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“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 4

qua - 30/11/2011 4 comentários

─ O que você quer comigo!? ─ Foi o que Melissa, aos prantos, eventualmente gritou no fim daquela noite, mas antes de chegar a isso, voltemos um pouco no tempo.

Na semana passada Rodrigo a deixara em casa. Dona Lurdes sofrera por alguns dias com uma filha estranhamente mal humorada, perguntou se era a faculdade, se era o trabalho se era alguma coisa que tinha acontecido, mas a filha continuava emburrada. Bem, isso como já disse, melhoraria tempos depois. Porém, avancemos e vamos até a quarta-feira.

Apesar dos pesares e das muitas dúvidas que pairavam na sua cabeça, Melissa estava conseguindo fazer seu trabalho impecavelmente como de costume. Até é claro a chegad de Rodrigo. Ele se sentou e mesmo antes de pedir o prato virou e perguntou a ela:

─ Sente-se melhor hoje, senhorita?

─ Ah… cla… claro. Desculpe por semana passada.

─ Não foi nada, senhorita. Aliás, se me permite, diria até que foi um prazer.

Ela enrubesceu e, como pôde, anotou o pedido dele para aquela noite. “…diria até que foi um prazer… Bastardo, maldito, cretino. Por que ele fica brincando assim comigo? Por quê!?” Ela realmente não queria admitir, mas tinha se apaixonado por aquele rapaz. Se ela sequer recordasse do que falara há quase sete meses atrás quando ele primeiro veio ao restaurante numa quarta-feira enevoada e fria, provavelmente entenderia o porquê de tudo isso. Queria alguém que fizesse o “dever de casa”. Rodrigo fez. Desestabilizou-a e cativou-a.

Muito bem, a noite parecia interminável para Melissa. Desde semana passada não estava bem. as aulas de uma semana da faculdade passaram batidas, o trabalho só fazia pois se tornara quase automático e porque a concentração em determinadas coisas faziam com que ela esquecesse outras, mas agora com o olhar dele sobre ela era difícil se concentrar mesmo no trabalho.

Aquele olhar que — sei que é repetitivo, mas este é o ponto — agora a rasgava, acariciava, despia, vestia com algum tipo de manto romântico e penetrava tudo sem sequer tocá-la, lhe deixava doente. Graças a este olhar, algumas mesas tiveram pedidos trocados na bandeja, outras receberam um guaraná ao invés do suco de laranja, mas nada muito grave. A maioria não estava com vontade de discutir numa quarta a noite e alguns dos homens nessas mesas vendo uma garçonete tão bonita, mas ao mesmo tempo que estava tão atrapalhada e tímida, simplesmente ficaram olhando mais ainda. Ou seja… piorou.

No final da noite, Melissa que estava com um cansaço fora do habitual, fora ajudar Anna com as cadeiras e as mesas.

─ Melissa, você está bem?

─ É claro que não estou bem. ─ Ela disse quase aos berros.

─ Calma mulher, o que aconteceu?

─ Oras, você sabe muito bem… e eu não sei o que fazer.

─ Já pensou em falar com… ─ Anna lembrou-se que naquele tom de voz Rodrigo poderia e quase com certeza estaria ouvindo. ─ …a pessoa que te deixou assim?

─ E o que você acha que eu devo falar?

─ Que tal a verdade? ─ Anna perguntou e logo depois que terminou: ─ Algum problema, senhoritas? ─ Rodrigo que ouvirá os berros, entrou naquela parte do salão para ver se estava tudo bem.

─ Não senhor está tudo… ─ Começou Anna, mas logo foi interrompida, pela frase com que iniciamos tudo isto. ─ O que é que você quer comigo!? ─

Agora já não era mais possível disfarçar. Ela estava aos prantos, o rubor da face tinha dado lugar a soluços, nariz escorrendo e lágrimas. O restaurante a esta altura já estava fechado, nenhum cliente mais estava por lá. Mas isso não impediu a equipe de ver o que estava acontecendo e logo depois fingir que não era com eles.

─ Me diz! O que é que você quer!? Você fica me encarando desde a primeira vez que veio aqui. Você sabe muito bem que você é um cafajeste. Se você não quer nada fala logo de uma vez e para de me atormentar! Ou melhor, por que você não vai some logo, vai embora de uma vez e deixa em paz!?

─ Eu…

─ Você o quê!? HEIN!?

─ Eu me apaixonei por você desde a primeira vez que a vi. Mas já que quer assim… ─ Rodrigo foi até o caixa, onde já tinha pedido a outro garçom para fechar sua conta, pagou, pegou uma sacola junto com o garçom e foi embora.

Verdades sabidas. Uma verdade sabida é algo que todos sabem, mas que por alguns motivos não podem ser amplamente divulgados. Neste caso, todos sabiam da paixão não admitida de Melissa por aquele rapaz. O que eles presenciaram foi quase o fim de uma novela. No caso um homem de coração partido que de fato se esforçou para conquistar uma mulher por quem se apaixonara e uma mulher que não queria admitir que gostava do homem que tanto se esforçou.

Todos fingiram que não tinham nada a ver com o que tinha ocorrido e voltaram ao trabalho para fechar o restaurante. Mas Melissa, ah!, esta chorava copiosamente. Anna a ajudou a arrumar as cadeiras e ainda tentava conversar um pouco com ela sobre o que tinha acontecido, mas ela se mostrava impassível. Tudo que ela pode fazer foi colocar um papel em seu avental. Ela encontraria quando chegasse em casa e com certeza faria alguma coisa quando o arrependimento batesse.

Já Rodrigo, simplesmente voltou para casa. Não estava bravo. Decepcionado, sim. Afinal seus esforços haviam sido, podia se dizer em vão. Mas por que haveria de se irritar? Sim, não era daqueles de se contentar com o tão, erroneamente conhecido, amor platônico, mas o que podia fazer? Se não dera certo, não dera certo. Embora, com o que havia passado para Anna há alguns dias atrás, torcia para que algo acontecesse, por isso colocou dois pedaços de bolo na geladeira e esperou.

Quanto a Melissa, esta voltou para casa, chegou um tanto quanto mais tarde “Ônibus de merda que tanto demora.” com o rosto e os olhos inchados do choro que passara, mas retornara no exato instante que ela saiu do ônibus. Mas não só isso. Também o que Anna previra: remorso. Ela passou meses negando, mas até que gostava daquele cafajeste e agora era quando se sentia mais para baixo. Depois de feita a besteira e ter praticamente expulsado-o do restaurante.

Foi em silêncio até a lavanderia para não acordar sua mãe. Esvaziava os bolsos das roupas pensando: “O que eu fui fazer. Por que eu fui falar aquilo? O que eu tinha na cabeça.” Quando sentiu na sua mão um papel. Duas coisas estavam escritas quando parou para lê-las. Um endereço numa caligrafia totalmente desconhecida e um recado de Anna. “Caso você mude de idéia…”

─ Mas será que…

Sim, era. Ela hesitou por um momento, mas depois teve certeza, era o endereço dele. ─ O que eu faço? O que faço? ─ Perguntava-se andando de um lado apra o outro. As pernas ajudaram o corpo a decidir, levou o conjunto até a porta da casa. Quando os olhos repararam onde estavam e informaram ao cérebro, este travou. Quis dar ordem de, meia volta, volver, e ir para a cama, precisava ir para a faculdade amanhã. Mas o coração discutiu. Disse que queria ir, disse que precisava ir e utilizou, vejam só, de lógica com o cérebro, dizendo que se não fosse, ele não conseguiria tirar qualquer proveito da “faculdade” que estava usando como desculpa para ir para a cama.

O cérebro sem um bom argumento, perdeu. O coração ganhou o controle e ordenou as mãos para pegar as chaves a carteira e santo deus! dane-se a bolsa. Peguem só o essencial e vamos logo.

Rodrigo continuava sentado à mesa esperando e esperando e esperando. Esperaria a noite toda se fosse preciso. O relógio marcou meia-noite. ele não se recolheu. Uma da manhã. Ele não se recolheu. Duas da manhã. Ele bocejou, mas não se recolheu. Quase três da manhã. A cabeça pesava para frente e os olhos lutavam para ficar abertos. Dormiria na cadeira, mas não se recolheria. Quando enfim os olhos pareciam desistir e se fechar para dormir, um ding dong foi ouvido.

Abriu a porta e na sua frente, via uma Melissa de cabelo desfeito, olhos e rosto inchado, vermelha e ofegante de cansaço da corrida do ponto de ônibus até a casa e com o rosto encharcado de gotas misturadas de suor e lágrimas começou: ─ Arf… Eu… eu… eu queria pedir… ─

Ele não a deixou nem terminar de falar. Sabia que não era necessário e a abraçou apertado. Ela abraçou-o de volta, apertando com a força que lhe restava e os dois ali naquela noite selaram seu primeiro beijo como casal.

Obviamente que os dois não ficariam ali na noite agarrados até o sol nascer. Digamos que eles levaram isso para locais mais privativos e mais confortáveis, onde podiam se sentir a vontade, inclusive para retirar algumas peças de roupa caso sentissem calor… Enfim, acordaram no dia seguinte, ambos atrasados para suas respectivas responsabilidades, mas não ligaram. Justificariam aquilo tudo de alguma forma. Ela foi tomar banho, Rodrigo foi preparar o café e pôs a mesa. Pão, biscoitos, café, suco e dois pedaços de bolo de nozes.

Cinco anos depois:

─ Você Rodrigo, aceita Melissa, como sua legítima esposa, na saúde e na doença, na fortuna e na pobreza e promete amá-la até que a morte os separe?

─ Sim. Eu aceito.

─ E você Melissa? Aceita Rodrigo como seu legítimo esposo, na saúde e na doença, na fortuna e na pobreza e promete amá-lo até que a morte os separe?

─ Sim. Eu aceito. ─ Disse ela apertando carinhosamente a mão dele.

─ Então eu os declaro marido e mulher. Podem selar esse matrimônio, com um beijo.

“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 3

Um texto estranho ao Pub… 4

sáb - 12/11/2011 Deixe um comentário

Ao abrir o pub esta noite, ouvi um barulho fora do usual no interior do lugar. O que fiz? Abri a porta ainda mais rápido que pude. Quando consigo acender as luzes e ver o que estava acontecendo, ouço a porta dos fundos sendo aberta e não sendo fechada e corro para ver. Obviamente não era a opção mais inteligente, mas quem quer que fosse, saiu em disparada, pois não vi mais nada na rua.

Fecho a porta, tranco-a e sob o balcão vejo uma quantia de dinheiro, uma garrafa de whisky aberta, um copo com ainda um dedo de bebida, uma pequena anotação feita com traços para indicar quantidade e um papel com um texto interrompido, com certeza por mim, que agora publicarei.

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Então, a bala 9mm.

Você não pode esperar ter algo como o que eu tinha em mãos e sair simplesmente incólume de tudo aquilo. Primeiro eu deveria avisá-los de que tinha o objeto, embora isso se mostrou completamente desencessário. Recebi mais uma carta. Maldita carta. Desde que sai não consigo mais tolerar essa caligrafia. É sempre impassível, extremamente polida e direta ao ponto. Dizia:

“Informações chegaram a nós de que o senhor está com algo que nos interessa. Gostaríamos de convidá-lo para que pudessemos efetuar uma transação que fosse benéfica para ambas aas partes. Por favor compareça ao prédio… andar… na rua … as 16 horas de amanhã. Lhe desejamos um bom dia.”

Lhe desejamos um bom dia. Bastardos com esse bom dia. De qualquer maneira o encontro seria dois dias a partir daquele dia. Sem perder tempo algum fui visitar o prédio para saber como eram as redondezas e descobri que era um local relativamente seguro. Digo isso pois era bem movimentado. Logo as chances de acontecer algo eram bem baixas.

Ruas largas com um bom tráfego, policiamento considerável, vários outros prédios ao redor do que eu deveria entrar, alguns cafés e um ponto de ônibus. Se algo acontecesse ali, chmaria a atenção. Principalmente se fosse algo relacionado com armas de fogo.

Mas quem disse que teria tiroteio na rua? Não, na rua haveria apenas um acidente envolvendo três carros, sendo um deles uma pick-up apenas para distração. E enquanto as buzinas rolassem soltas, paramédicos, bombeiros, engenheiros e policiais fossem chamados para resolver o problema, tiros seriam trocados dentro daquela sala no último andar do prédio.

Deixe-me explicar um pouco mais. Era um prédio comercial, logo o último andar geralmente era reservado à empresas maiores que precisavam de mais espaço e talvez o heliponto. Antes de sair de casa no dia da reunião fiz a coisa mais sensata possível. Me arrumei, vesti meu terno e por baixo de tudo um colete a prova de balas.

Me forçando eu conseguia andar em minha velocidade normal e tendo treinado até o dia da reunião, fiz com que o colete virasse quase uma extensão do meu peito. Não iria chamar atenção e de fato não chamei. Porém, fui descuidado com uma coisa. Estava sendo seguido. Digo, estava sendo seguido por pessoas as quais eu sabia que não deveriam estar me seguindo.

No fim das contas, você sempre está sendo seguido, porém, as sombras tem ordens e desde que uma delas não seja “Mate quem você está seguindo”  tente não se preocupar demais, do contrário essa será uma das ordens a entrar na lista. De qualquer maneira cheguei ao prédio, dei meus documentos, disse o nome da empresa ─ com certeza um nome falso ─ e fui autorizado a subir.

Ao chegar a sala, um rapaz, vestido de maneira simples ─ camisa, calça social e um par de sapatos ─ abriu-me a porta. Provavelmente um estagiário. Ele disse que a senhora Newman, estaria em breve conosco e que a reunião se daria quando os outros membros chegassem.

“Você está sozinho?” Perguntei a ele. “Sim, os outros todos saíram muito mais cedo, ordens da chefe. Ela me pediu para ficar para que eu pudesse abrir a porta.” “E agora você vai embora?” “Não, esperarei até que ela chegue.” “Não se preocupe, pode ir embora, está dispensado.” “Lamento senhor, mas não posso.” “Ouça o que ele diz Paul” Disse a senhora Newman que acabara de abrir a porta.

Ah, minha ex-chefe. Não mudara em nada desde a última vez que a vi. Era como se ela tivesse parado no tempo. O mesmo corte de cabelo chanel e o rosto que aparentava ter quarenta anos. Mas continuei. “Não lhe vejo há alguns anos, Angela.” “Digo-lhe o mesmo Arthur.” “Vocês se conhecem?” “Sim, Paul, já trabalhei com ela, agora, por favor, deixe  nos.”

O garoto timidamente arrumou suas coisas em sua mochila e nos deixou. “Bom rapaz este, Angela.” “Também gosto dele, mas vamos aos negócios. Você foi seguido?” “Pelo que eu saiba apenas pelos seus homens.” “Não foi o que eles me disseram.” Foi nesse momento que gelei, mas fui obrigado a disfarçar. “Entendo.” Emendei. “Creio que estou perdendo o meu toque.” “Nem tanto, Arthur. Esperava que você fosse demorar mais de um ano para me reaver o que preciso.” “Acha que deveríamos continuar?” “Tenho confiança em meus homens, Arthur. Sabe muito bem disso. Vamos aos negócios.”

Entramos na sala de reuniões, notei logo de cara que a porta e a mesa eram reforçadas, o excelente acabamento demonstrava que queria esconder alguma coisa.

“Muito bem Arthur. Você teve meu objeto de volta. O que quer por ele?” Ela começou. “O que você está disposta a me oferecer?” Lhe perguntei. “Posso lhe oferecer o que você quer.” “Não creio que possa me oferecer o fim dos pesadelos.” “De fato não posso. Mas posso lhe oferecer a liberdade, e quem sabe um começo na área em que você queria seguir.” “Isso entra de certa forma em paradoxo. Se eu for indicado por você, certamente irão me vigiar.” “Mantenho minha palavra de que não acontecerá, Arthur. Lhe darei a liberdade e manterei a palavra como chefe da organização e lhe indicarei como Angela Newman.” “Sei que você sabe muito bem separar as coisas. Mas creio que posso começar sozinho, dinheiro não é um problema.” “Imagino que não, você soube investir muito bem o que ganhou conosco. Mas deveria se manter longe de algumas empresas na bolsa, não quero ver você quebrando.” “Obrigado pelos conselhos financeiros, Angela. Mas você viu que consegui cuidar bem de meu patrimônio.” “Sim. acompanhei eu mesma durante um tempo. Mas o que me diz? Aceita minha proposta?” “Ela me parece justa Ange…” Foi nesse momento que não ouvi algo que deveria estar ouvindo. O barulho do ar condicionado, muito silencioso parou.

“O ar.” Foi o que ela disse, e tão rápido quanto pudemos fizemos duas coisas, eu arrastava a mesa em direção a parede para depois tombá-la e ela pegava do cofre um par de máscaras de gás. Não demorou muito. A sala começou a ser inundade de gás e a porta reforçada caiu de forma brusca. Eu que me agaixava para tomar cobertura da mesa junto com Angela só vi uma pessoa entrar e começar a atirar. Foi essa a bala de 9mm que passou próximo ao meu rosto.

Peguei minha 9mm e…

 

Invasão da reitoria da Usp – parte 4

qua - 09/11/2011 Deixe um comentário

Sei que eu disse que voltaríamos a tranquilidade de Pub e de fato voltaremos. Hoje teremos (será o primeiro postado) um texto muito mais gostoso, afinal foi cozinhado lentamente em fogo brando. Mas como eu também disse, a medida que coisas interessantes fossem surgindo elas seriam colocadas aqui.

Vou para o Estadão e me deparo com estas notícias. Me pergunto logo em seguida: Espera. “Estudantes” fazendo greve? Greve de quê? O que eles ganham fazendo isso?

As minhas respostas foram: Mas eles são “estudantes” não trabalham na Universidade, estudam lá. Além do mais a Universidade é pública, eles pagam nada e a única eventual coisa que podem ganhar, também é nada. Quem talvez pode vir a ganhar com isso podem ser os professores que não estejam a fim de dar aula e funcionários que não terão um grande movimento na Universidade e grande número de pessoas para atender.

Aliás, eles apenas perdem com isso. Perdem aulas, provas ─ principalmente agora que é final de semestre ─ novas chances de aprender alguma coisa e mudam em nada a situação. Isso é um troço estranho. Uma coisa seria o caso de professores fazerem greve para reivindicar condições melhores de trabalhos em vários quesitos ─ instalações, plano de carreira, salários, material preparatório e didático, etc.. Agora outra completamente oposta são estudantes fazerem greve por causa de um crime que eles por venturam apoiam. Neste caso não creio que se trate de estudantes, mas sim estudantecos estes os que apoiam e estão em greve.

Agora outra coisa para fechar o post e o dia com bom humor. Vi este vídeo no blog do Reinaldo Azevedo da Veja e ele é simplesmente hilário.

Tive que me segurar para não rir. E depois de ver isso, admito que minhas preocupações quanto a uma possível desmoralização da PM foi infundada. A “jornalista”, apesar de estar histérica, foi tratada com um respeito que muitos talvez me diriam que ela não merecia.

O vídeo é claro. Os policiais estão ali cumprindo ordens judiciais de reintegração de posse e manutenção da ordem pública. Distribuir “borracha, cacetete e porrada” nos estudantecos ou em qualquer transeunte, não está entre as ordens, apesar da permissão para tal caso as coisas fujam do controle.

Ai ai. De qualquer forma, ainda reitero meu voto de que a Polícia não utilize de violência, é contra produtivo e o buraco é mais embaixo. Na realidade, sempre o é. Segurança é um assunto que interessa a todos e não se resolve apenas com polícia, isso é verdade. Mas a polícia, deve e precisa, ser complementar a outras fatores como iluminação e movimento por exemplo.

Afinal de contas é fato que crimes são cometidos mais facilmente em lugares ermos. Coisa que quem já visitou a cidade universitária sabe que existe. Porém, transformar um local deserto e obscuro em um local movimentado, iluminado e potencialmente mais seguro, é algo que consome recursos.

Dentre eles o mais caro de todos é o tempo e como ele é de certa forma escasso para resolver problemas que estão acontecendo agora, sou a favor da Polícia ficar. Aliás, sou a favor da Polícia ficar e continuar mesmo depois das eventuais obras e melhorias, pois as leis que valem no território nacional também valem na USP. Sem mais.

A equipe do Fox Pub deseja a todos um bom resto de semana.

Da queda à ascensão. Parte 4

sex - 14/10/2011 1 comentário

Ele saira do bar e o sol há tempos se fora. Apenas as luzes das ruas que agora iluminavam a noite gélida de outono que mais parecia um grave inverno; pelo menos, um grave inverno em seu coração. Andava e andava ainda mais, sem saber para onde ia. O tempo fechava-se. Iria chover muito em breve, ou ao menos, relampejar.  A tempestade se aproximava, mas quem ligava para ela? Pensamentos se formavam em sua cabeça e a cerveja, mesmo com pouco álcool, tornou seu corpo macilento e seu cérebro mais desimpedido para certas coisas. Certas coisas que nos vem quando estamos mais fracos; o chamado caminho dos covardes.

Afastou essa sombra de sua cabeça por um breve momento. Mais memórias voltaram. Lembranças daquele ano, de quando as coisas começaram a desandar. De como Julia desde o início do ano começara a ficar fria e distante com ele. Das brigas incessantes que os dois tinham por motivos que nunca foram realmente incômodos. Das discussões que eles tinham sobre simples comentários que por vezes um ou outro fazia sobre algum assunto.

O que havia dado errado? Por que aquilo tinha acontecido? Ele não sabia, mas a resposta veio junto com a sombra; ela voltara e trouxera consigo memórias mais antigas que ele não abrira porque não quisera. As brigas sempre existiram. Verdade que em menor quantidade, mas sempre estiveram lá. Por que as tinha ignorado? “Pois você queria viver um conto de fadas.” A criatura lhe disse aos sussuros.

Ele chacoalhou a cabeça como dizendo: É mentira. Mas ela teimava. “Você sabe que é verdade e você é o culpado. Você foi o responsável direto e indireto das muitas coisas que aconteceram.” Disse. “Mas eu não fiz nada.” Ele pensou rebatendo. Foi quando ela começou: “Lembra quando você deixou seu cachorro destruir o sofá dela? Lembra quando você esqueceu o aniversário de um ano de namoro? E esqueceu o de dois anos de namoro? E não suficiente o de três anos?” Robert tapou as orelhas como não querendo ouvir, mas a voz era interna e nada podia ser feito.

“Lembra quando você deixou ela esperando aquela vez na chuva? Lembra quando você conseguiu a incrível façanha de ofender a prima dela um segundo depois dela virar as costas? Lembra quando você mandou um buquê de flores no dia dos namorados, apenas para descobrir logo em seguida que ela era alérgica e teve que ir para o hospital? VOCÊ LEMBRA!?” ─ Para com isso! ─ Ele gritou para si mesmo de olhos fechados. ─ Sai da minha cabeça. Sai. ─ Dizia ele baixinho. ─ Vai embora. Por favor, vai embora. ─ Disse ele que agora ajoelhara-se. “Você quer que eu vá embora? VOCÊ QUER!? Então abra os olhos.”

Foi quando ele se deparou com um grande muro e portão. Sua cabeça se levantou. O ar trovejou e uma luz de raio lhe mostrou o local. Seu corpo estremeceu. Ele deu  alguns passos para trás e para seu completo horror, viu que estava de frente ao cemitério. Seu coração ameaçou parar. Iria entrar naquele local? Adentraria mesmo aquele lugar de morte, escuridão, repulsa e principamente incertezas as quais os vivos sempre evitam? A voz mandava-o entrar. Mandava-o seguir o caminho dos covardes. Mandava-o se matar. Que faria? Seu cérebro paralisou-se. O coração teve de assumir o papel de líder. Já fragilizado não achava as exigências daquela repulsiva criatura tão absurdas assim e começava a flertar com as mesmas, mas não foi ele quem decidiu. O cérebro para evitar uma catástrofe, recuperou-se em velocidade espantosa e disparou um impulso dando liberdade ao tronco e suas pernas que responderam pelo conjunto. Virou-se e correu o mais rápido que pôde noutra direção sem sequer olhar para trás.

“Não!” Pensava consigo. Ele não tomaria o caminho dos covardes, não acabaria ali naquele lugar ainda tão jovem. Por que tinha ido para lá em primeiro lugar? O suicídio nunca fora uma opção; sempre fora e sempre será apenas uma sombra até o fim de seus tempos. Uma hesitação destas que aparecem, mas que ele jamais deixaria tomar conta. Corria e não parava. Seus pulmões pediam por ar, o cérebro e o coração diziam que não era uma boa ideia continuar correndo por muito tempo, mas as pernas não ouviram. Os olhos que estavam fechados, viam nada e se viam nada com certeza não enxergavam para onde iam e foi exatamente por isso que bateu a toda velocidade num poste.

Quando abriu os olhos, enxergou apenas um céu cheio de nuvens com um par de raios que tirou lhe o ar que já não possuía. A dor de cabeça e peitoral ainda demoraria uns bons segundos para aparecer, mas quando chegaram ele não se sentiu mal; em vez de se lamentar, sorriu. Sua sobrancelha direita e  lábio inferior que tinham sido rasgados na colisão sangravam. Ele sentia o gosto de sangue em sua boca. O líquido quente escorrendo pelo seu rosto e pingando pelo seu queixo. Mas ainda assim sorria. Sorria, pois por mais doloroso que fosse, mostrava a ele uma coisa valiosa. Se ele era capaz de sentir dor e se ele era capaz de sangrar era porque estava vivo. Estava vivo e tinha muito ainda pela frente.

Aquela criatura repulsiva; aquela criatura que desejava a sua morte perdia espaço para coisas muito mais tangíveis. Perdia espaço para seu sangue que escorria, para a dor que ele sentia no peito e para a risada que ele soltava frente a sua idiotice. “Mas isso ainda não terminou.” ─ Terminou hoje cedo. Fora daqui. ─ “Mas…” ─ Eu disse: Fora. Daqui! ─ A criatura rastejou para os confins de onde viera. Ele agora olhava sua roupa e imaginava como estava seu rosto. Teria de dar alguma explicações para seu pai, mas nada que a máquina de lavar, um curativo, um banho e uma conversa franca ─ não necessariamente nesta ordem ─ não resolvessem.

Ele pegou o celular com a mão limpa e verificou o horário. ─ Dez horas, eh? Ah, em uma hora eu tô em casa. ─ Disse para si mesmo guardando o celular no bolso, tirando a camiseta e usando ela como pano para que pudesse estancar o sangramento. Voltava para casa quase tranquilo. O choque foi assistencial, mas não funcionaria para sempre. As boas memórias voltaram e ele tornou a chorar, mas pelo menos dessa vez, um choro amigável. Um choro verdadeiramente de adeus, mas que assegurava que as lembranças estariam sempre lá caso ele quisesse.

Ao chegar em casa, deu boa noite a seu pai. Sentado no sofá, assistindo o último jornal do dia, olhou para o filho que estava com o rosto e uma camiseta toda ensanguentada. ─ Vem cá, que que te aconteceu? ─ ─ Ah pai, foi… ─ ─ Se você brigou me diz pelo menos que você deu umas porradas no tratante. ─ Disse o pai entre risos com bom humor e sorriso ímpar. ─ Haha. Não pai. Perae, deixa eu te contar o que aconteceu.

E ele foi narrando com detalhes tudo o que aconteceu naquele dia, ao qual o pai intervinha as vezes com: ─ Padre preguiçoso. ─ ou ─ Poxa, você acha um baralho e nem para jogar uma partida de buraco com o pessoal? ─ ou algumas caretas. Caretas mais quando ele narrou sobre o rompimento e quando ele se deparou no cemitério.

─ E é isso pai.

─ Ah. Achei que fosse mais sério, Rob. ─ Disse o pai em tom de deboche ─ Mas, não esquenta. Sei que é chato de ouvir, mas na sua idade terminar relacionamento é uma merda. Simples assim.

─ Você falando “merda”?

─ O quê? Estou proibido agora?

─ Não, é que…

─ Ah, Rob, vai logo tomar um banho e colocar um curativo nisso aí, quem olha acha que você foi sovado, de tanto sangue que escorre dessa sobrancelha.

─ Mas já estancou e…

─ Vai logo!

E o rapaz foi para o seu banho, antes de entrar tirou a aliança de prata como de costume. Olhou bem para ela, brincou com ela um pouco, mas no fim acabou deixando em cima de sua mesa num canto perdido onde as coisas se acumulavam. Um dia ao arrumar tudo iria encontrá-la de novo, mas seria mais fácil de olhar.

Na faculdade, um ou outro mencionava o assunto, mas de certa forma, assim como outros assuntos era algo considerado um tanto quanto tabu. Mas o melhor foi no trabalho. Segunda-feira seuss colegas o animaram e na sexta resolveram fazer uma happy hour daquelas, em homenagem à volta à vida de solteiro.

O tempo começou a se passar. Dias, semanas, meses. Quando deu por si, já era novamente primavera e agora mandava fazer uma nova aliança, mas não esquecera a antiga. Na verdade, eventualmente limpou sua mesa, pegou-a e levou a um joalheiro. Ele pediu para que fosse feita uma pequena inscrição; a data do fim. O joalheiro atendeu prontamente e prontamente devolveu. Ao chegar em casa, Robert colocou-a numa caixa onde guardava muitas coisas.

Um pequeno mimo de sua mãe, a coleira de seu cachorro, algumas pequenas lembranças de amigos que nunca mais vira e agora uma prova de seu primeiro amor. De vez em quando olhava essas coisas todas. Mas assim como todos os outros objetos, agora via aquele pequeno pedaço de prata em forma circular não mais como algo sofrido, mas algo que o fez ascender como pessoa.

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