Da queda à ascensão. Parte 2
Um rapaz sentava-se num banco de praça quase sem vida e com um coração despedaçado. Seu corpo que fora congelado não pelo frio, mas por atos e palavras voltava ao normal.Uma quantidade de tempo se passou. O coração dizia que se passaram anos, o cérebro dizia que talvez meia hora, mas a verdade é que naquela tarde triste seria algo impossível de se saber.
O coração queria parar, estava, fraco, aos prantos, despedaçado, sozinho, mas ordens superiores disseram que não. Colegas disseram que não. O corpo não podia permitir que ele parasse, mas poderia permitir a ele que tomasse seu tempo e se recomposse. Os outros órgãos ajudariam da forma que poderiam, as pernas e os braços relaxaram e se posicionaram de maneira mais confortável. Os olhos começaram a vazar para que pudessem liberar a pressão interna. O estômago, apesar de cheio, disse que não precisaria de tanto sangue naquela hora. E ali ficou o coração; cuidando de algumas válvulas e juntando cacos de uma estrutura tão bem construída ao longo de tanto tempo.
Foi quando o cérebro pediu as pernas movimento. A tarde era fria e o que acabara de suceder só deixara o corpo ainda com mais frio. As pernas começaram a andar. O cérebro tentava pensar em outras coisas e cabisbaixo aquele rapaz errante nada mais era agora do que uma alma perdida pelas ruas daquela pequena cidade.
Toda alma perdida, vaga diretamente para pontos onde possa se achar ou então para pontos onde existam outras na mesma situação. Foi assim que ele chegou a uma Igreja. Sentou-se nos degraus do lugar e ficou analisando a praça que havia à frente. Pessoas andando, pessoas correndo, pessoas namorando, namorando, namorando… Esta palavra ficou na cabeça dele e as lágrimas logo voltaram, quando de repente uma freira, que o viu sentado naquele lugar tão frio colocou a mão em seu ombro.
– Tudo bem com você meu jovem? –Ela lhe perguntou.
Contendo suas lágrimas o máximo que pôde, virou-se e olhou para o rosto dela. Um rosto calmo e sereno, batido é verdade, mas ainda assim apaziguador. Seus olhos vermelhos e inchados não passaram despercebidos e ela logo emendou: – Por que choras? – Ele simplesmente enxugou mais um pouco das lágrimas com as mangas e pediu desculpas a freira, disse-lhe que não queria, não poderia falar.
Ela muito paciente, aceitou sua resposta, mas lhe disse que caso precisasse desabafar poderia fazê-lo com ela, ou então com o padre no confessionário, caso assim quisesse. Ela o deixou e novamente entrou. “Será que devo entrar também?” Ele pensou. Nunca fora uma pessoa religiosa, mas a freira havia lhe dito que não havia problema. Por que não falar com ela ou com o padre? Quantas histórias, inclusive de amor, não terá o padre ouvido?
– Eu vou entrar. – Disse ele a si mesmo, com um tom de falsa confiança. A igreja era um deserto. Ninguém a ser visto e mesmo a freira que havia entrado antes desapareceu por alguma das muitas portas ou em último caso, o confessionário, o mesmo lugar ao qual ele se dirigiu. Bateu na porta, não havia ninguém, entrou e uma voz grave lhe saudou.
– Bom dia meu filho. – Disse o padre.
– Boa tarde padre, eu… eu… – Disse o rapaz quase voltando a chorar.
– Veio se confessar? – Perguntou o padre ainda em voz solene.
– Na verdade não seu padre, eu só… –
– Perdeu alguém precioso? –
– Eu… Eu… –Balbuciava o rapaz, dessa vez a chorar.
– Meu filho, a separação de uma pessoa querida é sempre algo doloroso. Mas cabe a nós ultrapassarmos isso de alguma forma. Não podemos deixar que isso nos abale. –
– Padre… sniff… o que você me sugere? –
– Reze meu filho, tenha fé em Deus e continue sua vida. Como diz um sábio provérbio: Deus escreve certo por linhas tortas. –
– Mas padre… –
– Desculpe meu filho, isso é a única coisa que posso fazer por ti. –
O rapaz, saiu tão desconsolado como antes. Seria aquela mesmo a única opção? Rezar? Deus nunca lhe deu suporte, principalmente quando mais precisava, afinal, ele levou sua mãe quando tinha apenas seis anos de idade. Teria Deus lhe levado Julia também? Não, ela estava viva, sua mãe estava morta e pelo que ele sabia, Deus cuidava apenas de nossas almas imortais, não de nossos corpos mortais.
A cabeça voltou a se ocupar com qualquer coisa deixando para as pernas a tarefa de caminhar sem rumo. Novamente para algum lugar onde almas perdidas poderiam ser encontradas. Elas pararam por um instante a frente de uma pequena caixa velha e batida pelo uso. O cérebro nem reparou o movimento, mas junto com os braços, as pernas se abaixaram, pegaram a caixa, colocaram no bolso e retomaram seu movimento.
Com o auxílio de uma brisa gélida aquela tarde de outono se ia num pôr do sol avermelhado. Um rapaz com o coração partido caminhava a esmo pensando nas palavras que com pressa um padre havia lhe dito. Mas o pobre coitado ainda andaria muito mais antes de encontrar sua redenção.
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