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“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 4

qua - 30/11/2011 4 comentários

─ O que você quer comigo!? ─ Foi o que Melissa, aos prantos, eventualmente gritou no fim daquela noite, mas antes de chegar a isso, voltemos um pouco no tempo.

Na semana passada Rodrigo a deixara em casa. Dona Lurdes sofrera por alguns dias com uma filha estranhamente mal humorada, perguntou se era a faculdade, se era o trabalho se era alguma coisa que tinha acontecido, mas a filha continuava emburrada. Bem, isso como já disse, melhoraria tempos depois. Porém, avancemos e vamos até a quarta-feira.

Apesar dos pesares e das muitas dúvidas que pairavam na sua cabeça, Melissa estava conseguindo fazer seu trabalho impecavelmente como de costume. Até é claro a chegad de Rodrigo. Ele se sentou e mesmo antes de pedir o prato virou e perguntou a ela:

─ Sente-se melhor hoje, senhorita?

─ Ah… cla… claro. Desculpe por semana passada.

─ Não foi nada, senhorita. Aliás, se me permite, diria até que foi um prazer.

Ela enrubesceu e, como pôde, anotou o pedido dele para aquela noite. “…diria até que foi um prazer… Bastardo, maldito, cretino. Por que ele fica brincando assim comigo? Por quê!?” Ela realmente não queria admitir, mas tinha se apaixonado por aquele rapaz. Se ela sequer recordasse do que falara há quase sete meses atrás quando ele primeiro veio ao restaurante numa quarta-feira enevoada e fria, provavelmente entenderia o porquê de tudo isso. Queria alguém que fizesse o “dever de casa”. Rodrigo fez. Desestabilizou-a e cativou-a.

Muito bem, a noite parecia interminável para Melissa. Desde semana passada não estava bem. as aulas de uma semana da faculdade passaram batidas, o trabalho só fazia pois se tornara quase automático e porque a concentração em determinadas coisas faziam com que ela esquecesse outras, mas agora com o olhar dele sobre ela era difícil se concentrar mesmo no trabalho.

Aquele olhar que — sei que é repetitivo, mas este é o ponto — agora a rasgava, acariciava, despia, vestia com algum tipo de manto romântico e penetrava tudo sem sequer tocá-la, lhe deixava doente. Graças a este olhar, algumas mesas tiveram pedidos trocados na bandeja, outras receberam um guaraná ao invés do suco de laranja, mas nada muito grave. A maioria não estava com vontade de discutir numa quarta a noite e alguns dos homens nessas mesas vendo uma garçonete tão bonita, mas ao mesmo tempo que estava tão atrapalhada e tímida, simplesmente ficaram olhando mais ainda. Ou seja… piorou.

No final da noite, Melissa que estava com um cansaço fora do habitual, fora ajudar Anna com as cadeiras e as mesas.

─ Melissa, você está bem?

─ É claro que não estou bem. ─ Ela disse quase aos berros.

─ Calma mulher, o que aconteceu?

─ Oras, você sabe muito bem… e eu não sei o que fazer.

─ Já pensou em falar com… ─ Anna lembrou-se que naquele tom de voz Rodrigo poderia e quase com certeza estaria ouvindo. ─ …a pessoa que te deixou assim?

─ E o que você acha que eu devo falar?

─ Que tal a verdade? ─ Anna perguntou e logo depois que terminou: ─ Algum problema, senhoritas? ─ Rodrigo que ouvirá os berros, entrou naquela parte do salão para ver se estava tudo bem.

─ Não senhor está tudo… ─ Começou Anna, mas logo foi interrompida, pela frase com que iniciamos tudo isto. ─ O que é que você quer comigo!? ─

Agora já não era mais possível disfarçar. Ela estava aos prantos, o rubor da face tinha dado lugar a soluços, nariz escorrendo e lágrimas. O restaurante a esta altura já estava fechado, nenhum cliente mais estava por lá. Mas isso não impediu a equipe de ver o que estava acontecendo e logo depois fingir que não era com eles.

─ Me diz! O que é que você quer!? Você fica me encarando desde a primeira vez que veio aqui. Você sabe muito bem que você é um cafajeste. Se você não quer nada fala logo de uma vez e para de me atormentar! Ou melhor, por que você não vai some logo, vai embora de uma vez e deixa em paz!?

─ Eu…

─ Você o quê!? HEIN!?

─ Eu me apaixonei por você desde a primeira vez que a vi. Mas já que quer assim… ─ Rodrigo foi até o caixa, onde já tinha pedido a outro garçom para fechar sua conta, pagou, pegou uma sacola junto com o garçom e foi embora.

Verdades sabidas. Uma verdade sabida é algo que todos sabem, mas que por alguns motivos não podem ser amplamente divulgados. Neste caso, todos sabiam da paixão não admitida de Melissa por aquele rapaz. O que eles presenciaram foi quase o fim de uma novela. No caso um homem de coração partido que de fato se esforçou para conquistar uma mulher por quem se apaixonara e uma mulher que não queria admitir que gostava do homem que tanto se esforçou.

Todos fingiram que não tinham nada a ver com o que tinha ocorrido e voltaram ao trabalho para fechar o restaurante. Mas Melissa, ah!, esta chorava copiosamente. Anna a ajudou a arrumar as cadeiras e ainda tentava conversar um pouco com ela sobre o que tinha acontecido, mas ela se mostrava impassível. Tudo que ela pode fazer foi colocar um papel em seu avental. Ela encontraria quando chegasse em casa e com certeza faria alguma coisa quando o arrependimento batesse.

Já Rodrigo, simplesmente voltou para casa. Não estava bravo. Decepcionado, sim. Afinal seus esforços haviam sido, podia se dizer em vão. Mas por que haveria de se irritar? Sim, não era daqueles de se contentar com o tão, erroneamente conhecido, amor platônico, mas o que podia fazer? Se não dera certo, não dera certo. Embora, com o que havia passado para Anna há alguns dias atrás, torcia para que algo acontecesse, por isso colocou dois pedaços de bolo na geladeira e esperou.

Quanto a Melissa, esta voltou para casa, chegou um tanto quanto mais tarde “Ônibus de merda que tanto demora.” com o rosto e os olhos inchados do choro que passara, mas retornara no exato instante que ela saiu do ônibus. Mas não só isso. Também o que Anna previra: remorso. Ela passou meses negando, mas até que gostava daquele cafajeste e agora era quando se sentia mais para baixo. Depois de feita a besteira e ter praticamente expulsado-o do restaurante.

Foi em silêncio até a lavanderia para não acordar sua mãe. Esvaziava os bolsos das roupas pensando: “O que eu fui fazer. Por que eu fui falar aquilo? O que eu tinha na cabeça.” Quando sentiu na sua mão um papel. Duas coisas estavam escritas quando parou para lê-las. Um endereço numa caligrafia totalmente desconhecida e um recado de Anna. “Caso você mude de idéia…”

─ Mas será que…

Sim, era. Ela hesitou por um momento, mas depois teve certeza, era o endereço dele. ─ O que eu faço? O que faço? ─ Perguntava-se andando de um lado apra o outro. As pernas ajudaram o corpo a decidir, levou o conjunto até a porta da casa. Quando os olhos repararam onde estavam e informaram ao cérebro, este travou. Quis dar ordem de, meia volta, volver, e ir para a cama, precisava ir para a faculdade amanhã. Mas o coração discutiu. Disse que queria ir, disse que precisava ir e utilizou, vejam só, de lógica com o cérebro, dizendo que se não fosse, ele não conseguiria tirar qualquer proveito da “faculdade” que estava usando como desculpa para ir para a cama.

O cérebro sem um bom argumento, perdeu. O coração ganhou o controle e ordenou as mãos para pegar as chaves a carteira e santo deus! dane-se a bolsa. Peguem só o essencial e vamos logo.

Rodrigo continuava sentado à mesa esperando e esperando e esperando. Esperaria a noite toda se fosse preciso. O relógio marcou meia-noite. ele não se recolheu. Uma da manhã. Ele não se recolheu. Duas da manhã. Ele bocejou, mas não se recolheu. Quase três da manhã. A cabeça pesava para frente e os olhos lutavam para ficar abertos. Dormiria na cadeira, mas não se recolheria. Quando enfim os olhos pareciam desistir e se fechar para dormir, um ding dong foi ouvido.

Abriu a porta e na sua frente, via uma Melissa de cabelo desfeito, olhos e rosto inchado, vermelha e ofegante de cansaço da corrida do ponto de ônibus até a casa e com o rosto encharcado de gotas misturadas de suor e lágrimas começou: ─ Arf… Eu… eu… eu queria pedir… ─

Ele não a deixou nem terminar de falar. Sabia que não era necessário e a abraçou apertado. Ela abraçou-o de volta, apertando com a força que lhe restava e os dois ali naquela noite selaram seu primeiro beijo como casal.

Obviamente que os dois não ficariam ali na noite agarrados até o sol nascer. Digamos que eles levaram isso para locais mais privativos e mais confortáveis, onde podiam se sentir a vontade, inclusive para retirar algumas peças de roupa caso sentissem calor… Enfim, acordaram no dia seguinte, ambos atrasados para suas respectivas responsabilidades, mas não ligaram. Justificariam aquilo tudo de alguma forma. Ela foi tomar banho, Rodrigo foi preparar o café e pôs a mesa. Pão, biscoitos, café, suco e dois pedaços de bolo de nozes.

Cinco anos depois:

─ Você Rodrigo, aceita Melissa, como sua legítima esposa, na saúde e na doença, na fortuna e na pobreza e promete amá-la até que a morte os separe?

─ Sim. Eu aceito.

─ E você Melissa? Aceita Rodrigo como seu legítimo esposo, na saúde e na doença, na fortuna e na pobreza e promete amá-lo até que a morte os separe?

─ Sim. Eu aceito. ─ Disse ela apertando carinhosamente a mão dele.

─ Então eu os declaro marido e mulher. Podem selar esse matrimônio, com um beijo.

“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 3

“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 3

qua - 23/11/2011 1 comentário

“Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo…”

Devem conhecer este trecho. De qualquer forma, Rodrigo realmente cativou-a e agora poderia ele jogar as cartas que queria. Na semana seguinte ele não foi, o que causou uma certa estranheza à Melissa e Anna. Mas que foi ignorado, como a primeira vez sempre é. Provavelmente tinha algum outro compromisso naquela quarta a noite. Voltaria na semana seguinte para continuar lhe secando, foi o que Melissa pensou. Aliás, até ficaram gratas de poder fechar o restaurante “mais cedo”.

Na semana seguinte também não voltou e agora era uma preocupação real. “O que será que aconteceu? Afinal ele virou cliente habitual.” “Será que está bem?” “Será que haviam feito algo que não lhe agradava, ou teria ele algum problema com o restaurante?” Terceira semana. “Será que está fora da cidade? Mas não é comum uma pessoa ficar fora por tanto tempo.” Quarta semana. “É, acho que ele não vai mais voltar, que pena. Apesar de pequena ele sempre me dava uma gorjeta e… não Melissa, foque-se no seu trabalho, você não desenvolveu sentimentos por um cara daquele.”

Até que ele finalmente voltou. Saudou o maitre que o reconheceu quando ele entrou pela porta da frente e foi até sua mesa habitual. Rodrigo sentia que todos os garçons de repente ficaram mais calorosos. Como se vissem um velho amigo que não viam há algum tempo, e se os garçons já estavam assim, o que dizer de Melissa, que passara aquele fim de noite com um rubor na face que insistia em não ir embora?

No final da noite algum tempo depois do restaurante começar o processo para fechar, estava Melissa a arrumar as cadeiras e mesas com Anna ─ algo que era estranho, mas ao mesmo tempo familiar.

─ Você viu, Melissa? O Rodrigo voltou. ─ Disse Anna quase aos sussurros.

─ Fala mais baixo. Você não vai querer que ele escute.

─ Ele nem está nos ouvindo, calma. Aliás, por que você está tão vermelha?

─ Eu não estou vermelha. ─ Melissa disse num tom de voz razoável.

─ E por que eu tenho que falar baixo e você não? Vai finalmente admitir que está interessada nele?

─ Não é nada disso! Eu não estou interessado naquele cafajeste. Primeiro ele vem aqui e fica me encarando, depois faz isso por meses a fio até que fica um mês fora!

─ Imagina que você não está apaixonada. ─ Disse Anna entre risos.

─ Não estou. ─ Melissa dizia emburrada.

Rodrigo que dessa vez, sim, fez questão de ouvir a conversa, ria à toa. O que mais podia fazer? Seu plano dara muito certo e aquele processo todo da conquista valeria muito a pena em breve. Claro, teria de ser cuidadoso quando definitivamente com ela. Afinal mulheres podem ser também incrivelmente vingativas e cruéis. É difícil cativá-las e mais difícil ainda é segurar a fúria descabida delas caso as coisas não saiam sempre do jeito que elas querem. “Ah, mulheres… mas ainda assim, muito melhor com elas do que sem elas.” Pensava.

Voltou para a mesa e agora era só esperar. A conversa continuaria mais um pouquinho e Melissa voltaria para retirar a mesa com o rosto mais vermelho ainda do que passara a noite toda. Rodrigo adotou o procedimento padrão: A conta e um bolo de nozes, por favor. Mas adicionou mais uma coisa a sua fala: Desculpe me intrometer, mas a senhorita está se sentindo bem?

Melissa, que estava tensa ficou ainda mais. Achava que ele iria fazer o de sempre e a deixar em paz. ─ Si… Sim. ─ Ela disse com uma gaguez perceptível.

─ Tem certeza? Seu rosto está bem vermelho. Está com febre?

─ Não. Eu estou bem sério, obrigada por se preocupar.

─ Muito bem, mas se quiser posso lhe dar uma carona até o hospital ou sua casa se precisar.

─ Ah, muito obrigado senhor Rodrigo, mas realmente não precisa.

─ Precisa sim! ─ Disse Anna que veio por trás de Melissa sem esta perceber. ─ Por favor, senhor, se puder leve a para casa. Ela chegou hoje não muito bem. Mandamos ela voltar para casa, mas quis ficar. Como não era nada contagioso, deixamos. ─ Desnecessário dizer duas coisas, mas direi mesmo assim: A – Melissa congelou. B – Melissa quis matar Anna por ter feito aquilo. “Anna, quando eu puder eu vou te enforcar com os panos de secar pratos!”

─ Claro, levo ela sim. Gostaria de uma carona também, senhorita…?

─ Anna. Senhorita Anna. Não senhor Rodrigo, muito obrigada, só leve a Melissa para casa por favor.

─ Claro, sem problema algum. Fica decidido então que assim que todos terminarem eu levo ela comigo?

─ N… Nã… ─ ─ Sim! Perfeito, senhor. ─ “ANNA!”

Rodrigo começou a comer seu pedaço de bolo enquanto as duas foram para o vestiário se trocar. Melissa, obviamente, gritou o quanto pôde com Anna que por sua vez dava risada da cara da amiga e dizia para que ela fosse um pouquinho mais sincera consigo mesma.

Todos terminaram, Rodrigo esperava do lado de fora do restaurante e Melissa que agora estava sem o uniforme apareceu.

Estava mais deslumbrante ainda que da primeira vez. Com o céu limpo e uma Lua cheia, ele finalmente pode ver ela num estado mais natural. Trajando um par de calças jeans, com um par de sapatos confortáveis e um vestido branco mais grosso que ia até o joelho e que não era transparente ela era a criatura mais encantadora aos olhos dele.

Mas dessa vez não ficou babando por ela. Não podia. Sua missão aquela noite era levá-la para casa e não deixar nada acontecer. A parte mais dfifícil, mas que daria mais frutos no final. Abriu a porta do carro para ela, os dois se acomodaram e a levou a para casa. Ficava num meio de bairro, onde muitas casinhas residencias, todas parecidas umas com as outras, porém, muito bem cuidadas e jeitosas ficavam. Não falou nada durante o trajeto todo, além de perguntar se ela estava bem e se tinha certeza de que não queria ser levada para o hospital.

Mas ela disse que não. Só precisava descansar um pouco. Quando ele chegou, ela agradeceu, ele virou o rosto para ela e ali ela se demorou. Ele sabia muito bem que poderia beijá-la naquele instante. Mas fazer isso seria estragar tudo. “O que ele está esperando?” Melissa pensava. Ela queria o beijo e não era possível que assim ele também não o quisesse. Mas eventualmente ela ficou sem graça e desistiu, foi deixada aos cuidados de sua mãe que saiu no portão para ver o que era aquele carro parado em frente à casa e que depois seria culpada por estragar o momento do beijo.

É claro, ele conseguia ver a mãe dela, mas ela não. Por isso não fez nada. Maldição. Por que não poderia ter olhos na nuca para ver a razão ao invés de ter de fazer papel de boba? E porque sua mãe tinha que estragar aquele momento? Coitada de dona Lurdes, sofreria uns dois dias um pouco do mau humor da filha que Rodrigo sabia que uma hora ou outra aconteceria.

Quanto a ele, voltou para casa e com certeza voltaria ao restaurante na semana que vem.

“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 2

qua - 16/11/2011 1 comentário

Semana que vem voltaria e na semana seguinte voltou.

Com um tempo cinza bem escuro com a única luz possível vinda das ruas, Rodrigo sentara-se a mesma mesa que havia sentado e no mesmo horário que havia chegado da última vez. Seu procedimento também fora o mesmo. Saboreava a comida e saboreava a linda visão que Melissa lhe proporcionava. Da mesma forma fez com que o restaurante ficasse aberto até um pouco mais tarde e terminava seu pedido com: “A conta e um bolo de nozes, por favor.”

Melissa e Anna não esperavam que ele voltasse, mas a reação das duas foi a mesma que na semana passada. Anna ainda mostrou interesse pelo rapaz, e Melissa, que havia feito seu trabalho, novamente impecável, ─ como o faz sempre ─ se mostrou novamente decepcionada por uma gorjeta tão pequena, mas impassível quanto aos olhares de Rodrigo.

Isso se manteve assim até que ele pode ser considerado um frequentador habitual ─ ou habitue se preferirem ─ do restaurante. Sempre no mesmo horário, sempre a mesma mesa, sempre o mesmo comportamento de comer devagar e observá-la devagar e sempre o mesmo pedido do bolo de nozes.

Quanto a Melissa, a frieza e impassividade dela começaram a se desfazer depois do primeiro mês e meio. Se na primeira vez aquele olhar não arranhava, depois de um tempo começou a afetá-la. Por fim, depois de cinco meses e meio, e portanto, vinte e três ─ contando com a primeira ─  visitas de Rodrigo ao restaurante, a indiferença dela se quebrara. Quando quarta-feira chegava e um determinado horário se aproximava, ela já se colocava de prontidão imaginando o que ele pediria dessa vez, além do bolo de nozes ao final.

Finalmente passou a compreender o que alguns garçons mais antigos falavam sobre saber sobre os gostos e talvez um pouco da personalidade de determinados clientes. Porém, ela começava se perguntar: O que sabia sobre ele? Além do nome ─ “Rodrigo” ─ e do tipo físico ─ “Cabelos curtos, um tanto quanto espetados, mas ainda assim bem arrumados para os padrões de hoje, olhos castanhos que pareciam amêndoas… epa amêndoas?”

E ali, vocês podem ver que nossa heroína começa a ficar preocupada. “É claro que ele não tem olhos castanhos que parecem amêndoas, seus olhos são daquele castanho batido que vemos todo dia.” E isso era verdade de fato os olhos de Rodrigo, não tinham nada de especial. Mas se não tinham, por que ela fez essa comparação? De qualquer forma, ela continuou a descrevê-lo ─ ou ao menos tentar ─ para ver o que sabia sobre ele.

“Sabia que o nariz era levemente arrebitado e a pele apesar de branca, possuía algumas sardas. Deveria ter pai ou avô ruivo e… O que aquilo importava? Ele era apenas mais um cliente.” Pensava consigo mesma. Mas apesar do olhar continuar a seguí-la descaradamente, por que não fazia nada?

Bem, para começar seu trabalho a impedia de brigar com os clientes, além de colocá-la nos holofotes para ser vista. Segundo que apesar daquele olhar de desejo, não era um olhar necessariamente lascivo, apesar de que Rodrigo, imaginou sim, mil e uma possibilidades lascivas, mas parecia ter se abrandado com o tempo. Para ela, era um desejo por algo a mais e não apenas um desejo por desejo. Já para Rodrigo, cujo olhar não mudara desde o primeiro dia, era bom sinal que ela pensasse isso. Afinal de contas, aquele olhar era pelos dois. Não apenas pelo sexo. Se essa fosse a questão, teria economizado o dinheiro que gastara no restaurante e poderia ter ido a algum inferninho.

Mas voltando a nossa história, virou hábito Melissa ajudar Anna a arrumar a outra metade do salão divida por aquela parede. Rodrigo percebeu que poderia ficar ouvindo de soslaio sempre que quisesse desde que fosse cuidadoso. Mas uma informação privilegiada já era demais, além disso. Ele já imaginava o que uma hora elas iriam conversar. Ele só precisava de um sinal, qualquer sinal e poderia começar a realmente colocar o plano em ação.

─ Melissa, já notou que esse cara virou um habitue?

─ Imagina, ele vem toda quarta-feira no mesmo horário e senta na mesma mesa, na minha praça. Eu jamais iria descobrir.

─ Ei, não precisa ficar brava.

─ Desculpa, Anna. É que sei lá. Os olhos desse cara me perseguem desde o primeiro dia.

─ E ele já te falou alguma coisa?

─ Nada e isso que é pior. Se ele falasse alguma coisa, qualquer coisa, eu poderia acabar com isso, logo de uma vez.

─ Acabar? Mas ele vem aqui toda quarta-feira por sua causa. Está na cara isso. Do contrário ele não ficaria olhando para você todo o tempo.

─ Talvez. Mas… Mas…

─ Mas o quê? O olhar dele te irrita? É isso?

─ Hmm… Não, mas acho que poderia dizer isso.

─ O olhar dele mexe com você?

─ É, mais ou menos…

─ Você está começando a gostar do cara e não quer admitir isso.

─ Mentira! ─ Uma palavra que saiu um pouco mais alto, junto é claro com uma face toda vermelha de vergonha. Ainda com o complemento de: ─ Eu não gosto dele, é só que… ─ Em tom de voz baixo. Mas Rodrigo tinha ouvido o “Mentira!” ao longe. Achou que seria mais indireto, mas foi um sinal até que bem claro.

Muito bem, se era mentira que ela gostava dele, então ele só tinha uma coisa a fazer. Com aquele sorriso cínico no rosto que durou enquanto Melissa não voltava, ele pensava, que um mês mais seria o suficiente.

Eventualmente Melissa voltou. Estava com uma aparência plácida da indiferença de sempre e Rodrigo que recentemente acabara a refeição chamou-a e pediu a conta; ainda foi adicionar: ─ Ah, e um… ─ ─ Um bolo de nozes, certo? ─ Ela disse interrompendo-o com uma voz amigável e suave. ─ Por favor. ─ Disse ele com um sorriso bem educado.

Pagou, deu a gorjeta, comeu e se despediu sem falar nada. Tudo como havia feito em todas as outras vezes sem exceção sequer. Agora tudo o que precisava fazer para continuar esse processo era não aparecer durante um tempo. Cativou-a. Criou nela a expectativa de que ele voltaria com a mesma frequência. O que aconteceria então se ele parasse de vir durante algum tempo?

Descobriria em breve.

“E um bolo de nozes, por favor.” – parte 1

qua - 09/11/2011 2 comentários

Sentado naquele restaurante Rodrigo ficava apenas observando as garçonetes. Uma em especial, não sabia o nome dela, mas a olhava fixamente. Ele comia vagarosamente. Saboreando o prato, e saboreando-a. Ele pedira uma refeição completa, mesmo sabendo que haviam poucos clientes e que o restaurante estava para fechar. Teve a sorte de a atendente de sua praça ser aquela mulher, pois isso no fundo significava que ela deveria serví-lo enquanto ele ainda estivesse lá.

Sem conseguir parar de olhá-la, sentia-se o bastardo mais controlador de todos. Ditando todos os movimentos dela.  Aparentemente ela não se incomodava. Era o trabalho dela, e mais, sabia que era bonita. Os cabelos louros naturais ─ coisa rara hoje em dia ─ e os olhos verdes ─ ah, aqueles olhos verdes de enlouquecer ─ simplesmente clamavam por atenção.

Ela que também estava completamente bem cuidada, apesar de ser fim de expediente, tinha os cabelos sedosos e presos de uma maneira elegante; o uniforme muito bem passado era um longo vestido preto acompanhado por uma saia xadrez escuro e um avental branco. Este último dava a ela e ao restaurante ─ que com todos os móveis e praticamente todos os enfeites feitos em madeira muito bem trabalhada ─ um ar muito clássico, quase antigo, mas que passava aquela sensação de comforto ímpar, como se o cliente pudesse estar ainda na era da colônia.

Uma amiga dela que arrumava as cadeiras em outra parte do restaurante dividida por uma parede, pediu a ela que se juntasse e ajudasse-a a terminar a sua praça. Ela simplesmente foi até Rodrigo que ainda estava na metade do prato principal e bebericando sua taça de vinho e avisou lhe que se precisasse de alguma coisa poderia chamá-la.  ─ Mas qual seu nome? ─ Rodrigo perguntou e a resposta que ouviu em uma voz suave foi: Melissa.

“Melissa, que lindo nome.” Assim ele pensava. E ficava alheio ao mundo pensando nela entre uma mordiscada em seu prato e um beberico em sua taça de vinho.

Mas do outro lado, Melissa e Anna ─ sua companheira de trabalho ─ arrumavam as cadeiras e conversavam baixinho quase em sussuros.

─ Melissa, você viu a quanto tempo aquele cara está te olhando?

─ Ah sim, mas não vai acontecer nada.

─ Por quê? Ele que não me ouça, mas ele é um gato.

─ Você acha? Ele me pareceu tão comum.

─ Vai dizer que você não prestou atenção nele? Aquele rosto parece que foi esculpido e quando ele entrou eu notei um certo volume.

─ Eu não acredito que você olhou para as calças dele.

─ Oras, eu também posso me interessar não posso? ─Ela disse entre risos.

─ Haha, pode, pode. ─ Melissa, afirmava com a cabeça enquanto colocava algumas das cadeiras sobre a mesa. ─ Mas se você ficou tão interessada, por que não tenta?

─ Você é besta? Ele passou a noite toda olhando para você e nesse momento deve estar bobo pensando apenas em você. Eu não tenho chance nenhuma.

─ É mas se dependesse de mim poderia pegá-lo para você a vontade. Pois eu já sei o que vai acontecer. Ele vai dar alguma indireta ou uma cantada daquelas bem idiotas, eu vou falar que não, e possivelmente perdemos um cliente. Ou então ele vai colocar uma gorjeta alta achando que com isso consegue me comprar.

─ Ah mas vai dizer que você não pega o dinheiro.

─É claro que aceito, não sou boba. Mas eu só gostaria que eles parassem com isso, se me querem terão de fazer o dever de casa.

“Que assim seja.” Pensou Rodrigo que terminou a refeição rapidamente e ficou de soslaio encostado à parede ouvindo toda a conversa das duas desde o início. Se antes ele se sentia o bastardo mais controlador, agora sabia que a teria em mãos, principalmente depois do elogio que recebera de sua amiga de trabalho.

Voltou para a mesa como se nada houvesse acontecido, colocou seu casaco, pois de repente esfriara ─ algo que a meteorologia havia previsto para aquela noite ─ e logo mais Melissa retornara para retirar os pratos e perguntar se ele desejava mais alguma coisa. Disse que gostaria de um pedaço de bolo de nozes para a sobremesa e que já poderia fechar a conta. Ela anotou a última ordem em sua caderneta, retirou os pratos e finalmente voltou com tudo.

Ele antes de começar a comer o bolo pagou, deu lhe uma gorjeta modesta, algo que não só a surpreendeu como a deixou um tanto quanto brava ─ ora bolas, o seu serviço havia sido excelente e completamente impecável ─ e ficou a olhá-la arrumar arrumar sua própria praça com o auxílio de Anna. Seus olhos agora mais descaradamente que nunca iam de um lado e para o outro a seguí-la, mas ele sabia exatamente o que fazer.

Terminou seu bolo, agradeceu pelo jantar e pelo excelente serviço e se foi. Simples assim, se foi sem dizer uma única palavra a ela em um tom mais pessoal. As duas colocaram o sorriso padrão em seus rostos e esperaram que ele fosse embora para começar a conversar.

─ Porque ele vai me dar uma indireta, me passar uma cantada idiota ou tentar me comprar. Pelo visto foi a terceira.

─ Nem a terceira foi, o mão de vaca me deu uma gorjeta normal.

─ Haha. Puxa, pelo visto você se enganou ou então ele se mostrou mais esperto do que você.

─ Aquele cretino!

E Rodrigo apenas caminhava lentamente de volta para casa naquele frio enevoado da noite. Com aquela informação privilegiada, não cometera um primeiro erro fatal que acabaria com qualquer chance que ele pudesse vir a ter. Só teria de ser paciente. E economizar para começar a jantar naquele restaurante de maneira habitual. Semana que vem provavelmente voltaria.

Da queda à ascensão. Parte 4

sex - 14/10/2011 1 comentário

Ele saira do bar e o sol há tempos se fora. Apenas as luzes das ruas que agora iluminavam a noite gélida de outono que mais parecia um grave inverno; pelo menos, um grave inverno em seu coração. Andava e andava ainda mais, sem saber para onde ia. O tempo fechava-se. Iria chover muito em breve, ou ao menos, relampejar.  A tempestade se aproximava, mas quem ligava para ela? Pensamentos se formavam em sua cabeça e a cerveja, mesmo com pouco álcool, tornou seu corpo macilento e seu cérebro mais desimpedido para certas coisas. Certas coisas que nos vem quando estamos mais fracos; o chamado caminho dos covardes.

Afastou essa sombra de sua cabeça por um breve momento. Mais memórias voltaram. Lembranças daquele ano, de quando as coisas começaram a desandar. De como Julia desde o início do ano começara a ficar fria e distante com ele. Das brigas incessantes que os dois tinham por motivos que nunca foram realmente incômodos. Das discussões que eles tinham sobre simples comentários que por vezes um ou outro fazia sobre algum assunto.

O que havia dado errado? Por que aquilo tinha acontecido? Ele não sabia, mas a resposta veio junto com a sombra; ela voltara e trouxera consigo memórias mais antigas que ele não abrira porque não quisera. As brigas sempre existiram. Verdade que em menor quantidade, mas sempre estiveram lá. Por que as tinha ignorado? “Pois você queria viver um conto de fadas.” A criatura lhe disse aos sussuros.

Ele chacoalhou a cabeça como dizendo: É mentira. Mas ela teimava. “Você sabe que é verdade e você é o culpado. Você foi o responsável direto e indireto das muitas coisas que aconteceram.” Disse. “Mas eu não fiz nada.” Ele pensou rebatendo. Foi quando ela começou: “Lembra quando você deixou seu cachorro destruir o sofá dela? Lembra quando você esqueceu o aniversário de um ano de namoro? E esqueceu o de dois anos de namoro? E não suficiente o de três anos?” Robert tapou as orelhas como não querendo ouvir, mas a voz era interna e nada podia ser feito.

“Lembra quando você deixou ela esperando aquela vez na chuva? Lembra quando você conseguiu a incrível façanha de ofender a prima dela um segundo depois dela virar as costas? Lembra quando você mandou um buquê de flores no dia dos namorados, apenas para descobrir logo em seguida que ela era alérgica e teve que ir para o hospital? VOCÊ LEMBRA!?” ─ Para com isso! ─ Ele gritou para si mesmo de olhos fechados. ─ Sai da minha cabeça. Sai. ─ Dizia ele baixinho. ─ Vai embora. Por favor, vai embora. ─ Disse ele que agora ajoelhara-se. “Você quer que eu vá embora? VOCÊ QUER!? Então abra os olhos.”

Foi quando ele se deparou com um grande muro e portão. Sua cabeça se levantou. O ar trovejou e uma luz de raio lhe mostrou o local. Seu corpo estremeceu. Ele deu  alguns passos para trás e para seu completo horror, viu que estava de frente ao cemitério. Seu coração ameaçou parar. Iria entrar naquele local? Adentraria mesmo aquele lugar de morte, escuridão, repulsa e principamente incertezas as quais os vivos sempre evitam? A voz mandava-o entrar. Mandava-o seguir o caminho dos covardes. Mandava-o se matar. Que faria? Seu cérebro paralisou-se. O coração teve de assumir o papel de líder. Já fragilizado não achava as exigências daquela repulsiva criatura tão absurdas assim e começava a flertar com as mesmas, mas não foi ele quem decidiu. O cérebro para evitar uma catástrofe, recuperou-se em velocidade espantosa e disparou um impulso dando liberdade ao tronco e suas pernas que responderam pelo conjunto. Virou-se e correu o mais rápido que pôde noutra direção sem sequer olhar para trás.

“Não!” Pensava consigo. Ele não tomaria o caminho dos covardes, não acabaria ali naquele lugar ainda tão jovem. Por que tinha ido para lá em primeiro lugar? O suicídio nunca fora uma opção; sempre fora e sempre será apenas uma sombra até o fim de seus tempos. Uma hesitação destas que aparecem, mas que ele jamais deixaria tomar conta. Corria e não parava. Seus pulmões pediam por ar, o cérebro e o coração diziam que não era uma boa ideia continuar correndo por muito tempo, mas as pernas não ouviram. Os olhos que estavam fechados, viam nada e se viam nada com certeza não enxergavam para onde iam e foi exatamente por isso que bateu a toda velocidade num poste.

Quando abriu os olhos, enxergou apenas um céu cheio de nuvens com um par de raios que tirou lhe o ar que já não possuía. A dor de cabeça e peitoral ainda demoraria uns bons segundos para aparecer, mas quando chegaram ele não se sentiu mal; em vez de se lamentar, sorriu. Sua sobrancelha direita e  lábio inferior que tinham sido rasgados na colisão sangravam. Ele sentia o gosto de sangue em sua boca. O líquido quente escorrendo pelo seu rosto e pingando pelo seu queixo. Mas ainda assim sorria. Sorria, pois por mais doloroso que fosse, mostrava a ele uma coisa valiosa. Se ele era capaz de sentir dor e se ele era capaz de sangrar era porque estava vivo. Estava vivo e tinha muito ainda pela frente.

Aquela criatura repulsiva; aquela criatura que desejava a sua morte perdia espaço para coisas muito mais tangíveis. Perdia espaço para seu sangue que escorria, para a dor que ele sentia no peito e para a risada que ele soltava frente a sua idiotice. “Mas isso ainda não terminou.” ─ Terminou hoje cedo. Fora daqui. ─ “Mas…” ─ Eu disse: Fora. Daqui! ─ A criatura rastejou para os confins de onde viera. Ele agora olhava sua roupa e imaginava como estava seu rosto. Teria de dar alguma explicações para seu pai, mas nada que a máquina de lavar, um curativo, um banho e uma conversa franca ─ não necessariamente nesta ordem ─ não resolvessem.

Ele pegou o celular com a mão limpa e verificou o horário. ─ Dez horas, eh? Ah, em uma hora eu tô em casa. ─ Disse para si mesmo guardando o celular no bolso, tirando a camiseta e usando ela como pano para que pudesse estancar o sangramento. Voltava para casa quase tranquilo. O choque foi assistencial, mas não funcionaria para sempre. As boas memórias voltaram e ele tornou a chorar, mas pelo menos dessa vez, um choro amigável. Um choro verdadeiramente de adeus, mas que assegurava que as lembranças estariam sempre lá caso ele quisesse.

Ao chegar em casa, deu boa noite a seu pai. Sentado no sofá, assistindo o último jornal do dia, olhou para o filho que estava com o rosto e uma camiseta toda ensanguentada. ─ Vem cá, que que te aconteceu? ─ ─ Ah pai, foi… ─ ─ Se você brigou me diz pelo menos que você deu umas porradas no tratante. ─ Disse o pai entre risos com bom humor e sorriso ímpar. ─ Haha. Não pai. Perae, deixa eu te contar o que aconteceu.

E ele foi narrando com detalhes tudo o que aconteceu naquele dia, ao qual o pai intervinha as vezes com: ─ Padre preguiçoso. ─ ou ─ Poxa, você acha um baralho e nem para jogar uma partida de buraco com o pessoal? ─ ou algumas caretas. Caretas mais quando ele narrou sobre o rompimento e quando ele se deparou no cemitério.

─ E é isso pai.

─ Ah. Achei que fosse mais sério, Rob. ─ Disse o pai em tom de deboche ─ Mas, não esquenta. Sei que é chato de ouvir, mas na sua idade terminar relacionamento é uma merda. Simples assim.

─ Você falando “merda”?

─ O quê? Estou proibido agora?

─ Não, é que…

─ Ah, Rob, vai logo tomar um banho e colocar um curativo nisso aí, quem olha acha que você foi sovado, de tanto sangue que escorre dessa sobrancelha.

─ Mas já estancou e…

─ Vai logo!

E o rapaz foi para o seu banho, antes de entrar tirou a aliança de prata como de costume. Olhou bem para ela, brincou com ela um pouco, mas no fim acabou deixando em cima de sua mesa num canto perdido onde as coisas se acumulavam. Um dia ao arrumar tudo iria encontrá-la de novo, mas seria mais fácil de olhar.

Na faculdade, um ou outro mencionava o assunto, mas de certa forma, assim como outros assuntos era algo considerado um tanto quanto tabu. Mas o melhor foi no trabalho. Segunda-feira seuss colegas o animaram e na sexta resolveram fazer uma happy hour daquelas, em homenagem à volta à vida de solteiro.

O tempo começou a se passar. Dias, semanas, meses. Quando deu por si, já era novamente primavera e agora mandava fazer uma nova aliança, mas não esquecera a antiga. Na verdade, eventualmente limpou sua mesa, pegou-a e levou a um joalheiro. Ele pediu para que fosse feita uma pequena inscrição; a data do fim. O joalheiro atendeu prontamente e prontamente devolveu. Ao chegar em casa, Robert colocou-a numa caixa onde guardava muitas coisas.

Um pequeno mimo de sua mãe, a coleira de seu cachorro, algumas pequenas lembranças de amigos que nunca mais vira e agora uma prova de seu primeiro amor. De vez em quando olhava essas coisas todas. Mas assim como todos os outros objetos, agora via aquele pequeno pedaço de prata em forma circular não mais como algo sofrido, mas algo que o fez ascender como pessoa.

Da queda à ascensão. Parte 3

sex - 07/10/2011 1 comentário

Com o auxílio de uma brisa gélida aquela tarde de outono se ia num pôr do sol avermelhado. Um rapaz com o coração partido caminhava a esmo pensando agora, não nas palavras que o padre falou, mas sim, no começo de tudo. Estaria lá a resposta?

Incrível que ao evocar essas lembranças, tudo ficara tão nítido. Conheceram-se num banco de parque; como já dito; e entre a leitura de um livro e um cachorro que se desprendeu das mãos do dono para ir pedir festa e afagos a uma garota sentada, eles trocaram olhares e até mesmo algumas palavras pela primeira vez. Mas o acaso faria coisas interessantes. Escola. Meio de primavera. Entre uma queda de borracha e uma queda de lápis trocaram olhares. O fato de que estudavam na mesma escola, mais além, na mesma sala beirava o surreal. Foi aí que as reparações começaram de ambas as partes.

Ela era comum, mas aos seus olhos, deslumbrante. O cabelo castanho claro, se comparado ao de outras garotas, curto, chegava um pouco até seus ombros e apenas realçava a sua expressão, na época, um tanto quanto infantil. Os olhos azuis, claros como uma piscina rasa, passavam uma sensação de suavidade e ajudavam a alegrar ainda mais aquele rosto já sorridente.

Ele era normal, talvez até um pouquinho relaxado demais, mas mesmo assim ela não ignorou que havia algum charme nele. O cabelo escuro bem curto e todo despenteado, sempre lhe conferiu aquele ar de galhofa que tanto a iria  animar em dias por vir. Seus olhos castanhos, castanhos escuros, castanhos batidos, daqueles que vemos em muita gente e quase em qualquer lugar, por incrível que pareça, completavam seu rosto. Talvez por passar um ar de gente comum, e por ser comum, deveria de ter também algo de incomum. Mas quem sabe?

Ele não sabia, tampouco sabia que essa queda de lápis e borracha renderiam olhares e uma conversa no intervalo. Ela perguntaria sobre seu cachorro; um vira lata marrom; que na época e até pouco tempo atrás; pois morrera este ano;  era uma das criaturas mais felizes que ele já teve a sorte de encontrar. Ele perguntaria se ela havia terminado de ler o livro e se a história era boa: “Um romance bobo. Mas até que bonitinho.” ela responderia.

“O que deu errado?” Ele perguntava para si. A verdade, é que a resposta que ele procurava, não estaria no início, estaria um pouco depois. Já fora da escola. Já naquele último ano que parecia mais frio do que o habitual. Suas pernas eventualmente estacaram. Ele estava diante de um bar. Na busca por almas perdidas, por que não ir para um bar? E a pergunta se tornou: Por que não, entrar? E ao entrar e se sentar em uma das mesas tornou-se: Por que não, beber alguma coisa?

Pegou a tabela de preços próxima e verificou sua carteira. Tinha dinheiro para um sanduíche e uma cerveja. Não gostava de cerveja sempre a achou de gosto muito amargo e preferia bebidas um pouco mais fortes e agradáveis, porém, pensou que talvez hoje ela poderia lhe parecer doce. Acertaria. Fez seu pedido ao garçom, e começou a esperar. Como um clique, o cérebro se lembrou que os braços haviam pego alguma coisa no chão da praça da Igreja e haviam colocado-o em seu bolso. Levou as mãos até lá para descobrir uma caixa surrada, não de cigarros como as vezes se vê na rua, mas de um baralho.

Abriu. Contou as cartas. Sorte, estava completo. A mesa era grande. Por que não, jogar? Embaralhou como só ele e seu avô sabiam embaralhar, rapidamente e com maestria. Dispôs as cartas sobre a mesa para jogar paciência. O garçom trouxe lhe seu sanduíche e sua cerveja. Este que comeu rapidamente e um tanto desinteressado e a cerveja que parecia aplacar a sede e com aquela amargura doce, alguma outra coisa mais.

O jogo de paciência prosseguia. As imagens também. Logo estava vendo quando foram ao cinema pela primeira vez e na despedida deram seu primeiro beijo. Dois pequenos tolos da mesma idade. Dois pequenos tolos que começariam um namoro que duraria alguns anos. Dois pequenos tolos, que teriam muitos encontros e tempos de felicidade.

A partida encerrou no meio e ele tornou a embaralhar no seu jeito rápido. Começou outra. Mais imagens. Embaralhou. Começou outra. Novas imagens. Por que se torturava daquele jeito? Sua mente passou por todos os momentos até o início daquele ano. A partida novamente foi encerrada no meio. Embaralhava quando – Você tem habilidade com as cartas, rapaz. – Disse um homem atrás dele. Olhou assustado e por não saber muito o que fazer, demorou um pouco a agradecer. – Eu e uns amigos estávamos afim de montar uma mesa de buraco, mas falta um baralho. Quer entrar  no jogo? –

– Ah. Não, muito obrigado. Na verdade parei aqui só pra comer alguma coisa. Mas pode ficar com o baralho se quiser. – Robert falou, lhe entregando o baralho.

– Tem certeza? –

–Eu achei ele na rua. Pode ficar. Sério. –

– Não, isso não tá certo. Tenho uma idéia. Pode ir tranquilo, eu cuido da sua conta. – Disse o homem fazendo um sinal para o garçom se aproximar.

– Não. É sério. Não precisa. –

– Deixa disso. Você comeu um lanche e bebeu uma cerveja, isso é menos do que custa um baralho. – Finalizou o homem e antes que o garoto pudesse fazer qualquer objeção o garçom já havia entendido o que ele queria e passado a conta dele para o homem. Robert agradeceu o homem que agradeceu de volta pelo baralho e voltou para sua mesa.

Ele saiu, e agora não existia mais nenhum resquício de sol. Apenas as luzes das ruas que iluminavam a noite gélida de outono que mais parecia inverno. Era apenas oito horas e poderia voltar para casa até a meia noite. Seu pai estava acostumado. Andaria mais um pouco até chegar a um outro local. E lá é que descobriria o porquê e enfrentaria a última parte das imagens.

Da queda à ascensão. Parte 2

qua - 28/09/2011 1 comentário

Um rapaz sentava-se num banco de praça quase sem vida e com um coração despedaçado. Seu corpo que fora congelado não pelo frio, mas por atos e palavras voltava ao normal.Uma quantidade de tempo se passou. O coração dizia que se passaram anos, o cérebro dizia que talvez meia hora, mas a verdade é que naquela tarde triste seria algo impossível de se saber.

O coração queria parar, estava, fraco, aos prantos, despedaçado, sozinho, mas ordens superiores disseram que não. Colegas disseram que não. O corpo não podia permitir que ele parasse, mas poderia permitir a ele que tomasse seu tempo e se recomposse. Os outros órgãos ajudariam da forma que poderiam, as pernas e os braços relaxaram e se posicionaram de maneira mais confortável. Os olhos começaram a vazar para que pudessem liberar a pressão interna. O estômago, apesar de cheio, disse que não precisaria de tanto sangue naquela hora. E ali ficou o coração; cuidando de algumas válvulas e juntando cacos de uma estrutura tão bem construída ao longo de tanto tempo.

Foi quando o cérebro pediu as pernas movimento. A tarde era fria e o que acabara de suceder só deixara o corpo ainda com mais frio. As pernas começaram a andar. O cérebro tentava pensar em outras coisas e cabisbaixo aquele rapaz errante nada mais era agora do que uma alma perdida pelas ruas daquela pequena cidade.

Toda alma perdida, vaga diretamente para pontos onde possa se achar ou então para pontos onde existam outras na mesma situação. Foi assim que ele chegou a uma Igreja. Sentou-se nos degraus do lugar e ficou analisando a praça que havia à frente. Pessoas andando, pessoas correndo, pessoas namorando, namorando, namorando… Esta palavra ficou na cabeça dele e as lágrimas logo voltaram, quando de repente uma freira, que o viu sentado naquele lugar tão frio colocou a mão em seu ombro.

– Tudo bem com você meu jovem? –Ela lhe perguntou.

Contendo suas lágrimas o máximo que pôde, virou-se e olhou para o rosto dela. Um rosto calmo e sereno, batido é verdade, mas ainda assim apaziguador. Seus olhos vermelhos e inchados não passaram despercebidos e ela logo emendou: – Por que choras? – Ele simplesmente enxugou mais um pouco das lágrimas com as mangas e pediu desculpas a freira, disse-lhe que não queria, não poderia falar.

Ela muito paciente, aceitou sua resposta, mas lhe disse que caso precisasse desabafar poderia fazê-lo com ela, ou então com o padre no confessionário, caso assim quisesse. Ela o deixou e novamente entrou. “Será que devo entrar também?” Ele pensou. Nunca fora uma pessoa religiosa, mas a freira havia lhe dito que não havia problema. Por que não falar com ela ou com o padre? Quantas histórias, inclusive de amor, não terá o padre ouvido?

– Eu vou entrar. – Disse ele a si mesmo, com um tom de falsa confiança. A igreja era um deserto. Ninguém a ser visto e mesmo a freira que havia entrado antes desapareceu por alguma das muitas portas ou em último caso, o confessionário, o mesmo lugar ao qual ele se dirigiu. Bateu na porta, não havia ninguém, entrou e uma voz grave lhe saudou.

– Bom dia meu filho. – Disse o padre.

– Boa tarde padre, eu… eu… – Disse o rapaz quase voltando a chorar.

– Veio se confessar? – Perguntou o padre ainda em voz solene.

– Na verdade não seu padre, eu só… –

– Perdeu alguém precioso? –

– Eu… Eu… –Balbuciava o rapaz, dessa vez a chorar.

– Meu filho, a separação de uma pessoa querida é sempre algo doloroso. Mas cabe a nós ultrapassarmos isso de alguma forma. Não podemos deixar que isso nos abale. –

– Padre… sniff… o que você me sugere? –

– Reze meu filho, tenha fé em Deus e continue sua vida. Como diz um sábio provérbio: Deus escreve certo por linhas tortas. –

– Mas padre… –

– Desculpe meu filho, isso é a única coisa que posso fazer por ti. –

O rapaz, saiu tão desconsolado como antes. Seria aquela mesmo a única opção? Rezar? Deus nunca lhe deu suporte, principalmente quando mais precisava, afinal, ele levou sua mãe quando tinha apenas seis anos de idade. Teria Deus lhe levado Julia também? Não, ela estava viva, sua mãe estava morta e pelo que ele sabia, Deus cuidava apenas de nossas almas imortais, não de nossos corpos mortais.

A cabeça voltou a se ocupar com qualquer coisa deixando para as pernas a tarefa de caminhar sem rumo. Novamente para algum lugar onde almas perdidas poderiam ser encontradas. Elas pararam por um instante a frente de uma pequena caixa velha e batida pelo uso. O cérebro nem reparou o movimento, mas junto com os braços, as pernas se abaixaram, pegaram a caixa, colocaram no bolso e retomaram seu movimento.

Com o auxílio de uma brisa gélida aquela tarde de outono se ia num pôr do sol avermelhado. Um rapaz com o coração partido caminhava a esmo pensando nas palavras que com pressa um padre havia lhe dito. Mas o pobre coitado ainda andaria muito mais antes de encontrar sua redenção.

Textos antigos.

seg - 26/09/2011 Deixe um comentário

Remexendo em papéis velhos encontrei alguns rascunhos de coisas escritas e apesar de não os achar muito bons, vale a pena ser publicado. Talvez alguém goste e faça alguma crítica em cima sobre como melhorar. Só mantenham em mente que eles não tem boa métrica, tampouco boa rima, o barman falha miserávelmente em poemas, ou tentativas de.

No final da estrada
Ela nos cumprimentará como se fosse uma velha amiga
E nos despediremos daquela que nos acompanhou até o momento
Resta saber, de que forma iremos encarar
Esse encontro predestinado
E essa despedida incontestável

Ela o ama
Mas ele não poderá se lembrar
Ele a ama
Mas não consegue expressar
Os dois se encontram
E se poem a chorar
Uma despedida forçada
Porém, os dois continuam a se amar
Com a promessa feita
De um dia voltarem a se encontrar

E então ela alçou voo
Realizou seu antigo sonho
Mergulhando cada vez mais nos sonhos alheios
Mal sabia que nunca mais retornaria
Pois o sonho, era para nunca mais acordar
Mas quando tudo parecia perdido
E a tristeza se abatia no coração daqueles que a amavam
Um anjo, sem asas, sem aúreola, sem qualquer sinal de anjo.
Lhe dizia: Por favor não vá.
Seu sonho antigo, de fato se realizará.
Mas temo que se você partir
Mais alguém além de você, deixará de existir.

Quando o Inverno chegar
Me lembrarei da Primavera
Tão linda tão bela
Que não hesitou em me deixar
E o Verão
Cheio de emoção
Que fugiu junto com o tempo
Me deixando ao vento
E o Outono chegou
Com o vento que soprou
Me trazendo muitas alegrias
Nas noites tão frias
E quando o Inverno chegar
Colocarei meus últimos adendos
Me livrarei, dos arrependimentos
E esperarei, ela me levar.

A equipe do Fox Pub deseja a todos um ótimo início de semana.

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Da queda à ascensão. Parte 1

qua - 21/09/2011 1 comentário

As folhas avermelhadas e sem vida do outono iam vagarosamente ao chão com o auxílio de uma brisa gélida. Mal sabia o rapaz que se sentaria com ela naquele banco pela última vez. Não era culpa dele. E também nem dela. Eles simplesmente não eram feitos um para o outro, porém, ela foi a primeira a perceber isso.

Ela estava lhe esperando no banco da forma como havia dito. Mas quando será que ela havia chegado? Afinal, ele estava quinze minutos adiantados. Verifivou novamente. Sim ele estava adiantado e não era costume dela. Ele ainda continuava um tanto quanto cego, mas isso é porque ele assim o queria.

Seu coração seria despedaçado em breve. Pobre coitado. Se ao menos tivesse aberto ligeiramente seus olhos para a realidade, mas preferiu perder-se em sonhos. Sonhos de um futuro próximo, um casamento feliz, a construção de uma casa, filhos; enfim a perfeita família feliz. Que importava que nos últimos tempos eles brigavam por qualquer coisa, mesmo por causa das mais simples. A felicidade certamente os aguardava.

Situação irônica, afinal naquele parque foi onde eles se conheceram, mas vamos acabar logo com isso. Ele se sentou ao lado dela e a abraçou. Ela estava fria. Não no sentido de calor corporal, mas emocionalmente.

- Robert… – Ela começou.
- Sim, Julia? – Ele disse logo em seguida.
- Eu… Eu não te amo mais Robert nós precisamos terminar e eu estou tentando fazer isso da forma mais indolor possível. – Disse ela num só fôlego, depois que conseguiu um pouco de domínio. Suas pernas tremiam, não conseguia desviar seu olhar do chão e os olhos então não vistos pelo rapaz, começavam a liberar as longas lágrimas. O domínio de si mesma foi para apenas uma sentença. Apenas o suficiente.

Ele por sua vez olhava de maneira embasbacada. Os olhos que até há pouco contemplavam felicidades sem fim, projetos e sonhos; mas não a realidade; tornaram-se envidrados. As lágrimas dele também começaram a despontar. As orelhas caíram, a expressão murchou. O corpo queria fazer algo, mas suas mãos e braços pesavam mais que chumbo. Não conseguia nem mesmo movê-los da posição onde os tinha deixado no banco. A boca também queria falar algo, mas existia algo na sua garganta que lhe vedava completamente tanto a fala quanto a entrada de ar.

Ela soluçava. Limpava seu rosto e suas lágrimas com a manga de seu suéter cor de nozes. Seu corpo, ou melhor suas pernas, também estavam congeladas, mas o cérebro com um último impulso conseguiu mandar duas ordens para serem seguidas à risca. A boca deveria dizer “Adeus, Robert.” e as pernas deveriam sair andando o mais depressa possível sem correr.

Nosso rapaz, assistiria isso tudo. Quando ele ouviu as palavras, dessa vez foi ele quem teve uma reação, porém, tarde demais. Ela já havia se levantado e ignorando as ordens estava correndo, não andando. Com um último movimento inútil de braço para tentar contê-la ele ficou ali parado.

As folhas avermelhadas e sem vida do outono iam vagarosamente ao chão com o auxílio de uma brisa gélida. Um rapaz sentava-se num banco de praça quase sem vida e com um coração despedaçado. Seu corpo congelado não pelo frio, mas por atos e palavras, o faziam uma espécie de estátua no parque.

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