o restaurante?” Terceira semana. “Será que está fora da cidade? Mas não é comum uma pessoa ficar fora por tanto tempo.” Quarta semana. “É, acho que ele não vai mais voltar, que pena. Apesar de pequena ele sempre me dava uma gorjeta e… não Melissa, foque-se no seu trabalho, você não desenvolveu sentimentos por um cara daquele.”

Até que ele finalmente voltou. Saudou o maitre que o reconheceu quando ele entrou pela porta da frente e foi até sua mesa habitual. Rodrigo sentia que todos os garçons de repente ficaram mais calorosos. Como se vissem um velho amigo que não viam há algum tempo, e se os garçons já estavam assim, o que dizer de Melissa, que passara aquele fim de noite com um rubor na face que insistia em não ir embora?

No final da noite algum tempo depois do restaurante começar o processo para fechar, estava Melissa a arrumar as cadeiras e mesas com Anna ─ algo que era estranho, mas ao mesmo tempo familiar.

─ Você viu, Melissa? O Rodrigo voltou. ─ Disse Anna quase aos sussurros.

─ Fala mais baixo. Você não vai querer que ele escute.

─ Ele nem está nos ouvindo, calma. Aliás, por que você está tão vermelha?

─ Eu não estou vermelha. ─ Melissa disse num tom de voz razoável.

─ E por que eu tenho que falar baixo e você não? Vai finalmente admitir que está interessada nele?

─ Não é nada disso! Eu não estou interessado naquele cafajeste. Primeiro ele vem aqui e fica me encarando, depois faz isso por meses a fio até que fica um mês fora!

─ Imagina que você não está apaixonada. ─ Disse Anna entre risos.

─ Não estou. ─ Melissa dizia emburrada.

Rodrigo que dessa vez, sim, fez questão de ouvir a conversa, ria à toa. O que mais podia fazer? Seu plano dara muito certo e aquele processo todo da conquista valeria muito a pena em breve. Claro, teria de ser cuidadoso quando definitivamente com ela. Afinal mulheres podem ser também incrivelmente vingativas e cruéis. É difícil cativá-las e mais difícil ainda é segurar a fúria descabida delas caso as coisas não saiam sempre do jeito que elas querem. “Ah, mulheres… mas ainda assim, muito melhor com elas do que sem elas.” Pensava.

Voltou para a mesa e agora era só esperar. A conversa continuaria mais um pouquinho e Melissa voltaria para retirar a mesa com o rosto mais vermelho ainda do que passara a noite toda. Rodrigo adotou o procedimento padrão: A conta e um bolo de nozes, por favor. Mas adicionou mais uma coisa a sua fala: Desculpe me intrometer, mas a senhorita está se sentindo bem?

Melissa, que estava tensa ficou ainda mais. Achava que ele iria fazer o de sempre e a deixar em paz. ─ Si… Sim. ─ Ela disse com uma gaguez perceptível.

─ Tem certeza? Seu rosto está bem vermelho. Está com febre?

─ Não. Eu estou bem sério, obrigada por se preocupar.

─ Muito bem, mas se quiser posso lhe dar uma carona até o hospital ou sua casa se precisar.

─ Ah, muito obrigado senhor Rodrigo, mas realmente não precisa.

─ Precisa sim! ─ Disse Anna que veio por trás de Melissa sem esta perceber. ─ Por favor, senhor, se puder leve a para casa. Ela chegou hoje não muito bem. Mandamos ela voltar para casa, mas quis ficar. Como não era nada contagioso, deixamos. ─ Desnecessário dizer duas coisas, mas direi mesmo assim: A – Melissa congelou. B – Melissa quis matar Anna por ter feito aquilo. “Anna, quando eu puder eu vou te enforcar com os panos de secar pratos!”

─ Claro, levo ela sim. Gostaria de uma carona também, senhorita…?

─ Anna. Senhorita Anna. Não senhor Rodrigo, muito obrigada, só leve a Melissa para casa por favor.

─ Claro, sem problema algum. Fica decidido então que assim que todos terminarem eu levo ela comigo?

─ N… Nã… ─ ─ Sim! Perfeito, senhor. ─ “ANNA!”

Rodrigo começou a comer seu pedaço de bolo enquanto as duas foram para o vestiário se trocar. Melissa, obviamente, gritou o quanto pôde com Anna que por sua vez dava risada da cara da amiga e dizia para que ela fosse um pouquinho mais sincera consigo mesma.

Todos terminaram, Rodrigo esperava do lado de fora do restaurante e Melissa que agora estava sem o uniforme apareceu.

Estava mais deslumbrante ainda que da primeira vez. Com o céu limpo e uma Lua cheia, ele finalmente pode ver ela num estado mais natural. Trajando um par de calças jeans, com um par de sapatos confortáveis e um vestido branco mais grosso que ia até o joelho e que não era transparente ela era a criatura mais encantadora aos olhos dele.

Mas dessa vez não ficou babando por ela. Não podia. Sua missão aquela noite era levá-la para casa e não deixar nada acontecer. A parte mais dfifícil, mas que daria mais frutos no final. Abriu a porta do carro para ela, os dois se acomodaram e a levou a para casa. Ficava num meio de bairro, onde muitas casinhas residencias, todas parecidas umas com as outras, porém, muito bem cuidadas e jeitosas ficavam. Não falou nada durante o trajeto todo, além de perguntar se ela estava bem e se tinha certeza de que não queria ser levada para o hospital.

Mas ela disse que não. Só precisava descansar um pouco. Quando ele chegou, ela agradeceu, ele virou o rosto para ela e ali ela se demorou. Ele sabia muito bem que poderia beijá-la naquele instante. Mas fazer isso seria estragar tudo. “O que ele está esperando?” Melissa pensava. Ela queria o beijo e não era possível que assim ele também não o quisesse. Mas eventualmente ela ficou sem graça e desistiu, foi deixada aos cuidados de sua mãe que saiu no portão para ver o que era aquele carro parado em frente à casa e que depois seria culpada por estragar o momento do beijo.

É claro, ele conseguia ver a mãe dela, mas ela não. Por isso não fez nada. Maldição. Por que não poderia ter olhos na nuca para ver a razão ao invés de ter de fazer papel de boba? E porque sua mãe tinha que estragar aquele momento? Coitada de dona Lurdes, sofreria uns dois dias um pouco do mau humor da filha que Rodrigo sabia que uma hora ou outra aconteceria.

Quanto a ele, voltou para casa e com certeza voltaria ao restaurante na semana que vem.

“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 2

qua - 16/11/2011 1 comentário

Semana que vem voltaria e na semana seguinte voltou.

Com um tempo cinza bem escuro com a única luz possível vinda das ruas, Rodrigo sentara-se a mesma mesa que havia sentado e no mesmo horário que havia chegado da última vez. Seu procedimento também fora o mesmo. Saboreava a comida e saboreava a linda visão que Melissa lhe proporcionava. Da mesma forma fez com que o restaurante ficasse aberto até um pouco mais tarde e terminava seu pedido com: “A conta e um bolo de nozes, por favor.”

Melissa e Anna não esperavam que ele voltasse, mas a reação das duas foi a mesma que na semana passada. Anna ainda mostrou interesse pelo rapaz, e Melissa, que havia feito seu trabalho, novamente impecável, ─ como o faz sempre ─ se mostrou novamente decepcionada por uma gorjeta tão pequena, mas impassível quanto aos olhares de Rodrigo.

Isso se manteve assim até que ele pode ser considerado um frequentador habitual ─ ou habitue se preferirem ─ do restaurante. Sempre no mesmo horário, sempre a mesma mesa, sempre o mesmo comportamento de comer devagar e observá-la devagar e sempre o mesmo pedido do bolo de nozes.

Quanto a Melissa, a frieza e impassividade dela começaram a se desfazer depois do primeiro mês e meio. Se na primeira vez aquele olhar não arranhava, depois de um tempo começou a afetá-la. Por fim, depois de cinco meses e meio, e portanto, vinte e três ─ contando com a primeira ─  visitas de Rodrigo ao restaurante, a indiferença dela se quebrara. Quando quarta-feira chegava e um determinado horário se aproximava, ela já se colocava de prontidão imaginando o que ele pediria dessa vez, além do bolo de nozes ao final.

Finalmente passou a compreender o que alguns garçons mais antigos falavam sobre saber sobre os gostos e talvez um pouco da personalidade de determinados clientes. Porém, ela começava se perguntar: O que sabia sobre ele? Além do nome ─ “Rodrigo” ─ e do tipo físico ─ “Cabelos curtos, um tanto quanto espetados, mas ainda assim bem arrumados para os padrões de hoje, olhos castanhos que pareciam amêndoas… epa amêndoas?”

E ali, vocês podem ver que nossa heroína começa a ficar preocupada. “É claro que ele não tem olhos castanhos que parecem amêndoas, seus olhos são daquele castanho batido que vemos todo dia.” E isso era verdade de fato os olhos de Rodrigo, não tinham nada de especial. Mas se não tinham, por que ela fez essa comparação? De qualquer forma, ela continuou a descrevê-lo ─ ou ao menos tentar ─ para ver o que sabia sobre ele.

“Sabia que o nariz era levemente arrebitado e a pele apesar de branca, possuía algumas sardas. Deveria ter pai ou avô ruivo e… O que aquilo importava? Ele era apenas mais um cliente.” Pensava consigo mesma. Mas apesar do olhar continuar a seguí-la descaradamente, por que não fazia nada?

Bem, para começar seu trabalho a impedia de brigar com os clientes, além de colocá-la nos holofotes para ser vista. Segundo que apesar daquele olhar de desejo, não era um olhar necessariamente lascivo, apesar de que Rodrigo, imaginou sim, mil e uma possibilidades lascivas, mas parecia ter se abrandado com o tempo. Para ela, era um desejo por algo a mais e não apenas um desejo por desejo. Já para Rodrigo, cujo olhar não mudara desde o primeiro dia, era bom sinal que ela pensasse isso. Afinal de contas, aquele olhar era pelos dois. Não apenas pelo sexo. Se essa fosse a questão, teria economizado o dinheiro que gastara no restaurante e poderia ter ido a algum inferninho.

Mas voltando a nossa história, virou hábito Melissa ajudar Anna a arrumar a outra metade do salão divida por aquela parede. Rodrigo percebeu que poderia ficar ouvindo de soslaio sempre que quisesse desde que fosse cuidadoso. Mas uma informação privilegiada já era demais, além disso. Ele já imaginava o que uma hora elas iriam conversar. Ele só precisava de um sinal, qualquer sinal e poderia começar a realmente colocar o plano em ação.

─ Melissa, já notou que esse cara virou um habitue?

─ Imagina, ele vem toda quarta-feira no mesmo horário e senta na mesma mesa, na minha praça. Eu jamais iria descobrir.

─ Ei, não precisa ficar brava.

─ Desculpa, Anna. É que sei lá. Os olhos desse cara me perseguem desde o primeiro dia.

─ E ele já te falou alguma coisa?

─ Nada e isso que é pior. Se ele falasse alguma coisa, qualquer coisa, eu poderia acabar com isso, logo de uma vez.

─ Acabar? Mas ele vem aqui toda quarta-feira por sua causa. Está na cara isso. Do contrário ele não ficaria olhando para você todo o tempo.

─ Talvez. Mas… Mas…

─ Mas o quê? O olhar dele te irrita? É isso?

─ Hmm… Não, mas acho que poderia dizer isso.

─ O olhar dele mexe com você?

─ É, mais ou menos…

─ Você está começando a gostar do cara e não quer admitir isso.

─ Mentira! ─ Uma palavra que saiu um pouco mais alto, junto é claro com uma face toda vermelha de vergonha. Ainda com o complemento de: ─ Eu não gosto dele, é só que… ─ Em tom de voz baixo. Mas Rodrigo tinha ouvido o “Mentira!” ao longe. Achou que seria mais indireto, mas foi um sinal até que bem claro.

Muito bem, se era mentira que ela gostava dele, então ele só tinha uma coisa a fazer. Com aquele sorriso cínico no rosto que durou enquanto Melissa não voltava, ele pensava, que um mês mais seria o suficiente.

Eventualmente Melissa voltou. Estava com uma aparência plácida da indiferença de sempre e Rodrigo que recentemente acabara a refeição chamou-a e pediu a conta; ainda foi adicionar: ─ Ah, e um… ─ ─ Um bolo de nozes, certo? ─ Ela disse interrompendo-o com uma voz amigável e suave. ─ Por favor. ─ Disse ele com um sorriso bem educado.

Pagou, deu a gorjeta, comeu e se despediu sem falar nada. Tudo como havia feito em todas as outras vezes sem exceção sequer. Agora tudo o que precisava fazer para continuar esse processo era não aparecer durante um tempo. Cativou-a. Criou nela a expectativa de que ele voltaria com a mesma frequência. O que aconteceria então se ele parasse de vir durante algum tempo?

Descobriria em breve.

“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 1

qua - 09/11/2011 2 comentários

Sentado naquele restaurante Rodrigo ficava apenas observando as garçonetes. Uma em especial, não sabia o nome dela, mas a olhava fixamente. Ele comia vagarosamente. Saboreando o prato, e saboreando-a. Ele pedira uma refeição completa, mesmo sabendo que haviam poucos clientes e que o restaurante estava para fechar. Teve a sorte de a atendente de sua praça ser aquela mulher, pois isso no fundo significava que ela deveria serví-lo enquanto ele ainda estivesse lá.

Sem conseguir parar de olhá-la, sentia-se o bastardo mais controlador de todos. Ditando todos os movimentos dela.  Aparentemente ela não se incomodava. Era o trabalho dela, e mais, sabia que era bonita. Os cabelos louros naturais ─ coisa rara hoje em dia ─ e os olhos verdes ─ ah, aqueles olhos verdes de enlouquecer ─ simplesmente clamavam por atenção.

Ela que também estava completamente bem cuidada, apesar de ser fim de expediente, tinha os cabelos sedosos e presos de uma maneira elegante; o uniforme muito bem passado era um longo vestido preto acompanhado por uma saia xadrez escuro e um avental branco. Este último dava a ela e ao restaurante ─ que com todos os móveis e praticamente todos os enfeites feitos em madeira muito bem trabalhada ─ um ar muito clássico, quase antigo, mas que passava aquela sensação de comforto ímpar, como se o cliente pudesse estar ainda na era da colônia.

Uma amiga dela que arrumava as cadeiras em outra parte do restaurante dividida por uma parede, pediu a ela que se juntasse e ajudasse-a a terminar a sua praça. Ela simplesmente foi até Rodrigo que ainda estava na metade do prato principal e bebericando sua taça de vinho e avisou lhe que se precisasse de alguma coisa poderia chamá-la.  ─ Mas qual seu nome? ─ Rodrigo perguntou e a resposta que ouviu em uma voz suave foi: Melissa.

“Melissa, que lindo nome.” Assim ele pensava. E ficava alheio ao mundo pensando nela entre uma mordiscada em seu prato e um beberico em sua taça de vinho.

Mas do outro lado, Melissa e Anna ─ sua companheira de trabalho ─ arrumavam as cadeiras e conversavam baixinho quase em sussuros.

─ Melissa, você viu a quanto tempo aquele cara está te olhando?

─ Ah sim, mas não vai acontecer nada.

─ Por quê? Ele que não me ouça, mas ele é um gato.

─ Você acha? Ele me pareceu tão comum.

─ Vai dizer que você não prestou atenção nele? Aquele rosto parece que foi esculpido e quando ele entrou eu notei um certo volume.

─ Eu não acredito que você olhou para as calças dele.

─ Oras, eu também posso me interessar não posso? ─Ela disse entre risos.

─ Haha, pode, pode. ─ Melissa, afirmava com a cabeça enquanto colocava algumas das cadeiras sobre a mesa. ─ Mas se você ficou tão interessada, por que não tenta?

─ Você é besta? Ele passou a noite toda olhando para você e nesse momento deve estar bobo pensando apenas em você. Eu não tenho chance nenhuma.

─ É mas se dependesse de mim poderia pegá-lo para você a vontade. Pois eu já sei o que vai acontecer. Ele vai dar alguma indireta ou uma cantada daquelas bem idiotas, eu vou falar que não, e possivelmente perdemos um cliente. Ou então ele vai colocar uma gorjeta alta achando que com isso consegue me comprar.

─ Ah mas vai dizer que você não pega o dinheiro.

─É claro que aceito, não sou boba. Mas eu só gostaria que eles parassem com isso, se me querem terão de fazer o dever de casa.

“Que assim seja.” Pensou Rodrigo que terminou a refeição rapidamente e ficou de soslaio encostado à parede ouvindo toda a conversa das duas desde o início. Se antes ele se sentia o bastardo mais controlador, agora sabia que a teria em mãos, principalmente depois do elogio que recebera de sua amiga de trabalho.

Voltou para a mesa como se nada houvesse acontecido, colocou seu casaco, pois de repente esfriara ─ algo que a meteorologia havia previsto para aquela noite ─ e logo mais Melissa retornara para retirar os pratos e perguntar se ele desejava mais alguma coisa. Disse que gostaria de um pedaço de bolo de nozes para a sobremesa e que já poderia fechar a conta. Ela anotou a última ordem em sua caderneta, retirou os pratos e finalmente voltou com tudo.

Ele antes de começar a comer o bolo pagou, deu lhe uma gorjeta modesta, algo que não só a surpreendeu como a deixou um tanto quanto brava ─ ora bolas, o seu serviço havia sido excelente e completamente impecável ─ e ficou a olhá-la arrumar arrumar sua própria praça com o auxílio de Anna. Seus olhos agora mais descaradamente que nunca iam de um lado e para o outro a seguí-la, mas ele sabia exatamente o que fazer.

Terminou seu bolo, agradeceu pelo jantar e pelo excelente serviço e se foi. Simples assim, se foi sem dizer uma única palavra a ela em um tom mais pessoal. As duas colocaram o sorriso padrão em seus rostos e esperaram que ele fosse embora para começar a conversar.

─ Porque ele vai me dar uma indireta, me passar uma cantada idiota ou tentar me comprar. Pelo visto foi a terceira.

─ Nem a terceira foi, o mão de vaca me deu uma gorjeta normal.

─ Haha. Puxa, pelo visto você se enganou ou então ele se mostrou mais esperto do que você.

─ Aquele cretino!

E Rodrigo apenas caminhava lentamente de volta para casa naquele frio enevoado da noite. Com aquela informação privilegiada, não cometera um primeiro erro fatal que acabaria com qualquer chance que ele pudesse vir a ter. Só teria de ser paciente. E economizar para começar a jantar naquele restaurante de maneira habitual. Semana que vem provavelmente voltaria.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 45 other followers