“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 4
─ O que você quer comigo!? ─ Foi o que Melissa, aos prantos, eventualmente gritou no fim daquela noite, mas antes de chegar a isso, voltemos um pouco no tempo.
Na semana passada Rodrigo a deixara em casa. Dona Lurdes sofrera por alguns dias com uma filha estranhamente mal humorada, perguntou se era a faculdade, se era o trabalho se era alguma coisa que tinha acontecido, mas a filha continuava emburrada. Bem, isso como já disse, melhoraria tempos depois. Porém, avancemos e vamos até a quarta-feira.
Apesar dos pesares e das muitas dúvidas que pairavam na sua cabeça, Melissa estava conseguindo fazer seu trabalho impecavelmente como de costume. Até é claro a chegad de Rodrigo. Ele se sentou e mesmo antes de pedir o prato virou e perguntou a ela:
─ Sente-se melhor hoje, senhorita?
─ Ah… cla… claro. Desculpe por semana passada.
─ Não foi nada, senhorita. Aliás, se me permite, diria até que foi um prazer.
Ela enrubesceu e, como pôde, anotou o pedido dele para aquela noite. “…diria até que foi um prazer… Bastardo, maldito, cretino. Por que ele fica brincando assim comigo? Por quê!?” Ela realmente não queria admitir, mas tinha se apaixonado por aquele rapaz. Se ela sequer recordasse do que falara há quase sete meses atrás quando ele primeiro veio ao restaurante numa quarta-feira enevoada e fria, provavelmente entenderia o porquê de tudo isso. Queria alguém que fizesse o “dever de casa”. Rodrigo fez. Desestabilizou-a e cativou-a.
Muito bem, a noite parecia interminável para Melissa. Desde semana passada não estava bem. as aulas de uma semana da faculdade passaram batidas, o trabalho só fazia pois se tornara quase automático e porque a concentração em determinadas coisas faziam com que ela esquecesse outras, mas agora com o olhar dele sobre ela era difícil se concentrar mesmo no trabalho.
Aquele olhar que — sei que é repetitivo, mas este é o ponto — agora a rasgava, acariciava, despia, vestia com algum tipo de manto romântico e penetrava tudo sem sequer tocá-la, lhe deixava doente. Graças a este olhar, algumas mesas tiveram pedidos trocados na bandeja, outras receberam um guaraná ao invés do suco de laranja, mas nada muito grave. A maioria não estava com vontade de discutir numa quarta a noite e alguns dos homens nessas mesas vendo uma garçonete tão bonita, mas ao mesmo tempo que estava tão atrapalhada e tímida, simplesmente ficaram olhando mais ainda. Ou seja… piorou.
No final da noite, Melissa que estava com um cansaço fora do habitual, fora ajudar Anna com as cadeiras e as mesas.
─ Melissa, você está bem?
─ É claro que não estou bem. ─ Ela disse quase aos berros.
─ Calma mulher, o que aconteceu?
─ Oras, você sabe muito bem… e eu não sei o que fazer.
─ Já pensou em falar com… ─ Anna lembrou-se que naquele tom de voz Rodrigo poderia e quase com certeza estaria ouvindo. ─ …a pessoa que te deixou assim?
─ E o que você acha que eu devo falar?
─ Que tal a verdade? ─ Anna perguntou e logo depois que terminou: ─ Algum problema, senhoritas? ─ Rodrigo que ouvirá os berros, entrou naquela parte do salão para ver se estava tudo bem.
─ Não senhor está tudo… ─ Começou Anna, mas logo foi interrompida, pela frase com que iniciamos tudo isto. ─ O que é que você quer comigo!? ─
Agora já não era mais possível disfarçar. Ela estava aos prantos, o rubor da face tinha dado lugar a soluços, nariz escorrendo e lágrimas. O restaurante a esta altura já estava fechado, nenhum cliente mais estava por lá. Mas isso não impediu a equipe de ver o que estava acontecendo e logo depois fingir que não era com eles.
─ Me diz! O que é que você quer!? Você fica me encarando desde a primeira vez que veio aqui. Você sabe muito bem que você é um cafajeste. Se você não quer nada fala logo de uma vez e para de me atormentar! Ou melhor, por que você não vai some logo, vai embora de uma vez e deixa em paz!?
─ Eu…
─ Você o quê!? HEIN!?
─ Eu me apaixonei por você desde a primeira vez que a vi. Mas já que quer assim… ─ Rodrigo foi até o caixa, onde já tinha pedido a outro garçom para fechar sua conta, pagou, pegou uma sacola junto com o garçom e foi embora.
Verdades sabidas. Uma verdade sabida é algo que todos sabem, mas que por alguns motivos não podem ser amplamente divulgados. Neste caso, todos sabiam da paixão não admitida de Melissa por aquele rapaz. O que eles presenciaram foi quase o fim de uma novela. No caso um homem de coração partido que de fato se esforçou para conquistar uma mulher por quem se apaixonara e uma mulher que não queria admitir que gostava do homem que tanto se esforçou.
Todos fingiram que não tinham nada a ver com o que tinha ocorrido e voltaram ao trabalho para fechar o restaurante. Mas Melissa, ah!, esta chorava copiosamente. Anna a ajudou a arrumar as cadeiras e ainda tentava conversar um pouco com ela sobre o que tinha acontecido, mas ela se mostrava impassível. Tudo que ela pode fazer foi colocar um papel em seu avental. Ela encontraria quando chegasse em casa e com certeza faria alguma coisa quando o arrependimento batesse.
Já Rodrigo, simplesmente voltou para casa. Não estava bravo. Decepcionado, sim. Afinal seus esforços haviam sido, podia se dizer em vão. Mas por que haveria de se irritar? Sim, não era daqueles de se contentar com o tão, erroneamente conhecido, amor platônico, mas o que podia fazer? Se não dera certo, não dera certo. Embora, com o que havia passado para Anna há alguns dias atrás, torcia para que algo acontecesse, por isso colocou dois pedaços de bolo na geladeira e esperou.
Quanto a Melissa, esta voltou para casa, chegou um tanto quanto mais tarde “Ônibus de merda que tanto demora.” com o rosto e os olhos inchados do choro que passara, mas retornara no exato instante que ela saiu do ônibus. Mas não só isso. Também o que Anna previra: remorso. Ela passou meses negando, mas até que gostava daquele cafajeste e agora era quando se sentia mais para baixo. Depois de feita a besteira e ter praticamente expulsado-o do restaurante.
Foi em silêncio até a lavanderia para não acordar sua mãe. Esvaziava os bolsos das roupas pensando: “O que eu fui fazer. Por que eu fui falar aquilo? O que eu tinha na cabeça.” Quando sentiu na sua mão um papel. Duas coisas estavam escritas quando parou para lê-las. Um endereço numa caligrafia totalmente desconhecida e um recado de Anna. “Caso você mude de idéia…”
─ Mas será que…
Sim, era. Ela hesitou por um momento, mas depois teve certeza, era o endereço dele. ─ O que eu faço? O que faço? ─ Perguntava-se andando de um lado apra o outro. As pernas ajudaram o corpo a decidir, levou o conjunto até a porta da casa. Quando os olhos repararam onde estavam e informaram ao cérebro, este travou. Quis dar ordem de, meia volta, volver, e ir para a cama, precisava ir para a faculdade amanhã. Mas o coração discutiu. Disse que queria ir, disse que precisava ir e utilizou, vejam só, de lógica com o cérebro, dizendo que se não fosse, ele não conseguiria tirar qualquer proveito da “faculdade” que estava usando como desculpa para ir para a cama.
O cérebro sem um bom argumento, perdeu. O coração ganhou o controle e ordenou as mãos para pegar as chaves a carteira e santo deus! dane-se a bolsa. Peguem só o essencial e vamos logo.
Rodrigo continuava sentado à mesa esperando e esperando e esperando. Esperaria a noite toda se fosse preciso. O relógio marcou meia-noite. ele não se recolheu. Uma da manhã. Ele não se recolheu. Duas da manhã. Ele bocejou, mas não se recolheu. Quase três da manhã. A cabeça pesava para frente e os olhos lutavam para ficar abertos. Dormiria na cadeira, mas não se recolheria. Quando enfim os olhos pareciam desistir e se fechar para dormir, um ding dong foi ouvido.
Abriu a porta e na sua frente, via uma Melissa de cabelo desfeito, olhos e rosto inchado, vermelha e ofegante de cansaço da corrida do ponto de ônibus até a casa e com o rosto encharcado de gotas misturadas de suor e lágrimas começou: ─ Arf… Eu… eu… eu queria pedir… ─
Ele não a deixou nem terminar de falar. Sabia que não era necessário e a abraçou apertado. Ela abraçou-o de volta, apertando com a força que lhe restava e os dois ali naquela noite selaram seu primeiro beijo como casal.
Obviamente que os dois não ficariam ali na noite agarrados até o sol nascer. Digamos que eles levaram isso para locais mais privativos e mais confortáveis, onde podiam se sentir a vontade, inclusive para retirar algumas peças de roupa caso sentissem calor… Enfim, acordaram no dia seguinte, ambos atrasados para suas respectivas responsabilidades, mas não ligaram. Justificariam aquilo tudo de alguma forma. Ela foi tomar banho, Rodrigo foi preparar o café e pôs a mesa. Pão, biscoitos, café, suco e dois pedaços de bolo de nozes.
…
Cinco anos depois:
─ Você Rodrigo, aceita Melissa, como sua legítima esposa, na saúde e na doença, na fortuna e na pobreza e promete amá-la até que a morte os separe?
─ Sim. Eu aceito.
─ E você Melissa? Aceita Rodrigo como seu legítimo esposo, na saúde e na doença, na fortuna e na pobreza e promete amá-lo até que a morte os separe?
─ Sim. Eu aceito. ─ Disse ela apertando carinhosamente a mão dele.
─ Então eu os declaro marido e mulher. Podem selar esse matrimônio, com um beijo.
“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 3
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