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Um livro… ou ao menos o trecho de um.

sáb - 21/04/2012 5 comentários

Não, isto não é mais um dos folhetins que nunca termino por aqui. Quem sabe um pouco sobre mim, tem ciência de que escrevi um livro. E como todo autor iniciante – afinal ser desconhecido é normal – vim fazer o clichê de divulgar o que escrevi.

O nome do livro é “Fantasia: Viagens – Larry” e no momento aguardo ansiosamente que a pessoa responsável pela capa de meu livro termine o trabalho para que eu possa mandar uma cópia – e provavelmente tomar muitos nãos já que começar é difícil – para as editoras Brasil afora.

Por isso, deixarei então o prólogo por aqui. Tudo o que peço das pessoas que lerem é: comentem a respeito. Não do tipo de espalhar por aí – embora eu ficaria grato se isso acontecesse – mas de comentar sobre a escrita, se cativou, despertou o interesse, se foi a pior coisa que leu na vida, que o escritor é bobo feio e tem cara de pastel, poderia melhorar aqui e ali, etc.  Enfim, o texto:

 

 ?

O líquido no caldeirão era mexido com suavidade. Bolhas formavam-se da mistura e seu potencial era revelado aos poucos e cuidadosamente. Cinco velhos com barbas tão longas quanto suas costas eram corcundas estavam observando. Mas particularmente, um estava roendo as unhas, outros estavam rindo e um tão entediado com tudo que dormiu de pé em seu lugar.

Eles assistiam à cena de quatro pessoas numa situação não muito amigável. Presos numa espécie de caverna e desesperadamente procurando por uma saída.

─ Esse suspense vai me matar. ─ Disse o que roía as unhas.

─ Eu pensei que sua idade faria o favor, seu velho caquético. ─ Disse outro.

─ Não fale comigo dessa maneira seu trapaceiro, nós temos a mesma idade! ─ Disse o velho que estava roendo as unhas; ele parou e balançou seu indicador num fino gesto de desaprovação.

─ Vocês dois podem calar suas matracas? Isso aqui está interessante. ─ Disse um outro deles com um tom de voz jovem que nada tinha a ver com sua real idade.

─ Seu abelhudo! Não se intrometa onde você não é bem vindo. ─ Disseram os dois em uníssono.

Os três começaram uma discussão acalorada, e graças a isso o que estava dormindo em pé acordou. Vendo aquela comoção toda ele fez a única coisa lógica a ser feita. Bateu na cabeça deles com seu bastão de suporte e voltou a dormir.

Eles, por sua vez, não esperaram muito por uma chance de vingança. O ato de arrancar o bastão suporte de lugar, fez o velho ir ao chão como uma fruta madura. Ele levantou tão tonto quanto uma pessoa pode se levantar depois que cai no chão dormindo e depois que recuperou os sentidos, gritou com sua voz de trovão amaldiçoando os outros.

Foi quando o último deles, que não tinha entrado na briga, bateu com força na cabeça dos quatro e gritou para que os ânimos se acalmassem.

─ Alten! Starsi! Vanhuk! Senyvas! Silêncio! Lembrem-se de que o que estamos fazendo aqui é muito importante.

─ Sim, Elder. ─ Disse o grupo como crianças que foram repreendidas pela mãe.

─ Viu o que você fez Vanhuk? ─ Disse Starsi.

─ Eu!? Você é quem fica roendo as unhas e fazendo comentários estúpidos.

─ Eu comento o que eu quero e…

─ SILÊNCIO! ─ Elder gritou com sua voz solene. ─ Pelos deuses! Vocês conseguem ser piores que crianças!

─ Poderia voltar dormir à eu, Elder? ─ Senyvas perguntou na sua inalterável voz de trovão além de severamente perturbada e quase inexistente sintaxe.

─ Não! Agora eu preciso que todos se foquem. Alten, continue mexendo. Nós perdemos a conexão.

─ Me obrigue! ─ Alten disse cruzando os braços.

Elder deu uma encarada profunda em Alten. Não parecia mais o velho rapaz que estava rindo há apenas cinco minutos. Com sua cara cheia de rugas, cabelo totalmente branco e olhos castanhos fundo escuros, parecia muito mais velho do que a verdade; e nesses momentos específicos, não era muito esperto contradizê-lo.

─ Tá bom, tá bom, eu faço. Droga ─ Adicionou baixinho.

Alten começou a mexer e os outros a balbuciar palavras que não seriam reconhecidas em qualquer linguagem possível. Novamente a superfície da mistura se tornou clara o bastante e as imagens voltaram; agora era possível ver quatro pessoas tentando escapar de algo.

─ Mas como eles… ─ Starsi começou.

─ Shh. Quieto. Nós não conseguimos ouvi-los.

Os quatro jovens corriam o mais rápido que podiam de um objeto gigante envolto por uma densa névoa no caldeirão dos velhos, quando, de repente, suas vozes se fizeram claras.

─ Larry! O que nós vamos fazer!? ─ Disse o garoto correndo do lado direito de uma garota, no que parecia um amplo corredor.

─ Continue correndo, Volpi! Apenas continue correndo! ─ Disse o que estava ao centro.

─ Larry! Ailith está cansada! ─ Disse a garota ao lado de Volpi.

─ Aili, querida, você conseguiria aguentar só mais um pouco!? ─ Larry disse usando um tom de voz gentil, geralmente reservado a crianças de cinco anos. ─ Droga. ─ Resmungou para si. ─ O que poderia ser pior que uma pedra gigante vindo em nossa direção?

─ Duas pedras gigantes vindo em nossa direção. Em chamas! ─ Disse a garota do lado direito de Larry que olhou para trás e gritou algumas palavras.

… … … … … …

─ GGGGRRRRRRRHHHHYYAAAAAAAAAAAAAAAH!!!! Lykke!!! Por que DIABOS!?!?!? Se eu pudesse parar por um momento, eu te esganava!!! ─ Vociferou Larry enquanto corria e olhava para trás. E assim foi como, Morte, de repente, tornou-se duas pedras gigantes em chamas.

─ Aw Larry, vamos lá. Apenas pense que as coisas estão agora muito mais interessantes. ─ Disse com um sorriso infantil. ─ Mais, se nós sobrevivermos, nossa história será DEMAIS!

Os velhos assistindo à cena desataram a rir.

─ Que dia maravilhoso para uma boa corrida. ─ Disse Vanhuk num tom bem sarcástico.

─ Aquela certa está garota. A será história impressionante… esperta muito, esperta muito. ─ Senyvas disse enquanto alisava a barba ridiculamente longa.

─ Ainda, essas crianças continuam a me surpreender. ─ Elder disse com seu bom humor de volta em seu rosto.

Eu lamento interromper isto, contudo, nossa história não começa dessa maneira. E mesmo sendo o narrador, eu não gostaria de atrair a ira vingativa deles para mim, tampouco para você. Então… Eu vou escovar os dentes.

Retorno… – Geração Facebook.

sáb - 25/02/2012 1 comentário

Æther! Por quanto tempo este pub ficou trancado? Ah, está tudo cheio de pó, a limpeza vai ser longa. Ah, boa noite. Não esperava um cliente agora tão tarde. Pode entrar, fique a vontade, lamento pelo pó. Quer beber alguma coisa?

Você pega um cardápio e me aponta uma bebida, te lavo rapidamente um copo e lhe sirvo numa mesa, onde você limpou o pó da cadeira e apoiou o cotovelo direito em cima da toalha que estendi para que ficasse com um pouco menos de poeira.

Realmente não esperava um cliente. Eu te digo enquanto você beberica a bebida e me olha atentamente. Não posso fazer muito com um pub sujo, tampouco escrever, mas tenho alguns assuntos na cabeça se quiser ficar e ouvir… Você afirma com a cabeça e eu começo a limpar as coisas e a falar.

Ai ai, tem tanta coisa para fazer. Preciso dar um jeito nesse pub. Sabe, as coisas andaram um tanto quanto caóticas… senti falta deste lugar.  Senti falta até mesmo das canetas que uso por aqui. Uma delas já não funciona se for usada com outra pessoa, haha… ai ai não queria ter de abandonar este lugar, mas outras prioridades chamaram. Acho que você até entende, ao menos é o que vou tentar tirar de sua reação neutra.

Desculpe, não deveria estar te incomodando com isso, mas não sei, talvez você tenha sentido alguma falta também. Eu espero que sim. Mas que seja… rapaz, como tem louça. Você vê o barman colocar sua mão na testa e olhar de desapontadamente para um monte de copos. Vai tudo para a máquina… Você me ouve e me vê colocando um monte de copos, taças e alguns pratos numa máquina de lavar de doze serviços. Pronto tudo certo. Agora só limpar as garrafas… Você não se decide se o barman têm hábito de falar sozinho ou está falando porque te tem como interlocutor, mas dá mais um gole em sua bebida enquanto o observa tirar uma série de garrafas, umedecer um pano e limpá-las cuidadosamente.

Uma vez… Você vê novamente o barman começando a falar, mas dessa vez parece que ele vai mudar de assunto. … eu escrevi um texto sobre a Internet estar atrapalhando meu pub. No caso era porque uma vez perdi muito tempo olhando coisas outras que não cuidar daqui, mas sempre quis falar um pouco mais das redes sociais, inclusive do Facebook que parece ter dominado isso tudo.

Quando eu ainda estava no facebook, apesar da página de nosso pub existir por lá o dono não está, vai entender… Bem, quando estava lá, eu vi que as coisas estavam indo de mal a pior. Sabe, a vida às vezes torna-se deprimente. É incrível o que as pessoas fazem hoje em dia. Conceitos como privacidade ou então vergonha, mesmo a vergonha alheia parecem estar desaparecendo aos poucos.

Você segue com os olhos, desvia um pouco, mas deixe o barman continuar, ainda não resolveu emitir sua opinião. Vejo pessoas escrevendo coisas sem nexo. Delirando na realidade. Destruindo um idioma bonito… é bonito, tem coisas horrorosas, mas todo idioma é assim, e penso: Por quê? Simplesmente, por quê?

O que acontece com a realidade que cada vez tem menos nexo? As pessoas se expõem cada vez mais por cada vez menos e tratam de sua intimidade como se fosse algo tão banal quanto respirar. Não sei se sou só eu que fico incomodado, mas por que tenho que saber o que alguém comeu ou deixou de comer? Por que tenho de saber o que a pessoa fez ou deixou de fazer? Nem conhecia a maioria que estava lá, ou então quase nem falava com elas no mundo real; por que, de repente, falaria no virtual?

Você deixa o barman continuar enquanto ele começa a arrumar as garrafas de whisky e outras bebidas na prateleira do bar. Beira a ser deprimente, acho que o mundo como um todo. Não tenho nada contra as pessoas fazerem o que quiserem de suas vidas, seja no âmbito social, profissional ou mesmo sexual, mas para que se exibirem tanto? Para que divulgarem a vida como se fosse um livro aberto?

Isso, na opinião deste humilde barman, é claro, vai matando as relações humanas ao invés de ajudá-las como dizem. Onde está o mistério em conhecer outra pessoa? Onde está o verdadeiro convívio? Talvez, sei lá, eu esteja ficando velho, ou minha alma é velha demais, acho que você não diria que sou velho olhando para meu físico.

De fato você não diz, beberica mais um pouco, olha para o rosto do barman ainda novo e sem qualquer ruga e deixa ele prosseguir. Talvez minha alma tenha envelhecido mais que meu corpo… é possível. Você me vê colocando uma última garrafa na prateleira e vendo que ainda vai demorar um pouco para a lava-louças terminar. O vê pegar um balde com um pouco de água, alguns panos e uma garrafa de álcool gel e dirigir-se para limpar todas as mesas e cadeiras.

Meus peixes… ainda estão vivos? Alguém deve tê-los alimentado enquanto estive fora. Você olha o barman parando antes de começar e de fato surpreso. O tanque dos peixes que formam um dos aquários mais bonitos e mais criativos que você já viu, visto que eles percorrem o pub todo com um sistema de tubos de vidro e acrílico ,é a coisa mais limpa do pub do todo; além disso os peixes nadam livremente por aí enquanto você os vê contrastando com a luz azulada do sistema.

Será que foi aquele cara? Ele vem aqui, escreve uns textos. Já o peguei saindo uma vez, porém, não vi como ele era. Só vi que deixou um texto em cima da mesa. As vezes imagino-0 como o típico James Bond, pelo menos o último texto dele passou essa impressão. Você acena com a cabeça mais para concordar do que outra coisa; afinal não consegue se lembrar perfeitamente do texto, aliás quase não se lembra, talvez de uma olhada depois.

Voltando ao facebook, tem também o fato de que mesmo os portais de notícias que estão por lá começam a abordar temas que não interessam tanto assim. Temas que soam incrivelmente fúteis, deixando o que realmente importa ou o que as pessoas realmente deveriam se preocupar para segundo plano. Claro que, todo meio de comunicação visa o lucro, não os censuro por isso, mas minha pergunta é: Será que o nível está tão baixo que o que estão veiculando é realmente tudo que os usuários de lá se interessam?

Sei que são maioria jovens, mas conheci velhos também e… quer mais uma dose? Você que terminou sua bebida, afirma com a cabeça vê o barman parar o que está fazendo, preparar outra bebida e lhe servindo com mais um copo que ele acabara de lavar. Então, não quero generalizar e falar que são só jovens, afinal já vi adultos e idosos por lá também. Eles jogam farmville. Você vê o barman com um olhar misturado de raiva com desapontamento e ironia. Engraçado… ele continua …que quando eu era jovem, video-game era coisa de criança. Isso me leva a pensar que adultos também não são muito o que eles dizem ser, mas isso é para outro dia.

Você beberica mais um pouco e continua a acompanhar o barman com os olhos. Ele limpa as mesas rapidamente, mas com habilidade, está acostumado a isso. A máquina de lavar louças apita e ele se dirige para lá, abre a tampa e deixa o vapor subir. Com um outro pano vai pegando peça por peça de louça, termina de secá-la e guarda nos armários.

Mas claro, isso não é só o facebook, tampouco começou com ele. O país de vocês, o Brasil, começou com o Orkut. Ele foi muito pouco usado por outros países pelo que pude ver. Parece que aqui ainda é bastante usado, mas se for falar dos problemas dele, vou repetir o mesmo do facebook. Eu tive minha fase mais jovem e tive um cadastro em redes sociais, mas agora eu não consigo mais entender a utilidade delas. Claro, elas aproximam, mas só o fazem se você está disposto a se aproximar, do contrário é igual uma relação de vizinhos que nunca se falam, só pedem alguma coisa emprestada um do outro de tempos em tempos.

Ou então, pior ainda. As pessoas acumulam “amigos”… você nota um tom sarcástico nessa última palavra… que no fundo significam nada. São só mais um número em um contador. Ou então medem seu número de mensagens ou comentários do que compartilham. Hoje em dia o comum é o número de gostei… você vê o barman fazer um joinha… dados em algo. Se alguém desgosta, essa pessoa logo é execrada. Ainda bem, mas ainda bem de certa forma, que a anonimicidade ainda existe. Alguns realmente ficam irados quando alguém desgosta de algo que elas gostam. Ou isso ou como se veem em bando, mesmo que virtual, se sentem mais poderosas para desafiar e falar: Quem você acha que é para desgostar do que eu gosto?

Ai ai. Entende minha dor? Parece que além da intimidade estar indo para o inferno as pessoas estão se tornando mais violentas e covardes pois só atacam se sabem que estão em bando pelo número de gostei. E nem vou comentar sobre as coisas que elas compartilham, algumas são de fatos engraçadas, outras são simplesmente inúteis, mas como isso é assim com tudo, sua milhagem pode variar. Pode ir longe ou muito perto, não sei. Você vê o barman secando alguns últimos copos e os guardando, levanta-se e vai até o balcão para pagar pelo que consumiu. Não, não. É por conta da casa. Fiquei muito tempo fora então.., só faça o seguinte, se você estiver passando mal chame um táxi, em plena madrugada de sexta não gostaria que um cliente se acidentasse.

Você guarda sua carteira, vê o barman te dar um sorriso e sai pela porta. Sente o vento gélido na noite quente, olha para o céu sem nuvens e começa a voltar para casa. Quanto ao barman, você dá a última olhada para trás e o vê arrumando mais algumas cadeira. Será uma longa noite para ele.

Um dia de domingo.

seg - 05/12/2011 2 comentários

Um dia acordou ao amanhecer em pleno domingo. Rolou na cama e o sono não veio. Decidiu sair. Sem celular, carteira, documentos, ou mesmo comer, se foi. Ao menos foi vestida. Roupa íntima, calça jeans, sutiã esportivo, camiseta larga e sandálias. Estava suficiente.

Mas saiu para quê? O que iria fazer? Para onde iria? Com quem falaria? Sabia resposta nenhuma para todas estas perguntas. Se alguém perguntasse, diria que descobriria na hora. A única coisa em que pensava era: nada. Tinha a mente vazia, sabe se lá porquê. No fundo, no fundo, talvez estivesse inquieta e não sabia. Para acordar tão cedo num domingo e sair assim sem mais nem menos, algo deveria ter acontecido.

Problemas na escola? Não. Com a família? Não. Românticos? Não. Falta de romance? Também não. Dinheiro? Talvez, mas não era esse o caso. Amigos? Necas de problemas. Que diacho esté errado com aquela menina!? Os pais perguntariam mais tarde quando soubessem do dia que passaria. As pernas foram levando e ela foi olhando as árvores. Estava junto dos pais na casa dos avós no interior. Talvez isso pudesse atraí-la para sair assim desse jeito. Posto que nunca fora muito chegada em natureza, estava ainda assim extremamente entusiasmada em olhar e contemplar ao seu redor.

Pomares dentro das chácaras com árvores de todos os tipos. Limoeiros, laranjeiras, pintagueiras, macieiras, jabuticabeiras, caramboleiros, pereiras, amoreiras, mais e mais eiras e eiros e apenas olhava. Mais tarde sentiria fome e pegaria alguma coisa, porém, só mais tarde. Agora as pernas continuavam. Adquiriram vida própria, deixando o cérebro ao encargo de analisar tudo junto com o coração que talvez pudesse ajudar em alguma coisa, vai saber.

As pernas foram e foram, até que pararam. Ela que só olhava para os lados resolveu olhar para frente. Onde havia parado? Num lago. Que lago? Um lago que visitara muito durante a infância. Os avós a traziam para brincar quando ela era mais menina. Hoje não tinha mais tanta graça sair correndo com um maiô peça única e pular ali dentro. Na verdade, o lago não tinha mais tanta graça assim. Mas porque a atraía? Não soube responder. O que essa menina sabe também? Perguntariam alguns. Que seja; ficou a olhar. E olhar. E olhar. Até que o olhar virou contemplação.

Via todos os pontos do lago como se fossem um só. Em cada canto enxergava algo diferente. A posição do vento, algumas bolhas que subiam, talvez de algum animal, movimentações em partes específicas que poderiam ser peixes, talvez, e as árvores farfalhando e deixando cair algumas frutinhas.

Ficou, ficou e ficou. Não viu o tempo passar. O sol subiu; agora estava a pino. A fome bateu e o lago começou a lhe parecer uma opção interessante para se refrescar, mas a fome era maior. Continuou olhando o lago e sem perceber se levantou, a cabeça só não continuou olhando pois o corpo girou na posição contrária e seria desconfortável ficar olhando para trás.

Voltou até os pomares, pulou uma pequena cerca e um senhor de idade a viu. Ela olhou para ele e o fitou, ele olhou para ela, com olhos mansos e também a fitou. Viu alguma coisa nela que não conseguia explicar. Não fazia idéia do que era, mas lhe era totalmente familiar. Ele não disse nada. Na verdade não precisou. Apenas assentou seu chapéu a cabeça e ela fez  “o mesmo” afirmando com a cabeça junto de um sorriso. O velhinho sorriu de volta e viu que ela apontava para uma de suas árvores. Uma goiabeira. Ele apenas fez um gesto jogando a mão para fora e virando-a, como querendo dizer: Farte-se.

Ela deu mais um sorriso e agilmente, com um impulso, segurou um dos galhos e subiu. Sentou-se, olhou em volta as goiabas, escolheu uma e ficou olhando. Era quase uma esfera perfeita. Redonda. Polpuda. Macia. Apetitosa. Madura. Com aquele cheiro de recém apanhada que incitava a morder e devorar aquilo como se fosse a última e melhor fruta existente de todo o planeta.

Ainda ficou a contemplar a goiaba em sua mão. Ficaria ali quase o dia todo, igual ao lago, apenas não fosse seu estômago que fez um dos barulhos mais altos que ouviria na vida. Aliás, tudo naquele dia estava tão silencioso que qualquer barulho seria ensurdecedor. Mas voltemos, ela simplesmente obedeceu, primeiro mordiscou a goiaba e quando aquele doce lhe bateu na língua, mastigou rápido e deu uma bocada com um enorme sorriso de satisfação que podia ser visto naqueles olhos fechados e rosto levemente esticado.

Comeu a primeira, a segunda, a terceira e continuou comendo até fazer exatamente aquilo que o gesto lhe sugerira. Farte-se. Encostou-se na árvore para descansar. Com a cara e a camiseta toda lambusada de goiaba alisou a barriga que agora estava cheia e começou a ouvir alguns pássaros que começaram a chegar em árvores próximas. O canto inicialmente não a agradou. Não a agradou mesmo. Estava tudo tão silencioso, por que tinham de vir pássaros para estragar? Mas logo a mente abstraiu e esqueceu que os pássaros sequer existiam. Ficou ali em cima da árvore com raios de sol passando entre as folhas, bem acomodada, sentada aos galhos e observado o terreno bem plano e cheio de árvores ao redor. Tanto da chácara daquele senhor ao qual não sabia o nome como de outros.

As pessoas faziam coisas. Que coisas? Bem, não se lembra. Os pais realmente estavam preocupados. Mas que diachos ela fez hoje!? Voltemos. Continuou na árvore, mas logo lhe bateu cansaço de estar sentada naquela posição. As pernas pediam exercício, desceu e foi andar. O sol em algumas horas iria se por. Mas quem ligava? As pernas sabiam que deveriam voltar quando era noite. Ainda não era noite. Portanto…

Caminhou, caminhou e caminhou. Até que resolveu se sentar numa cerca com o sol já quase se pondo. Via um homem montado a cavalo levando algumas vacas de volta para algum lugar. E se olhasse para trás veria ovelhas. Como sempre achou ovelhas mais fofinhas do que vacas, virou-se na cerca para olha-las com aquela luz laranja-avermelhada. Ficou ali vendo as ovelhazinhas… e só. E como eram as ovelhas? Tinham forma de ovelhas. Responderia mais tarde. Mas nenhuma característica marcante? Eram ovelhas, mãe.  Os pais se entreolhariam, mas isso ainda não é agora.

Quando as ovelhas começaram a ser recolhidas por um homem e alguns cães e viu que o céu agora não estava mais laranja e sim arroxeado, as pernas começaram o caminho de volta por aqueles arvoredos. Voltaria a casa sob um céu limpo, com uma lua em meia crescente e um mar de estrelas a iluminar seu caminho.

Voltou e entrou. Os pais estavam preocupados e a encheriam de perguntas, mas a que nos importa é essa: ─ Certo e você esteve o dia todo fora fazendo o que, mocinha? ─ ─ Nada. ─ Respondeu. E era verdade. Fez nada. Seu corpo fez. Seus instintos fizeram, mas ela ficou ao ócio. Com a mente longe, o coração também longe. Apenas a contemplar a vida, o universo e tudo o mais.

“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 4

qua - 30/11/2011 4 comentários

─ O que você quer comigo!? ─ Foi o que Melissa, aos prantos, eventualmente gritou no fim daquela noite, mas antes de chegar a isso, voltemos um pouco no tempo.

Na semana passada Rodrigo a deixara em casa. Dona Lurdes sofrera por alguns dias com uma filha estranhamente mal humorada, perguntou se era a faculdade, se era o trabalho se era alguma coisa que tinha acontecido, mas a filha continuava emburrada. Bem, isso como já disse, melhoraria tempos depois. Porém, avancemos e vamos até a quarta-feira.

Apesar dos pesares e das muitas dúvidas que pairavam na sua cabeça, Melissa estava conseguindo fazer seu trabalho impecavelmente como de costume. Até é claro a chegad de Rodrigo. Ele se sentou e mesmo antes de pedir o prato virou e perguntou a ela:

─ Sente-se melhor hoje, senhorita?

─ Ah… cla… claro. Desculpe por semana passada.

─ Não foi nada, senhorita. Aliás, se me permite, diria até que foi um prazer.

Ela enrubesceu e, como pôde, anotou o pedido dele para aquela noite. “…diria até que foi um prazer… Bastardo, maldito, cretino. Por que ele fica brincando assim comigo? Por quê!?” Ela realmente não queria admitir, mas tinha se apaixonado por aquele rapaz. Se ela sequer recordasse do que falara há quase sete meses atrás quando ele primeiro veio ao restaurante numa quarta-feira enevoada e fria, provavelmente entenderia o porquê de tudo isso. Queria alguém que fizesse o “dever de casa”. Rodrigo fez. Desestabilizou-a e cativou-a.

Muito bem, a noite parecia interminável para Melissa. Desde semana passada não estava bem. as aulas de uma semana da faculdade passaram batidas, o trabalho só fazia pois se tornara quase automático e porque a concentração em determinadas coisas faziam com que ela esquecesse outras, mas agora com o olhar dele sobre ela era difícil se concentrar mesmo no trabalho.

Aquele olhar que — sei que é repetitivo, mas este é o ponto — agora a rasgava, acariciava, despia, vestia com algum tipo de manto romântico e penetrava tudo sem sequer tocá-la, lhe deixava doente. Graças a este olhar, algumas mesas tiveram pedidos trocados na bandeja, outras receberam um guaraná ao invés do suco de laranja, mas nada muito grave. A maioria não estava com vontade de discutir numa quarta a noite e alguns dos homens nessas mesas vendo uma garçonete tão bonita, mas ao mesmo tempo que estava tão atrapalhada e tímida, simplesmente ficaram olhando mais ainda. Ou seja… piorou.

No final da noite, Melissa que estava com um cansaço fora do habitual, fora ajudar Anna com as cadeiras e as mesas.

─ Melissa, você está bem?

─ É claro que não estou bem. ─ Ela disse quase aos berros.

─ Calma mulher, o que aconteceu?

─ Oras, você sabe muito bem… e eu não sei o que fazer.

─ Já pensou em falar com… ─ Anna lembrou-se que naquele tom de voz Rodrigo poderia e quase com certeza estaria ouvindo. ─ …a pessoa que te deixou assim?

─ E o que você acha que eu devo falar?

─ Que tal a verdade? ─ Anna perguntou e logo depois que terminou: ─ Algum problema, senhoritas? ─ Rodrigo que ouvirá os berros, entrou naquela parte do salão para ver se estava tudo bem.

─ Não senhor está tudo… ─ Começou Anna, mas logo foi interrompida, pela frase com que iniciamos tudo isto. ─ O que é que você quer comigo!? ─

Agora já não era mais possível disfarçar. Ela estava aos prantos, o rubor da face tinha dado lugar a soluços, nariz escorrendo e lágrimas. O restaurante a esta altura já estava fechado, nenhum cliente mais estava por lá. Mas isso não impediu a equipe de ver o que estava acontecendo e logo depois fingir que não era com eles.

─ Me diz! O que é que você quer!? Você fica me encarando desde a primeira vez que veio aqui. Você sabe muito bem que você é um cafajeste. Se você não quer nada fala logo de uma vez e para de me atormentar! Ou melhor, por que você não vai some logo, vai embora de uma vez e deixa em paz!?

─ Eu…

─ Você o quê!? HEIN!?

─ Eu me apaixonei por você desde a primeira vez que a vi. Mas já que quer assim… ─ Rodrigo foi até o caixa, onde já tinha pedido a outro garçom para fechar sua conta, pagou, pegou uma sacola junto com o garçom e foi embora.

Verdades sabidas. Uma verdade sabida é algo que todos sabem, mas que por alguns motivos não podem ser amplamente divulgados. Neste caso, todos sabiam da paixão não admitida de Melissa por aquele rapaz. O que eles presenciaram foi quase o fim de uma novela. No caso um homem de coração partido que de fato se esforçou para conquistar uma mulher por quem se apaixonara e uma mulher que não queria admitir que gostava do homem que tanto se esforçou.

Todos fingiram que não tinham nada a ver com o que tinha ocorrido e voltaram ao trabalho para fechar o restaurante. Mas Melissa, ah!, esta chorava copiosamente. Anna a ajudou a arrumar as cadeiras e ainda tentava conversar um pouco com ela sobre o que tinha acontecido, mas ela se mostrava impassível. Tudo que ela pode fazer foi colocar um papel em seu avental. Ela encontraria quando chegasse em casa e com certeza faria alguma coisa quando o arrependimento batesse.

Já Rodrigo, simplesmente voltou para casa. Não estava bravo. Decepcionado, sim. Afinal seus esforços haviam sido, podia se dizer em vão. Mas por que haveria de se irritar? Sim, não era daqueles de se contentar com o tão, erroneamente conhecido, amor platônico, mas o que podia fazer? Se não dera certo, não dera certo. Embora, com o que havia passado para Anna há alguns dias atrás, torcia para que algo acontecesse, por isso colocou dois pedaços de bolo na geladeira e esperou.

Quanto a Melissa, esta voltou para casa, chegou um tanto quanto mais tarde “Ônibus de merda que tanto demora.” com o rosto e os olhos inchados do choro que passara, mas retornara no exato instante que ela saiu do ônibus. Mas não só isso. Também o que Anna previra: remorso. Ela passou meses negando, mas até que gostava daquele cafajeste e agora era quando se sentia mais para baixo. Depois de feita a besteira e ter praticamente expulsado-o do restaurante.

Foi em silêncio até a lavanderia para não acordar sua mãe. Esvaziava os bolsos das roupas pensando: “O que eu fui fazer. Por que eu fui falar aquilo? O que eu tinha na cabeça.” Quando sentiu na sua mão um papel. Duas coisas estavam escritas quando parou para lê-las. Um endereço numa caligrafia totalmente desconhecida e um recado de Anna. “Caso você mude de idéia…”

─ Mas será que…

Sim, era. Ela hesitou por um momento, mas depois teve certeza, era o endereço dele. ─ O que eu faço? O que faço? ─ Perguntava-se andando de um lado apra o outro. As pernas ajudaram o corpo a decidir, levou o conjunto até a porta da casa. Quando os olhos repararam onde estavam e informaram ao cérebro, este travou. Quis dar ordem de, meia volta, volver, e ir para a cama, precisava ir para a faculdade amanhã. Mas o coração discutiu. Disse que queria ir, disse que precisava ir e utilizou, vejam só, de lógica com o cérebro, dizendo que se não fosse, ele não conseguiria tirar qualquer proveito da “faculdade” que estava usando como desculpa para ir para a cama.

O cérebro sem um bom argumento, perdeu. O coração ganhou o controle e ordenou as mãos para pegar as chaves a carteira e santo deus! dane-se a bolsa. Peguem só o essencial e vamos logo.

Rodrigo continuava sentado à mesa esperando e esperando e esperando. Esperaria a noite toda se fosse preciso. O relógio marcou meia-noite. ele não se recolheu. Uma da manhã. Ele não se recolheu. Duas da manhã. Ele bocejou, mas não se recolheu. Quase três da manhã. A cabeça pesava para frente e os olhos lutavam para ficar abertos. Dormiria na cadeira, mas não se recolheria. Quando enfim os olhos pareciam desistir e se fechar para dormir, um ding dong foi ouvido.

Abriu a porta e na sua frente, via uma Melissa de cabelo desfeito, olhos e rosto inchado, vermelha e ofegante de cansaço da corrida do ponto de ônibus até a casa e com o rosto encharcado de gotas misturadas de suor e lágrimas começou: ─ Arf… Eu… eu… eu queria pedir… ─

Ele não a deixou nem terminar de falar. Sabia que não era necessário e a abraçou apertado. Ela abraçou-o de volta, apertando com a força que lhe restava e os dois ali naquela noite selaram seu primeiro beijo como casal.

Obviamente que os dois não ficariam ali na noite agarrados até o sol nascer. Digamos que eles levaram isso para locais mais privativos e mais confortáveis, onde podiam se sentir a vontade, inclusive para retirar algumas peças de roupa caso sentissem calor… Enfim, acordaram no dia seguinte, ambos atrasados para suas respectivas responsabilidades, mas não ligaram. Justificariam aquilo tudo de alguma forma. Ela foi tomar banho, Rodrigo foi preparar o café e pôs a mesa. Pão, biscoitos, café, suco e dois pedaços de bolo de nozes.

Cinco anos depois:

─ Você Rodrigo, aceita Melissa, como sua legítima esposa, na saúde e na doença, na fortuna e na pobreza e promete amá-la até que a morte os separe?

─ Sim. Eu aceito.

─ E você Melissa? Aceita Rodrigo como seu legítimo esposo, na saúde e na doença, na fortuna e na pobreza e promete amá-lo até que a morte os separe?

─ Sim. Eu aceito. ─ Disse ela apertando carinhosamente a mão dele.

─ Então eu os declaro marido e mulher. Podem selar esse matrimônio, com um beijo.

“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 3

“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 3

qua - 23/11/2011 1 comentário

“Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo…”

Devem conhecer este trecho. De qualquer forma, Rodrigo realmente cativou-a e agora poderia ele jogar as cartas que queria. Na semana seguinte ele não foi, o que causou uma certa estranheza à Melissa e Anna. Mas que foi ignorado, como a primeira vez sempre é. Provavelmente tinha algum outro compromisso naquela quarta a noite. Voltaria na semana seguinte para continuar lhe secando, foi o que Melissa pensou. Aliás, até ficaram gratas de poder fechar o restaurante “mais cedo”.

Na semana seguinte também não voltou e agora era uma preocupação real. “O que será que aconteceu? Afinal ele virou cliente habitual.” “Será que está bem?” “Será que haviam feito algo que não lhe agradava, ou teria ele algum problema com o restaurante?” Terceira semana. “Será que está fora da cidade? Mas não é comum uma pessoa ficar fora por tanto tempo.” Quarta semana. “É, acho que ele não vai mais voltar, que pena. Apesar de pequena ele sempre me dava uma gorjeta e… não Melissa, foque-se no seu trabalho, você não desenvolveu sentimentos por um cara daquele.”

Até que ele finalmente voltou. Saudou o maitre que o reconheceu quando ele entrou pela porta da frente e foi até sua mesa habitual. Rodrigo sentia que todos os garçons de repente ficaram mais calorosos. Como se vissem um velho amigo que não viam há algum tempo, e se os garçons já estavam assim, o que dizer de Melissa, que passara aquele fim de noite com um rubor na face que insistia em não ir embora?

No final da noite algum tempo depois do restaurante começar o processo para fechar, estava Melissa a arrumar as cadeiras e mesas com Anna ─ algo que era estranho, mas ao mesmo tempo familiar.

─ Você viu, Melissa? O Rodrigo voltou. ─ Disse Anna quase aos sussurros.

─ Fala mais baixo. Você não vai querer que ele escute.

─ Ele nem está nos ouvindo, calma. Aliás, por que você está tão vermelha?

─ Eu não estou vermelha. ─ Melissa disse num tom de voz razoável.

─ E por que eu tenho que falar baixo e você não? Vai finalmente admitir que está interessada nele?

─ Não é nada disso! Eu não estou interessado naquele cafajeste. Primeiro ele vem aqui e fica me encarando, depois faz isso por meses a fio até que fica um mês fora!

─ Imagina que você não está apaixonada. ─ Disse Anna entre risos.

─ Não estou. ─ Melissa dizia emburrada.

Rodrigo que dessa vez, sim, fez questão de ouvir a conversa, ria à toa. O que mais podia fazer? Seu plano dara muito certo e aquele processo todo da conquista valeria muito a pena em breve. Claro, teria de ser cuidadoso quando definitivamente com ela. Afinal mulheres podem ser também incrivelmente vingativas e cruéis. É difícil cativá-las e mais difícil ainda é segurar a fúria descabida delas caso as coisas não saiam sempre do jeito que elas querem. “Ah, mulheres… mas ainda assim, muito melhor com elas do que sem elas.” Pensava.

Voltou para a mesa e agora era só esperar. A conversa continuaria mais um pouquinho e Melissa voltaria para retirar a mesa com o rosto mais vermelho ainda do que passara a noite toda. Rodrigo adotou o procedimento padrão: A conta e um bolo de nozes, por favor. Mas adicionou mais uma coisa a sua fala: Desculpe me intrometer, mas a senhorita está se sentindo bem?

Melissa, que estava tensa ficou ainda mais. Achava que ele iria fazer o de sempre e a deixar em paz. ─ Si… Sim. ─ Ela disse com uma gaguez perceptível.

─ Tem certeza? Seu rosto está bem vermelho. Está com febre?

─ Não. Eu estou bem sério, obrigada por se preocupar.

─ Muito bem, mas se quiser posso lhe dar uma carona até o hospital ou sua casa se precisar.

─ Ah, muito obrigado senhor Rodrigo, mas realmente não precisa.

─ Precisa sim! ─ Disse Anna que veio por trás de Melissa sem esta perceber. ─ Por favor, senhor, se puder leve a para casa. Ela chegou hoje não muito bem. Mandamos ela voltar para casa, mas quis ficar. Como não era nada contagioso, deixamos. ─ Desnecessário dizer duas coisas, mas direi mesmo assim: A – Melissa congelou. B – Melissa quis matar Anna por ter feito aquilo. “Anna, quando eu puder eu vou te enforcar com os panos de secar pratos!”

─ Claro, levo ela sim. Gostaria de uma carona também, senhorita…?

─ Anna. Senhorita Anna. Não senhor Rodrigo, muito obrigada, só leve a Melissa para casa por favor.

─ Claro, sem problema algum. Fica decidido então que assim que todos terminarem eu levo ela comigo?

─ N… Nã… ─ ─ Sim! Perfeito, senhor. ─ “ANNA!”

Rodrigo começou a comer seu pedaço de bolo enquanto as duas foram para o vestiário se trocar. Melissa, obviamente, gritou o quanto pôde com Anna que por sua vez dava risada da cara da amiga e dizia para que ela fosse um pouquinho mais sincera consigo mesma.

Todos terminaram, Rodrigo esperava do lado de fora do restaurante e Melissa que agora estava sem o uniforme apareceu.

Estava mais deslumbrante ainda que da primeira vez. Com o céu limpo e uma Lua cheia, ele finalmente pode ver ela num estado mais natural. Trajando um par de calças jeans, com um par de sapatos confortáveis e um vestido branco mais grosso que ia até o joelho e que não era transparente ela era a criatura mais encantadora aos olhos dele.

Mas dessa vez não ficou babando por ela. Não podia. Sua missão aquela noite era levá-la para casa e não deixar nada acontecer. A parte mais dfifícil, mas que daria mais frutos no final. Abriu a porta do carro para ela, os dois se acomodaram e a levou a para casa. Ficava num meio de bairro, onde muitas casinhas residencias, todas parecidas umas com as outras, porém, muito bem cuidadas e jeitosas ficavam. Não falou nada durante o trajeto todo, além de perguntar se ela estava bem e se tinha certeza de que não queria ser levada para o hospital.

Mas ela disse que não. Só precisava descansar um pouco. Quando ele chegou, ela agradeceu, ele virou o rosto para ela e ali ela se demorou. Ele sabia muito bem que poderia beijá-la naquele instante. Mas fazer isso seria estragar tudo. “O que ele está esperando?” Melissa pensava. Ela queria o beijo e não era possível que assim ele também não o quisesse. Mas eventualmente ela ficou sem graça e desistiu, foi deixada aos cuidados de sua mãe que saiu no portão para ver o que era aquele carro parado em frente à casa e que depois seria culpada por estragar o momento do beijo.

É claro, ele conseguia ver a mãe dela, mas ela não. Por isso não fez nada. Maldição. Por que não poderia ter olhos na nuca para ver a razão ao invés de ter de fazer papel de boba? E porque sua mãe tinha que estragar aquele momento? Coitada de dona Lurdes, sofreria uns dois dias um pouco do mau humor da filha que Rodrigo sabia que uma hora ou outra aconteceria.

Quanto a ele, voltou para casa e com certeza voltaria ao restaurante na semana que vem.

Conversas com o diabo – parte 1

sex - 18/11/2011 Deixe um comentário

Um jovem sentado numa mesa de bar admirava a tempestade de raios que começava a se formar lá fora. Pensava na vida, ou nos problemas que ela lhe trazia e como iria resolvê-los. Sabia que a receita era simples, ou ao menos era o que todos diziam. Aceite a existência do problema, encare o problema e ache um jeito de resolver.

O primeiro era fácil: estava sozinho já a alguns bons anos, com um emprego, não necessariamente ruim, mas também não o que queria. Sem saber o que fazer com a vida que achava chata e vazia. A típica crise que assola as pessoas vez ou outra. Mas não duraria muito tempo. Não podia durar muito, afinal, você não pode estar em crise.

A segunda parte também não era díficil. Estava no bar justamente para isso. Que lugar melhor para encarar problemas do que num lugar comfortável e com álcool a disposição? Declarava assim que tinha meio caminho andado. Agora era só uma questão de começar a propor soluções. Estava sem mulher e isso o álcool poderia muito bem ajudar. Ou ajudaria a tomar coragem ou a fazer com que uma cebola parecesse a coisa mais apetitosa do mundo sem a vontade de chorar.

Quanto ao emprego… ─ Tem alguém sentado contigo, rapaz? ─ Um homem muito velho, mas conservado ─ como dizem as línguas que devem achar que o sujeito fica em salmoura ─ e bem vestido se aproximou do rapaz.

─ Ahn… Não. Não senhor. Precisa da cadeira? ─

─ Na verdade não, eu gostaria de me sentar aqui mesmo. ─

─ Algum motivo especial para isso? Afinal tem tantos outros lugares no bar. ─

─ Compreendo que queira ficar sozinho, mas lhe pago uma dose de uísque. ─

Ele olhou para sua cerveja, agora já sem graça e com o cheiro de chuva que começara a infestar o ambiente e aceitou. Não se recusa bebida de graça. No caso, bebida quase de graça, ele iria pagar por ela. Com saliva e seus ouvidos, mas pagaria por ela e por eventuais próximas. Os uísques foram pedidos, o velho se sentou e eles começaram a conversar. Estranhamente a primeira coisa que o velho disse foi:

─ Está infeliz com a vida. Problemas com mulher, emprego ou outros?

─ Você deduziu isso pois estou sozinho num bar em plena sexta-feira a noite, né?

─ Não, Alan Nestor Melton. Perguntei isso, pois quero saber se tem mais alguma coisa além da falta de mulher e seu emprego insatisfatório que lhe perturbam.

─ Como sabe meu nome!? E ainda por cima o completo!?

─ Está escrito no crachá que está em seu bolso de trás, ou melhor, estava, agora ele está no bolso de sua camisa. ─ O velho disse dando um gole em sua bebida.

─ Mas o quê? ─ Alan apalpou o suéter que vestia por cima na região da camisa e de fato seu crachá do banco estava lá. Mas era como o velho disse, deveria estar no bolso de trás. “Como ele foi parar aqui?” ─ Quem diabos é você? ─

─ Você já respondeu, só tire o plural de diabo e está tudo certo.

─ … ─ Alan olhou para o velho  que parecia completamente normal, para a mesa pensando que não era possível que tivesse ficado bêbado com uma long neck de cerveja e uma dose de uísque que ainda nem começara a beber e depois para o nada, apenas para terminar com: ─ O senhor não acha que já bebeu demais? ─

─ Se for levar em conta o que já bebi em toda a minha trajetória sim, mas para esta noite, não.

─ Você pode me dizer quem é você? E sem charadas, por favor?

─ Claro. Eu sou aquele que foi banido do paraíso e é chamado de diabo.

─ Por que eu não consigo acreditar nisso?

─ Porque acreditar num estranho que lhe paga uma bebida e diz ser o diabo é o mesmo que acreditar num louco de hospício que acha que é Napoleão. É idiota e vai contra o senso comum.

─ Por acaso… eu deveria dizer que nem sempre o senso comum e a sensatez… …são os melhores caminhos e que a verdade se esconde?

─ Só se a ideia lhe apetecer. O que eu creio que não. E antes que você comente, sim essa noite está estranha para você e não eu não consigo ler pensamentos. Algumas coisas simplesmentes são bem previsíveis.

Creio que seja desnecessário dizer que Alan estava, digamos, um tanto quanto desconcertado com aquilo tudo. Aquele sujeito ou era maluco ou muito esperto. É claro que sempre havia a possibilidade de ser os dois. Mas se era maluco, esperto, ou maluco e esperto, o que ele queria com ele para início de conversa?

─ Muito bem, já que sugeriu, vou supor que o senhor é o diabo. Quer comprar minha alma? É isso?

─ Comprar alma? Hahaha. Está lendo muito gibi e vendo filmes ruins, rapaz. Não quero nada disso.

─ Então o que você quer de mim?

─ Em princípio quero conversar. Depois decido se faço qualquer outra coisa.

─ Mas se o senhor é o diabo, não deveria estar tentando me seduzir para que eu me entregasse a você, renegasse a Deus e todas aquelas coisas que o padre fala?

─ Você pode fazer isso se quiser. Não vou lhe pedir nada.

─ Não deveria estar tentando me levar para uma eternidade de tortura e sofrimento no mármore e fogo do inferno? Digo, sua casa?

─ Minha casa de fato é quentinha, hehe. Mas nada dantesco. Quanto a tortura e sofrimento, isso são vocês mesmos que infligem a vocês mesmos. Eu não tenho mais nada a ver com isso.

─ A bíblia diz outra coisa.

─ Livros dizem muitas coisas que não são verdade. A bíblia não é necessariamente boa, mas não é necessariamente ruim. Tem muita coisa interessante lá.

─ Como o quê? O ensinamento de como fazer um ritual em homenagem a Deus com o sangue de cabras e outros animais? Isso você acha que é bom? ─ Alan disse cheio de sarcasmo.

─ Não Alan. Estou falando de respeito mútuo e amor ao próximo. ─ Disse o diabo num tom batido que realmente não poderia haver qualquer traço de ironia.

Alan continuava desconcertado. Mas um pequeno momento de genialidade lhe ocorreu e pensou de maneira séria, se aquele fosse o diabo ele jamais poderia estar falando a verdade. Estava tentando enganá-lo e deveria ter milênios de prática nisso. Logo, não era interessante tentar tapear o mestre dos tapeadores e, dois, recusar toda e qualquer proposta que ele poderia lhe fazer. Mas para se livrar dele, resolveu ao menos continuar a conversa. ─ Verdade, desculpe meus modos.

─ Não há problema rapaz. Isso geralmente é normal das pessoas.

─ Mas o senhor tem algum nome?

─ Ai ai. ─ Começou o diabo com um suspiro. ─ Tenho, embora às vezes eu me perca. Já me chamaram de tanta coisa e eu já assumi tantos nomes que perco a conta. Mas de uns tempos para cá, resolvi usar um dos meus primo nomes. Portanto, Adamastor.

─ Adamastor?

─ Um dos gigantes que queria destronar Júpiter, rei dos deuses romanos.

─ Interessante.

─ A História é interessante; pelo menos eu acho. De qualquer forma, obrigado pelo papo rapaz. Pode deixar que pagarei sua conta e adicionarei algum crédito a ela.

─ Mas senhor Adamastor, não precisa e…

─ Só Adamastor já está bom. E acredite, faço isso porque quero; não há com o que se preocupar.

O velho Adamastor se levantou, foi até o balcão, pagou a conta, disse ao barman que caso o rapaz da mesa seis (6) consumisse mais alguma coisa, aquele dinheiro extra provavelmente cobriria. Pegou seu chapéu e seu casaco de chuva no pendurador e foi embora. Alan ficaria ainda mais um tempo no bar para terminar de beber seu uísque. Depois se levantou e foi até o balcão perguntar ao barman algumas coisas. Quanto ficara de crédito extra e se o conhecia aquele cara.

─ Adamastor deixou uma nota de cinquenta para cobrir eventuais despesas e sim, o conheço. Por que perguntas, rapaz?

─ É que ele veio com um papo bem estranho dizendo que era o diabo. Queria saber se ele estava bêbado ou se ele costuma vir aqui e exagerar.

─ Ele costuma vir ao pub uma semana sim outra não. Também não é de exagerar e realmente é o diabo. Posso te ajudar com mais alguma coisa?

─ … Não. Acho que não. Muito obrigado e boa noite. ─ Disse Alan tentando esconder seu desconcerto ao sair, ao que o barman levantou a mão aberta e assentiu com a cabeça.

Saiu sem qualquer um dos pensamento no emprego chato e na falta de mulher que o assolara no início da noite. Abriu seu guarda-chuva e decidiu que apesar da chuva que lavava qualquer eventual odor, alguma coisa naquela história não cheirava muito bem. Não fedia a enxofre, mas não cheirava bem. Alan ainda iria decidir se voltaria ou se a sua primeira vez no Pub da Raposa seria também a última.

“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 2

qua - 16/11/2011 1 comentário

Semana que vem voltaria e na semana seguinte voltou.

Com um tempo cinza bem escuro com a única luz possível vinda das ruas, Rodrigo sentara-se a mesma mesa que havia sentado e no mesmo horário que havia chegado da última vez. Seu procedimento também fora o mesmo. Saboreava a comida e saboreava a linda visão que Melissa lhe proporcionava. Da mesma forma fez com que o restaurante ficasse aberto até um pouco mais tarde e terminava seu pedido com: “A conta e um bolo de nozes, por favor.”

Melissa e Anna não esperavam que ele voltasse, mas a reação das duas foi a mesma que na semana passada. Anna ainda mostrou interesse pelo rapaz, e Melissa, que havia feito seu trabalho, novamente impecável, ─ como o faz sempre ─ se mostrou novamente decepcionada por uma gorjeta tão pequena, mas impassível quanto aos olhares de Rodrigo.

Isso se manteve assim até que ele pode ser considerado um frequentador habitual ─ ou habitue se preferirem ─ do restaurante. Sempre no mesmo horário, sempre a mesma mesa, sempre o mesmo comportamento de comer devagar e observá-la devagar e sempre o mesmo pedido do bolo de nozes.

Quanto a Melissa, a frieza e impassividade dela começaram a se desfazer depois do primeiro mês e meio. Se na primeira vez aquele olhar não arranhava, depois de um tempo começou a afetá-la. Por fim, depois de cinco meses e meio, e portanto, vinte e três ─ contando com a primeira ─  visitas de Rodrigo ao restaurante, a indiferença dela se quebrara. Quando quarta-feira chegava e um determinado horário se aproximava, ela já se colocava de prontidão imaginando o que ele pediria dessa vez, além do bolo de nozes ao final.

Finalmente passou a compreender o que alguns garçons mais antigos falavam sobre saber sobre os gostos e talvez um pouco da personalidade de determinados clientes. Porém, ela começava se perguntar: O que sabia sobre ele? Além do nome ─ “Rodrigo” ─ e do tipo físico ─ “Cabelos curtos, um tanto quanto espetados, mas ainda assim bem arrumados para os padrões de hoje, olhos castanhos que pareciam amêndoas… epa amêndoas?”

E ali, vocês podem ver que nossa heroína começa a ficar preocupada. “É claro que ele não tem olhos castanhos que parecem amêndoas, seus olhos são daquele castanho batido que vemos todo dia.” E isso era verdade de fato os olhos de Rodrigo, não tinham nada de especial. Mas se não tinham, por que ela fez essa comparação? De qualquer forma, ela continuou a descrevê-lo ─ ou ao menos tentar ─ para ver o que sabia sobre ele.

“Sabia que o nariz era levemente arrebitado e a pele apesar de branca, possuía algumas sardas. Deveria ter pai ou avô ruivo e… O que aquilo importava? Ele era apenas mais um cliente.” Pensava consigo mesma. Mas apesar do olhar continuar a seguí-la descaradamente, por que não fazia nada?

Bem, para começar seu trabalho a impedia de brigar com os clientes, além de colocá-la nos holofotes para ser vista. Segundo que apesar daquele olhar de desejo, não era um olhar necessariamente lascivo, apesar de que Rodrigo, imaginou sim, mil e uma possibilidades lascivas, mas parecia ter se abrandado com o tempo. Para ela, era um desejo por algo a mais e não apenas um desejo por desejo. Já para Rodrigo, cujo olhar não mudara desde o primeiro dia, era bom sinal que ela pensasse isso. Afinal de contas, aquele olhar era pelos dois. Não apenas pelo sexo. Se essa fosse a questão, teria economizado o dinheiro que gastara no restaurante e poderia ter ido a algum inferninho.

Mas voltando a nossa história, virou hábito Melissa ajudar Anna a arrumar a outra metade do salão divida por aquela parede. Rodrigo percebeu que poderia ficar ouvindo de soslaio sempre que quisesse desde que fosse cuidadoso. Mas uma informação privilegiada já era demais, além disso. Ele já imaginava o que uma hora elas iriam conversar. Ele só precisava de um sinal, qualquer sinal e poderia começar a realmente colocar o plano em ação.

─ Melissa, já notou que esse cara virou um habitue?

─ Imagina, ele vem toda quarta-feira no mesmo horário e senta na mesma mesa, na minha praça. Eu jamais iria descobrir.

─ Ei, não precisa ficar brava.

─ Desculpa, Anna. É que sei lá. Os olhos desse cara me perseguem desde o primeiro dia.

─ E ele já te falou alguma coisa?

─ Nada e isso que é pior. Se ele falasse alguma coisa, qualquer coisa, eu poderia acabar com isso, logo de uma vez.

─ Acabar? Mas ele vem aqui toda quarta-feira por sua causa. Está na cara isso. Do contrário ele não ficaria olhando para você todo o tempo.

─ Talvez. Mas… Mas…

─ Mas o quê? O olhar dele te irrita? É isso?

─ Hmm… Não, mas acho que poderia dizer isso.

─ O olhar dele mexe com você?

─ É, mais ou menos…

─ Você está começando a gostar do cara e não quer admitir isso.

─ Mentira! ─ Uma palavra que saiu um pouco mais alto, junto é claro com uma face toda vermelha de vergonha. Ainda com o complemento de: ─ Eu não gosto dele, é só que… ─ Em tom de voz baixo. Mas Rodrigo tinha ouvido o “Mentira!” ao longe. Achou que seria mais indireto, mas foi um sinal até que bem claro.

Muito bem, se era mentira que ela gostava dele, então ele só tinha uma coisa a fazer. Com aquele sorriso cínico no rosto que durou enquanto Melissa não voltava, ele pensava, que um mês mais seria o suficiente.

Eventualmente Melissa voltou. Estava com uma aparência plácida da indiferença de sempre e Rodrigo que recentemente acabara a refeição chamou-a e pediu a conta; ainda foi adicionar: ─ Ah, e um… ─ ─ Um bolo de nozes, certo? ─ Ela disse interrompendo-o com uma voz amigável e suave. ─ Por favor. ─ Disse ele com um sorriso bem educado.

Pagou, deu a gorjeta, comeu e se despediu sem falar nada. Tudo como havia feito em todas as outras vezes sem exceção sequer. Agora tudo o que precisava fazer para continuar esse processo era não aparecer durante um tempo. Cativou-a. Criou nela a expectativa de que ele voltaria com a mesma frequência. O que aconteceria então se ele parasse de vir durante algum tempo?

Descobriria em breve.

“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 1

qua - 09/11/2011 2 comentários

Sentado naquele restaurante Rodrigo ficava apenas observando as garçonetes. Uma em especial, não sabia o nome dela, mas a olhava fixamente. Ele comia vagarosamente. Saboreando o prato, e saboreando-a. Ele pedira uma refeição completa, mesmo sabendo que haviam poucos clientes e que o restaurante estava para fechar. Teve a sorte de a atendente de sua praça ser aquela mulher, pois isso no fundo significava que ela deveria serví-lo enquanto ele ainda estivesse lá.

Sem conseguir parar de olhá-la, sentia-se o bastardo mais controlador de todos. Ditando todos os movimentos dela.  Aparentemente ela não se incomodava. Era o trabalho dela, e mais, sabia que era bonita. Os cabelos louros naturais ─ coisa rara hoje em dia ─ e os olhos verdes ─ ah, aqueles olhos verdes de enlouquecer ─ simplesmente clamavam por atenção.

Ela que também estava completamente bem cuidada, apesar de ser fim de expediente, tinha os cabelos sedosos e presos de uma maneira elegante; o uniforme muito bem passado era um longo vestido preto acompanhado por uma saia xadrez escuro e um avental branco. Este último dava a ela e ao restaurante ─ que com todos os móveis e praticamente todos os enfeites feitos em madeira muito bem trabalhada ─ um ar muito clássico, quase antigo, mas que passava aquela sensação de comforto ímpar, como se o cliente pudesse estar ainda na era da colônia.

Uma amiga dela que arrumava as cadeiras em outra parte do restaurante dividida por uma parede, pediu a ela que se juntasse e ajudasse-a a terminar a sua praça. Ela simplesmente foi até Rodrigo que ainda estava na metade do prato principal e bebericando sua taça de vinho e avisou lhe que se precisasse de alguma coisa poderia chamá-la.  ─ Mas qual seu nome? ─ Rodrigo perguntou e a resposta que ouviu em uma voz suave foi: Melissa.

“Melissa, que lindo nome.” Assim ele pensava. E ficava alheio ao mundo pensando nela entre uma mordiscada em seu prato e um beberico em sua taça de vinho.

Mas do outro lado, Melissa e Anna ─ sua companheira de trabalho ─ arrumavam as cadeiras e conversavam baixinho quase em sussuros.

─ Melissa, você viu a quanto tempo aquele cara está te olhando?

─ Ah sim, mas não vai acontecer nada.

─ Por quê? Ele que não me ouça, mas ele é um gato.

─ Você acha? Ele me pareceu tão comum.

─ Vai dizer que você não prestou atenção nele? Aquele rosto parece que foi esculpido e quando ele entrou eu notei um certo volume.

─ Eu não acredito que você olhou para as calças dele.

─ Oras, eu também posso me interessar não posso? ─Ela disse entre risos.

─ Haha, pode, pode. ─ Melissa, afirmava com a cabeça enquanto colocava algumas das cadeiras sobre a mesa. ─ Mas se você ficou tão interessada, por que não tenta?

─ Você é besta? Ele passou a noite toda olhando para você e nesse momento deve estar bobo pensando apenas em você. Eu não tenho chance nenhuma.

─ É mas se dependesse de mim poderia pegá-lo para você a vontade. Pois eu já sei o que vai acontecer. Ele vai dar alguma indireta ou uma cantada daquelas bem idiotas, eu vou falar que não, e possivelmente perdemos um cliente. Ou então ele vai colocar uma gorjeta alta achando que com isso consegue me comprar.

─ Ah mas vai dizer que você não pega o dinheiro.

─É claro que aceito, não sou boba. Mas eu só gostaria que eles parassem com isso, se me querem terão de fazer o dever de casa.

“Que assim seja.” Pensou Rodrigo que terminou a refeição rapidamente e ficou de soslaio encostado à parede ouvindo toda a conversa das duas desde o início. Se antes ele se sentia o bastardo mais controlador, agora sabia que a teria em mãos, principalmente depois do elogio que recebera de sua amiga de trabalho.

Voltou para a mesa como se nada houvesse acontecido, colocou seu casaco, pois de repente esfriara ─ algo que a meteorologia havia previsto para aquela noite ─ e logo mais Melissa retornara para retirar os pratos e perguntar se ele desejava mais alguma coisa. Disse que gostaria de um pedaço de bolo de nozes para a sobremesa e que já poderia fechar a conta. Ela anotou a última ordem em sua caderneta, retirou os pratos e finalmente voltou com tudo.

Ele antes de começar a comer o bolo pagou, deu lhe uma gorjeta modesta, algo que não só a surpreendeu como a deixou um tanto quanto brava ─ ora bolas, o seu serviço havia sido excelente e completamente impecável ─ e ficou a olhá-la arrumar arrumar sua própria praça com o auxílio de Anna. Seus olhos agora mais descaradamente que nunca iam de um lado e para o outro a seguí-la, mas ele sabia exatamente o que fazer.

Terminou seu bolo, agradeceu pelo jantar e pelo excelente serviço e se foi. Simples assim, se foi sem dizer uma única palavra a ela em um tom mais pessoal. As duas colocaram o sorriso padrão em seus rostos e esperaram que ele fosse embora para começar a conversar.

─ Porque ele vai me dar uma indireta, me passar uma cantada idiota ou tentar me comprar. Pelo visto foi a terceira.

─ Nem a terceira foi, o mão de vaca me deu uma gorjeta normal.

─ Haha. Puxa, pelo visto você se enganou ou então ele se mostrou mais esperto do que você.

─ Aquele cretino!

E Rodrigo apenas caminhava lentamente de volta para casa naquele frio enevoado da noite. Com aquela informação privilegiada, não cometera um primeiro erro fatal que acabaria com qualquer chance que ele pudesse vir a ter. Só teria de ser paciente. E economizar para começar a jantar naquele restaurante de maneira habitual. Semana que vem provavelmente voltaria.

“Homem se suicida e é encontrado apenas duas semanas depois.”

ter - 01/11/2011 1 comentário

─ Que merda de dia! ─ Foi a frase soltada para o ar por nosso personagem em questão. ─ Que merda de… vida! ─ Ele emendou logo em seguida.

Atarracado, um pouco acima do peso, os cabelos que começaram a branquear há alguns meses agora estavam quase todos brancos ou ao menos desbotados por causa das muitas preocupações. Sozinho no apartamento, o homem sofria. E sofria não porque queria, mas porque fora lhe imposto. Algo em sua vida dara terrivelmente errado. E ele sabia o que era.

Meses atrás, quando os cabelos enfim começaram a branquear. Ele que até então tinha sido um homem fiel. Um exemplo de marido. Atencioso; carinhoso; dedicado; esforçado; as vezes um pouco estabanado ─ o que aos olhos da esposa lhe davam um certo charme. Mas o que ele havia feito para merecer aquele par de chifres invísiveis e ingratos?

Claro. A única solução possível depois de ver um rapaz quinze anos mais novo que si, com um corpo muito mais bem cuidado que o seu só poderia ser uma: O divórcio.

A separação se deu de maneira rápida, ele que até tinha direito a mais coisas, não lutou para se ver logo livre da mulher que o traíra. Grande engano este que cometeu, se soubesse o que aconteceria alguns meses depois…

Despedido. Por quê? O que ele havia feito? Era um trabalhador exemplar e… Corte de gastos, crise econômica afetou a todos, inclusive a empresa. Aliás, principalmente a empresa. Um corte de quase quinhentos funcionários não é uma notícia boa para qualquer um. Seja o despedido, seja a empresa, seja o mercado, seja a Economia… Ninguém gosta de demissões. Elas são dolorosas, custosas, trabalhosas, param o processo produtivo ─ várias maneiras ─, mas acontecem.

Próximo passo era… ora bolas, arrumar um novo emprego. Não ia desanimar, afinal de contas, tinha experiência, uma boa formação, mas por que encontrava apenas portas fechadas? O que ele fazia de errado? Ninguém dizia. Ninguém mesmo. Foi na última entrevista de emprego, ontem mesmo, que ele perguntara: ─ O que faltou? ─

─ Você é muito velho. ─ Foi o que lhe responderam. ─ Contratar alguém como você não é tão produtivo, mesmo que mais seguro, do que contratar um jovem. ─

A pergunta que agora restava era: ─ Como faço para rejuvenescer? ─ A resposta era e ainda é: Não faz. Não se rejuvenesce. Não se volta a um estado passado, ao menos não de forma total.

Mas tudo culminaria no hoje. Tentando se locomover de um canto a outro, apenas para fazer suas compras no mercado. Esparsas compras com o pouco de seu orçamento, batera seu carro. ─ Se aquele viado, corno, filho de uma égua não tivesse me fechado. ─ Ficava se remoendo, enquanto tirava o sapato.

Aliás, continuava se remoendo e falando, e falando, e falando, e falando… para ninguém.

Não teve filhos. Não podia tê-los. Tampouco não teve mais companhia depois que sua ex-esposa se foi. Amigos. Nunca fora de ter muitos. Passava mais tempo ao lado da mulher do que qualquer outra coisa. Mas agora, agora que falava sozinho naquele apartamento apertado, este que alugara com o pouco dinheiro que lhe restava, ouvia apenas o eco de sua própria voz.

Sentou-se na cama. Pensou de maneira positiva. Tentava ver a situação por um ponto otimista, mas em vão. Seu orçamento estava apertado, muito apertado. Não tinha dinheiro para mais nada. Meses após sua demissão, não conseguia arrumar emprego. Fazia o que podia mas não conseguia. Era muito velho. Muito velho.

Muito velho e não tinha filhos. Muito velho e não tinha mais mulher. Muito velho e estava sozinho. Sozinho. Solidão. Como essa palavra dói. Como isso doía em seu peito e em seu rosto cheio de lágrimas. O quê tinha feito errado? O quê?

Não valia a pena tentar descobrir. Simplesmente não valia. Fragilizado e mais importante, solitário, optou pela saída dos covardes. Pobre coitado. Caso ainda tivesse alguém, qualquer um, a quem recorrer, mas não tinha. Tinha só a ele. E como percebera que isso não fazia a menor diferença para um mundo de 7 bilhões, um velho a menos seria melhor. Consumiria menos recursos.

Pegou uma corda. O teto e o ponto da lâmpada da cozinha eram bem feitos apesar de um apartamento pobre. Uma corda, amarrou a bem, subiu na cadeira e a chutou.

O acharam duas semanas depois quando um dos vizinhos começou a reclamar do cheiro que tornara-se insuportável. Saiu no jornal. Uma pequena nota numa das páginas. “Homem se suicida e é encontrado apenas duas semanas depois.”

Montanhismo no Canadá

seg - 24/10/2011 Deixe um comentário

Chega um momento na vida de todos as pessoas que elas simplesmente não sabem mais sobre o que falar. Como o falar também pode ser entendido como comunicar, naturalmente também chega uma hora que as pessoas não sabem o que escrever, o que filmar, o que produzir, elas simplesmente não sabem. É uma situação onde a pessoa deve buscar uma resposta para as angústias de sua vida criadas senão por ela mesma e essa resposta vem de dentro. A resposta que colocará ela de novo no rumo e fará com que ela volte a ser quem seja.

É o caso do nosso barman? Claro que NÃO! O Pub é foda e eu quero é lhes contar uma boa história de quando estava praticando montanhismo no Canadá. Hora que eu quiser falar sobre possíveis bloqueios eu vou direto ao ponto. Não ficarei fazendo drama e mimimi.

De qualquer forma, fui ao Canadá visitar Henry; um amigo de infância que se mudou da Irlanda para lá quando ainda era muito jovem. Ele me mandou uma carta dizendo que havia finalmente sido aprovado no concurso público para urso e que em breve iria se casar.

Para quem não sabe, no Canadá só existem praticamente dois empregos. O cargo de polícia montada e o de urso. O de urso é concursado. Vide muitos não quererem ser da polícia montada.

Mas fui até lá, meu amigo que não via há muitos anos havia acabado de adquirir um ótimo emprego e além disso me convidara para seu casamento.

Casamento. Cerimônias solenes onde acontecem a derradeira união entre duas pessoas de forma religiosa ou não.E após a cerimônia procede-se normalmente uma festa com comida, bebida, música e bolo. Principalmente bolo. Logo, levando em conta todas estas razões, resolvi partir para o Canadá para encontrá-lo.

Cheguei lá, ele já estava empossado no emprego quando me recepcionou no aeroporto e foi interessante vê-lo cumprindo seu trabalho de urso. As pessoas claro acharam completamente normal, afinal haviam outros da mesma forma, mas deixando isso de lado, fui treinando meu ursês com Henry até chegarmos na sua casa onde fomos recebidos pela sua futura esposa. O casamento estava marcado para daqui a uma semana e durante esse período Henry me convidou para conhecer as montanhas nas quais ele agora trabalhava.

Muito bem, saímos no dia seguinte, eu com mochila um pouco d’água e algumas parcas coisas e ele apenas com seus equipamento de urso. Fomos andando, subindo, ele me apontava certos locais e me mostrava um pinheiro de vez em quando parava para conversar com outros ursos e me apontava outro pinheiro, subíamos por uma trilha até o topo da montanha e ele continuava a me falar dos pinheiros. Pinheiros muito interessantes devo admitir, aliás, preciso lhes dizer que os pinheiros perto do cume eram muito mais interessantes que os pinheiros perto da base. Ele tinham um formato levemente mais parecido com um pinheiro do que os pinheiros da base.

De qualquer maneira, chegamos finalmente ao topo. A vista era maravilhosa e por não ser muito alto não tivemos problema algum em subir a encosta, tampouco ar rarefeito. Mas de repente o tempo começou a fechar e fechou rapidamente, logo não tinhamos mais sol e começou a nevar junto com fortes ventos. Ganhamos em trinta minutos uma tempestade de neve.

Henry que havia treinado muito para se tornar um urso colocou seus conhecimentos em prática. Não vendo quase nada e marcando os pinheiros que agora pareciam apenas pinheiros como quaisquer outros e conseguiu perto da encosta achar uma caverna. Nos protegemos lá e a situação começava a ficar complicada para ambos. Eu não poderia sair naquela tempestade. Não fazia idéia de como me arrumar por lá.Meu amigo por outro lado, podia e conseguiria com tranquilidade voltar para a cidade, mas era contra as regras do seu trabalho um ser humano cohabitar a caverna junto com o urso.

Ele teria que ir a cidade e avisar a polícia montada para que me resgatassem. Perguntei lhe se ele não podia me levar de volta, mas a resposta foi negativa. Caso ele assim o fizesse poderia ser até mesmo exonerado de seu serviço, pois descobririam não só que me protegi da tempestade na caverna junto com ele, como ele também ajudou um civil a sair da tempestade. Isso fere diretamenet o código 137 do regimento dos ursos.

Ah, o funcionarismo público. Fiquei na caverna, Henry dissera que iria mentir assim que chegasse a cidade. De que vira no horário de serviço um civil se refugiando em uma caverna, e agora que estava fora do horário deveria relatar a polícia para que ele fosse resgatado.

Legal é que fiquei naquela caverna durante dois dias. A tempestade durou um dia e meio e apenas na metade do segundo dia ─ dia do resgate ─ encontrei a polícia montada procurando a caverna. Tudo bem que com a tempestade fora do caminho eu poderia simplesmente ir andando de volta até a cidade, mas eles resolveram seguir o protocolo e me levaram.

Legal é que me fizeram um monte de perguntas no caminho e um prontuário. Isso sem nem me oferecer um café, um chocolate, ou qualquer coisa, mas tudo certo. Bom ver funcionários públicos fazendo seu trabalho.

A história praticamente acaba aqui. Voltei a casa de Henry, fiquei lá por um tempo, ele pediu desculpas, mas disse que não deveria sacrificar seu emprego recém-adquirido por isso e que ele deveria se concentrar no casamento.

A festa de solteiro foi legal pacas, e aprendi a fazer alguns sanduíches muito legais. Mas o melhor mesmo foi o casamento. Nunca imaginava que veria o Henry se casar e na verdade nunca imaginava que o veria de novo para início de conversa.

Depois disso tudo, voltei ao meu pub e agora quero ficar um tempo por aqui.

A equipe do Fox Pub deseja a todos um bom início de semana.

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