“Foi em uma neblina gelada
Que eu me perdi
Tomando litros de cerveja
Que eu roubei de um guri.
Por pouco não morro
Por tudo o que passei
E estou aqui para contar
Por onde viajei
Eu, este velho irlandês.”
Sim meu amigos, retornei com um novo fígado para lhes contar o que me ocorreu um dia desses e mais uma nova crise gerada. Outro dia eu, passeando com meus velhos amigos Owen e James Joyce, percebi que estava com uma terrível sede por um bom whisky; whisky, e não whiskey, que é o irlandês ou até americano e sim o verdadeiro Scotch whisky; foi então que pedi a meu bom amigo barman, Owen, para que quando voltassemos para nosso querido pub, ele me servisse de um maravilhoso copo de Black Label, porém, infelizmente ele me disse que não seria possível. O carregamento de whisky estava atrasado.
Atrasado, pois naquela mesma semana havia ocorrido o festival “gaita de foles da alegria”. Um festival escocês muito famoso, onde ocorrem muita competições, como o famoso arremesso de whisky; onde os competidores têm de colocar whisky dentro de uma gaita de foles especial, com uma boca para assopro e outra para a saída, saida normalmente da música, mas neste caso bebida.
Com isso temos competição de longa distância, competição de maior altura e tiro ao alvo no kilt do vizinho. Isso geralmente faz com que 90% do whisky proveniente da Escócia acabe. O restante foi mandando para alguns seletos países, como Alemanha, Brasil, Inglaterra e Irlanda. O problema é que os marinheiros, todos escoceses, ainda estavam bêbados pela participação no famigerado festival e por isso que muitos erraram o caminho, outros fugiram com o carregamento e os que conseguiram chegar estavam dormindo nas docas.
Fui então até lá e achei o navio de um velho amigo, o capitão Poe. Obviamente “il captan” estava tão bêbado quanto qualquer bom escocês. Decidi não incomodá-lo e fui diretamente até o carregamento de whisky. Ele me conhecia e eu podia fazer isso a vontade por ser um velho amigo. Chegando a área onde se encontrava o carregamento, instantaneamente deparei-me com um monte de maravilhosas caixas com o whisky de meu bom amigo, Johnny Walker, este que já rapidamente me convidou para beber com ele. Comecei a tomar todas e mais um pouco. Guardei algumas garrafas em minha jaqueta e quando estava a ir embora, resolvi dar uma passadinha no banheiro. Sentei-me no “trono” e acabei por dormir.
Quando dei por mim, ou seja, quando o efeito do álcool estava pensando em passar, acordei com minha barriga chacoalhando para um lado e para o outro. Rapidamente percebi que ou a ressaca estava tendo um efeito anormalmente forte, ou o barco estava se movendo. Á, sim, fazendo um pequeno adendo para aqueles que como eu gostam de beber, porém, ficam com uma ressaca mortal no dia após a bebedeira, aqui vai duas dicas para você nunca mais ter problemas com a ressaca: 1º, faça como qualquer bom irlandês, matenha-se eternamente bêbado ou o mais bêbado possivel, tendo como café da manhã alguns goles de conhaque e depois Bailey’s misturado com ovos para que seja algo bem nutritivo, mas caso você não seja provido de três figados como todo bom irlandês. Beba uma boa garrafa d’água, isto é, se você estiver sóbrio o suficiente para acertar sua boca. Em seguida tome dois, repito dois, analgésicos como novalgina ou cebalena, e só, você estará pronto para mais um trago.
Voltando a historia que eu estava a contar, me utilizei de todas as forças e o apoiador para deficientes físicos do banheiro e levantei-me. Saí para a sala a qual haviam muitas e muitas garrafas de whisky e percebi que, de repente, estava vazia. Cheguei a conclusão de que: ou o barco fora saqueado por alguns irlandeses, ou os marinheiros haviam ficado sóbrios, deixado o carregamento nos locais necessários e partido enquanto eu dormia. Uma pena, pois não consegui dar meu Farewell para a minha querida Irlanda. Foi quando decidi ir até a cabine do barco, onde encontrei o capitão Poe, ainda um pouco alterado com o álcool no sangue devido ao whisky da entrega.
Fiz-lhe o comprimento dos marinheiros escoceses, que consiste em dar um twist duplo carpado, cair e se apoiar com o mindinho do pé esquerdo enquanto toca o nariz no chão e bate uma palma na barriga de seu amigo. Após todas as cerimonias, sentamos e conversamos enquanto um marujo tocava a música “Row Bullies Row”.
Conversamos sobre o céu, a terra e principalmente o mar. Á, o mar, doce e maravilhoso mar. Há quantos anos que eu não saía em uma viagem de navio pelos mares de nosso planeta? Poe me disse sobre a falta de whisky que haveria na Escócia e sobre uma de suas primas que havia ganho a medalha de ouro no arremeço de bode. Á tal da prima, me lembrei mais tarde, foi uma de suas 42 primas com as quais já dormi e realmente ela tem uma força que faria o mais parrudo dos jogadores de rugby se assustarem. Á, maravilhosas mulheres escocesas, as mais fortes e belas do planeta.
Perguntei a ele sobre suas viagens e ele me disse que estava indo a Patagônia do oeste, uma parte da grande terra do fogo, lugar onde se é pega a essência do whisky, onde se pega a “água da vida”, água que só existe naquele único ponto, a água mais limpa e pura do mundo epara além de pegar a água poder escrever algumas de seus preciosos poemas. Nunca disse a ninguém mas foi o famigerado Capitão Poe quem me tranformou em um bardo. Me ensinou a cantar, tocar instrumentos variados, escrever poemas, arremeçar bodes e beber três copos de whisky flambados e queimar a barba.
Achei ótimo, pois fazia alguns anos que eu não ia aquele país. Desde a grande guerra das marinhas do Paraguai, da República Tcheca contra a marinha aérea do País das Maravilhas. Foi quando nos perguntamos se estavamos no caminho certo que uma neblina terrivel surgiu sobre nós e pela primeira vez na vida eu entendi a tal névoa que as pessoas normais falam que fica sobre seus olhos quando embebedavam-se.
Mas manti minha tranquilidade tomando uma dose cavalar de whisky cavalar, misturado com ovos, farinha de trigo, azeite e um pouco do santo daime. Me reforcei e preparei-me para enfrentar o que viesse a nos tentar destruir. A sim esqueci de lhes contar, para se chegar a Patagônia do oeste, é preciso ser um marujo bem destemindo e corajoso, pois há varios mostros, cantores religiosos, políticos, vendedores de encicloédia, apresentadores de programas que passam aos domigos e mulheres com vestidos cor de rosa que cantam Lady Gaga, além é claro de várias garrafas de whisky vazias jogadas a esmo no mar, ou seja, alguns dos piores medos dos bons cidadãos irlandeses.
Ficamos a mercê da correnteza por algumas horas, pois o “fog” umidificava as velas e o vento não estava a nosso favor, porém, nossas almas também estavam umidificadas pelo rum que restava nas privadas de sua cabine.
Foi quando algo aconteceu, ninguém poderia realizar, mas foi uma das maiores aventuras mais burlescas que eu já passei…
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