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Posts Etiquetados ‘suspense’

Um texto estranho ao Pub… 4

sáb - 12/11/2011 Deixe um comentário

Ao abrir o pub esta noite, ouvi um barulho fora do usual no interior do lugar. O que fiz? Abri a porta ainda mais rápido que pude. Quando consigo acender as luzes e ver o que estava acontecendo, ouço a porta dos fundos sendo aberta e não sendo fechada e corro para ver. Obviamente não era a opção mais inteligente, mas quem quer que fosse, saiu em disparada, pois não vi mais nada na rua.

Fecho a porta, tranco-a e sob o balcão vejo uma quantia de dinheiro, uma garrafa de whisky aberta, um copo com ainda um dedo de bebida, uma pequena anotação feita com traços para indicar quantidade e um papel com um texto interrompido, com certeza por mim, que agora publicarei.

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Então, a bala 9mm.

Você não pode esperar ter algo como o que eu tinha em mãos e sair simplesmente incólume de tudo aquilo. Primeiro eu deveria avisá-los de que tinha o objeto, embora isso se mostrou completamente desencessário. Recebi mais uma carta. Maldita carta. Desde que sai não consigo mais tolerar essa caligrafia. É sempre impassível, extremamente polida e direta ao ponto. Dizia:

“Informações chegaram a nós de que o senhor está com algo que nos interessa. Gostaríamos de convidá-lo para que pudessemos efetuar uma transação que fosse benéfica para ambas aas partes. Por favor compareça ao prédio… andar… na rua … as 16 horas de amanhã. Lhe desejamos um bom dia.”

Lhe desejamos um bom dia. Bastardos com esse bom dia. De qualquer maneira o encontro seria dois dias a partir daquele dia. Sem perder tempo algum fui visitar o prédio para saber como eram as redondezas e descobri que era um local relativamente seguro. Digo isso pois era bem movimentado. Logo as chances de acontecer algo eram bem baixas.

Ruas largas com um bom tráfego, policiamento considerável, vários outros prédios ao redor do que eu deveria entrar, alguns cafés e um ponto de ônibus. Se algo acontecesse ali, chmaria a atenção. Principalmente se fosse algo relacionado com armas de fogo.

Mas quem disse que teria tiroteio na rua? Não, na rua haveria apenas um acidente envolvendo três carros, sendo um deles uma pick-up apenas para distração. E enquanto as buzinas rolassem soltas, paramédicos, bombeiros, engenheiros e policiais fossem chamados para resolver o problema, tiros seriam trocados dentro daquela sala no último andar do prédio.

Deixe-me explicar um pouco mais. Era um prédio comercial, logo o último andar geralmente era reservado à empresas maiores que precisavam de mais espaço e talvez o heliponto. Antes de sair de casa no dia da reunião fiz a coisa mais sensata possível. Me arrumei, vesti meu terno e por baixo de tudo um colete a prova de balas.

Me forçando eu conseguia andar em minha velocidade normal e tendo treinado até o dia da reunião, fiz com que o colete virasse quase uma extensão do meu peito. Não iria chamar atenção e de fato não chamei. Porém, fui descuidado com uma coisa. Estava sendo seguido. Digo, estava sendo seguido por pessoas as quais eu sabia que não deveriam estar me seguindo.

No fim das contas, você sempre está sendo seguido, porém, as sombras tem ordens e desde que uma delas não seja “Mate quem você está seguindo”  tente não se preocupar demais, do contrário essa será uma das ordens a entrar na lista. De qualquer maneira cheguei ao prédio, dei meus documentos, disse o nome da empresa ─ com certeza um nome falso ─ e fui autorizado a subir.

Ao chegar a sala, um rapaz, vestido de maneira simples ─ camisa, calça social e um par de sapatos ─ abriu-me a porta. Provavelmente um estagiário. Ele disse que a senhora Newman, estaria em breve conosco e que a reunião se daria quando os outros membros chegassem.

“Você está sozinho?” Perguntei a ele. “Sim, os outros todos saíram muito mais cedo, ordens da chefe. Ela me pediu para ficar para que eu pudesse abrir a porta.” “E agora você vai embora?” “Não, esperarei até que ela chegue.” “Não se preocupe, pode ir embora, está dispensado.” “Lamento senhor, mas não posso.” “Ouça o que ele diz Paul” Disse a senhora Newman que acabara de abrir a porta.

Ah, minha ex-chefe. Não mudara em nada desde a última vez que a vi. Era como se ela tivesse parado no tempo. O mesmo corte de cabelo chanel e o rosto que aparentava ter quarenta anos. Mas continuei. “Não lhe vejo há alguns anos, Angela.” “Digo-lhe o mesmo Arthur.” “Vocês se conhecem?” “Sim, Paul, já trabalhei com ela, agora, por favor, deixe  nos.”

O garoto timidamente arrumou suas coisas em sua mochila e nos deixou. “Bom rapaz este, Angela.” “Também gosto dele, mas vamos aos negócios. Você foi seguido?” “Pelo que eu saiba apenas pelos seus homens.” “Não foi o que eles me disseram.” Foi nesse momento que gelei, mas fui obrigado a disfarçar. “Entendo.” Emendei. “Creio que estou perdendo o meu toque.” “Nem tanto, Arthur. Esperava que você fosse demorar mais de um ano para me reaver o que preciso.” “Acha que deveríamos continuar?” “Tenho confiança em meus homens, Arthur. Sabe muito bem disso. Vamos aos negócios.”

Entramos na sala de reuniões, notei logo de cara que a porta e a mesa eram reforçadas, o excelente acabamento demonstrava que queria esconder alguma coisa.

“Muito bem Arthur. Você teve meu objeto de volta. O que quer por ele?” Ela começou. “O que você está disposta a me oferecer?” Lhe perguntei. “Posso lhe oferecer o que você quer.” “Não creio que possa me oferecer o fim dos pesadelos.” “De fato não posso. Mas posso lhe oferecer a liberdade, e quem sabe um começo na área em que você queria seguir.” “Isso entra de certa forma em paradoxo. Se eu for indicado por você, certamente irão me vigiar.” “Mantenho minha palavra de que não acontecerá, Arthur. Lhe darei a liberdade e manterei a palavra como chefe da organização e lhe indicarei como Angela Newman.” “Sei que você sabe muito bem separar as coisas. Mas creio que posso começar sozinho, dinheiro não é um problema.” “Imagino que não, você soube investir muito bem o que ganhou conosco. Mas deveria se manter longe de algumas empresas na bolsa, não quero ver você quebrando.” “Obrigado pelos conselhos financeiros, Angela. Mas você viu que consegui cuidar bem de meu patrimônio.” “Sim. acompanhei eu mesma durante um tempo. Mas o que me diz? Aceita minha proposta?” “Ela me parece justa Ange…” Foi nesse momento que não ouvi algo que deveria estar ouvindo. O barulho do ar condicionado, muito silencioso parou.

“O ar.” Foi o que ela disse, e tão rápido quanto pudemos fizemos duas coisas, eu arrastava a mesa em direção a parede para depois tombá-la e ela pegava do cofre um par de máscaras de gás. Não demorou muito. A sala começou a ser inundade de gás e a porta reforçada caiu de forma brusca. Eu que me agaixava para tomar cobertura da mesa junto com Angela só vi uma pessoa entrar e começar a atirar. Foi essa a bala de 9mm que passou próximo ao meu rosto.

Peguei minha 9mm e…

 

Um texto estranho ao Pub… 3

seg - 10/10/2011 Deixe um comentário

É impossível alguém entrar no pub durante a madrugada sem chamar a atenção. Afinal de contas, sou eu que abro o local e sou eu que o fecho. E há meses troquei a fechadura, mas quando chego hoje me deparo com um texto em cima do meu balcão e uma nota: Não se preocupe, não farei nada contra seu pub, mas não troque a fechadura, demorei um bom tempo para abrí-la desta vez.

Eu li, olhei a fechadura , as mesas, o balcão e o bar. Tudo estava da forma como havia deixado e pensei: Que seja. Texto grátis e tendo em vista o comportamento deste cara; leiam o texto; ele é de manter sua palavra.

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Quando aquela bala de 9mm passou perto de meu rosto eu achei que era meu fim, mas deixe-me contar esta história pelo começo.

Aquele ultimato na ponte deixou minha vida, até então pacata, de pernas para o ar. Eu me aposentara. Não queria mais participar deste jogo, mas retornei. Retornei para um mundo o qual nunca deveria ter entrado. Deveria ter ouvido meu pai e me tornado advogado quando tive uma chance, mas até então o que eu sabia?

Um mês depois daquele incidente que finalmente encontrei algumas pistas de onde poderia estar o objeto. E é assim que irei me referir a ele, afinal qualquer informação escrita, principalmente essa, não pode colocar outras pessoas em risco. O que eu menos quero é isso, mas ao mesmo tempo, quero que elas saibam o que aconteceu comigo depois daquele dia. Retornando, o objeto estava com um homem de seus já 74 anos. Havia comprado em alguma loja de antiguidade ou algum bazar, não fazia ideia do que se escondia atrás dele.

Durante a semana seguinte estudei a rotina do velho. Descobri seu nome, telefones, documentos, familiares, amigos, dados pessoais, contas de banco e suas senhas, enfim, tudo que lhe dissesse respeito. Me arrisco a dizer que descobri mais da vida daquele velhote em uma semana do que ele descobriu durante toda a vida dele.

Eu também sabia que ele sairia de viagem em três dias e que um pouco antes dessa viagem ele teria uma festa. Enquanto que eu poderia esperar até ele sair de viagem para ter o tempo suficiente para invadir o lugar, pegar o que eu queria e ir embora, não poderia arriscar que alguém chegasse antes de mim. Eu não sabia exatamente onde ele guardara aquilo, mas não seria difícil revistar sua casa em busca do que eu precisava.

Não explicarei como, mas eu vigiei o apartamento dele durante os dois dias e já sabia de forma até que um tanto precisa como era por dentro. Eu apenas não tinha a localização exata de alguns móveis, mas nada que impedisse minha navegação e minha busca. Entretanto quando invadi no terceiro dia; quando ele estava se despedindo de seus amigos numa festa; notei algo estranho na casa dele.

Quando entrei, a primeira coisa que reparei fora num quadro que lá havia. Era um quadro simples. Um retrato de uma moça aos seus trinta anos, abaixada, colhendo flores, mas olhando para frente. Meus olhos já cansados, mas pelo jeito ainda muito bons, acharam que a tinta em determinada aréa não estava muito boa e resolvi checar atrás.

Como diriam alguns, fiz aquilo para que? Lhes digo. Apenas para descobrir que a moldura não era feita totalmente de madeira. Havia um pequeno quadrado de plástico atrás da área que desconfiei. Uma câmera. Aparentemente ou aquele maldito velhote tinha seus segredos e minha investigação de uma semana se provara insuficiente, ou alguém já o estava vigiando desde muito antes.

Se o velhote tinha seus segredos, ele provavelmente sabia muito bem o que tinha em mãos e deveria ter alguma armadilha perto de onde ele guardara aquilo. Do contrário, tinha alguém vigiando e que agora sabia sobre mim. De qualquer maneira, eu não teria muito tempo para agir e  seria perseguido e eventualmente encontrado.

Ainda tentando manter a calma para que pudesse operar da forma mais rápida e eficiente possível, comecei a vasculhar seus pertences tomando o máximo de cuidado. Verifiquei todos os cantos e todas as tomadas e paredes. Sim você entendeu direito, tomadas e paredes, afinal é idiotice guardar coisas em um cofre. O senso comum diz que se algo tiver de ser guardado, será guardado em um cofre e um ladrão obviamente irá para lá.

Aprendam, objetos de verdadeiro valor são escondidos onde os olhos podem ver. Então tomadas, prateleiras, estantes e livros fazem excelentes esconderijos. É difícil verificar todo o seu conteúdo até encontrar o que realmente se procura. Além disso tenha algo para despistar. Um cofre com algum dinheiro garante que suas verdadeiras preciosidades sejam protegidas fornecendo a quem invade, alguma isca.

Mas como já disse, comecei meu trabalho procurando exatamente nestes locais. O velho não era um ávido leitor, então a estante foi rápida e não encontrei nada lá. Nas tomadas, apenas a fiação elétrica. Na parede, alvenaria muito bem feita e homogênea. Nas mesas, nenhuma gaveta falsa. Aliás, numa gaveta de tranqueiras, encontrei o que procurava. Tive relativa sorte, pois descobri que não era o velho que sabia. Mas ainda assim tive azar, porque se tratava de outra pessoa. Talvez mais de um.

Guardei o que pegara, roubei o quadro que enrolei em um pano, alguns outros objetos relativamente valiosos para despistar e ao fim dos meus quarenta e cinco minutos na casa já saira com o que realmente precisava. Não muito depois que saí, arrombaram a porta da frente da casa. Hmpf. Amadores. Foi chato roubar o que eu não precisava daquele senhor, mas pelo que eu tinha levado eles entenderam que era um ladrão comum que tinha invadido a casa.

Da onde estava pude ver um deles; eram três dentro da casa; passando um rádio para alguém e meu treinamento de leitura labial compensou, pois ele disse: “Era um ladrão qualquer. Roubou a prataria do velho e mais o nosso quadro.” Deixaram tudo como estava inclusive a porta arrombada, sabiam que seria fácil explicar e dar um novo quadro aquele velho não seria difícil.

Me livrei do quadro. Mandei; de modo a passar por no mínimo três remetentes diferentes; os objetos pelo correio de volta para o velho e escondi o objeto em um pequeno cofre o qual enterrei num jardim e anotei a combinação num papel que pûs em meu bolso. Mas ainda assim, seria trabalhoso entregar esse objeto e me livrar de uma possível investigação. Os três próximos dias, com receio de que algum deles; seja lá quem fossem; pudessem vir atrás de mim, passei acordado e fiquei vagando pela cidade sem um ponto fixo.

Ao final dos três dias, já extremamente cansado, acabei por fim dormindo em um local público, mas por sorte ou por algum tipo de intervenção nada aconteceu, no, e mais importante, ao, local. Isso foi importante e eu, um pouco recuperado; embora com dor de cabeça depois dessa exaustão toda; fui então reaver meu objeto.

Termino aqui. Sei que não expliquei minha primeira frase, mas terá de ficar para uma nova parte. Afinal o que virá agora é demasiado longo para contar, além disso, contar-lhes apenas sobre este passo simples e de certa forma ridículo já me tomou tempo que não tenho.

Um texto estranho ao Pub… 2

sáb - 06/08/2011 Deixe um comentário

Encontramos mais um texto em cima de nosso balcão. Aparentemente é a continuação do texto que apareceu por aqui semana passada. Um tanto quanto perturbador, mas ainda assim. Texto grátis.

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Retorno mais uma vez a esta mesa. É bom estar vivo, porém, agora que novas luzes chegaram a esta história, me pergunto se talvez estar morto não seria a melhor opção.

Naquela noite eles não mais retornaram e me deixaram em paz até que o dia clareasse. Foi um belo domingo de sol; ah, o Sol, tão reconfortante após noites sombrias; com um calor beirando o insuportável. As pessoas estavam com roupas bem leves para passear e talvez tomar um sorvete. Uma diversão barata e saudável.

Eu aproveitei aquela manhã para finalmente dormir. Afinal quando a alvorada chegou sabia que estaria seguro. Sombras e passos dificilmente passam despercebidos na luz do dia. Ao acordar da soneca resolvi sair. Cumprimentei meus vizinhos ao passar por eles, como a senhora Ruse e o velho Jenkins que cuidava de seu jardim naquele dia. O domingo, junto com o resto da minha semana, seria tranquilo. Ao menos… até ontem.

Ontem ao verificar minha caixa de correio pela manhã descobri um envelope não muito usual. Estava sem remetente, destinatário e selado com cera. Escondi o envelope junto com o habitual jornal e fui normalmente para o meu apartamento. Quando fechei a porta e a tranquei com duas voltas de chave atrás de mim, foi quando meu corpo se deu permissão para começar a suar frio. Atirei o jornal para longe. As notícias matinais poderiam esperar. Abri o envelope com uma faca, do contrário minhas mãos o destruiriam por completo junto com sua mensagem.

Era uma mensagem curta, numa caligrafia muito bonita a qual eu infelizmente em uma época da minha vida me acostumei a ver, estava apenas escrito: “O senhor está sendo cordialmente convidado para comparecer a ponte próxima a sua casa as duas horas e trinta minutos da manhã de sábado. Não obstante, devemos lembrar ao senhor de que não seria educado ignorar este convite e que podem existir consequências caso o senhor não compareça. Lhe desejamos um bom dia.”

Obviamente o bom dia era apenas uma piada sarcástica. Bom dia… que ótima maneira de se começar o dia. Eram apenas quase oito horas daquela manhã de sexta. E meu dia já havia sido completamente arruinado. Mas agi com a maior normalidade possível. Do contrário, as pessoas iriam notar. Me arrumei e fui trabalhar. Ao voltar a noite, minha cabeça não conseguia se focar em mais nada além do que iria acontecer mais tarde.

Esquentei um prato de comida no microondas o qual nem mesmo toquei. Apenas fui até o meu quarto, peguei uma chave que guardava escondida dentro de meu colchão para uma das gavetas de minha mesa. Há mais de quatro anos que eu não abria esta gaveta. E eu com certeza não gostaria de tê-la que abrir assim tão cedo. Aliás, gostaria de me corrigir, eu gostaria de nunca mais ter de abrí-la.

Mas a abri. Tirei a velha caixa de madeira de dentro dela e tirei a pequena chave que guardo junto ao meu pescoço em uma corrente. Lá dentro estavam guardadas em suas respectivas almofadas: minha velha 9mm e dois carregadores cheios. Exatamente da forma como eu deixei há muito tempo. Ao tocar neles algumas lembranças simplesmente retornaram. Lembranças de um passado que eu gostaria de apagar, mas que se tornara impossível.

Peguei a 9mm em minhas mãos, destravei a entrada do cartucho, a carreguei e conferi a trava de segurança. Segurei-a dessa vez de forma mais firme e todo o meu treinamento retornou. Se alguém me visse naquele momento com certeza se amedrontaria diante de meus olhos frios, embaçados como pedras de gelo e totalmente sem vida. Pior ainda, segurando uma pistola com os dedos ao gatilho pronto para atirar caso qualquer coisa, por mínima que fosse, fugisse ao meu controle.

Quando retornei a mim, apenas colouquei-a na cintura presa ao meu lado direito como tinha por hábito de fazer e troquei minha camisa do trabalho por minha velha camisa preta. Uma camisa ainda em boas condições dois números maior do que eu habitualmente uso, porém, notoriamente surrada. O lado positivo é que a cor ainda se mantinha tão desesperadoramente negra como da primeira vez que a vesti. E o lado mais positivo numa camisa preta é: não é tão fácil ver as marcas de sangue que ela por ventura adquire.

Voltei a cozinha e me servi de uma dose de whisky, fui com o copo até a varanda e por lá fiquei. O relógio e o termômetro da varanda marcavam respectivamente 2234 e 18º C. Era apenas uma caminhada de 15 minutos até a ponte. Eu possuía muito tempo para poder esperar e também possuía uma garrafa de whisky bem cheia.

Até 0200 não notei nenhum movimento diferente na região dos apartamentos até onde meus; hoje cansados; olhos podiam ver. Nenhum barulho fora do convencional. Pensei comigo mesmo: “Por favor, que tudo continue assim.” Me levantei, peguei minhas chaves e destranquei a porta da frente. Desci as escadas e comecei a me dirigir a ponte. Meus passos estavam mais longos que o normal. Minhas pernas começavam a se relembrar dos velhos tempos. Ao chegar a meio da ponte, verifiquei meu relógio de bolso. Em exatos dez minutos cheguei até ela, mais cinco entre sair de casa e já eram 0215. Uma coisa que sempre prezei foi pela pontualidade. Você jamais deixa alguém esperando. Principalmente se você está lidando com eles.

Me posicionei no meio da ponte e esperei. Fiquei observando as linhas de trem e sentindo o vento gélido contra o meu rosto. O tempo se arrastava, mas eventualmente, ouvi um par de passos vagarosos vindo em minha direção. Continuei olhando para frente, era o correto e a única coisa a se fazer. Ele parou do meu lado e também começou a olhar para a frente. “Bonita noite, não acha Arthur?” Ele me disse.

“Não esperava que fosse você Jack.” Lhe respondi. “Bem você sabe.” Ele continuou. “São coisas da organização, você conhece as regras. Mas fique tranquilo. Não iremos lhe fazer nada…” Ele terminou com uma pausa. “Contanto que eu lhes faça o que?” Perguntei. Já sabia onde isso ia chegar. “Vejo que ainda não perdeu seu toque.” Ele disse numa voz mais amigável, tirou um cigarro do bolso e o acendeu. “Sabe, precisamos de uma coisa, algo importante. Você já teve isto em suas mãos, creio que saiba do que estou falando.” Ele terminou soltando uma baforada e fazendo os seus perfeitos anéis de fumaça.

“Compreendo. Mas imagino que você saiba que não a tenho mais há mais de dois anos.” “Sabemos disso.” Ele continuou “Mas imaginamos que você provávelmente sabe onde está. E saberia como encontrar.” “Por que acha isso?” Lhe perguntei. “Bem, você foi o último que teve contato.” Ele continuou dando mais uma tragada em seu cigarro. “Além disso. Sabemos que se lhe dermos certo estímulo, você seria capaz de encontrar.”

Minha mão direita deu um leve espasmo, pessoa normal alguma iria reparar. Mas eu reparei, ele reparou e logo continuou “Sei que isso pode lhe deixar um tanto nervoso.” Ele disse sem alterar o tom de voz com uma longa tragada em seu cigarro. “Mas não existem motivos para que não resolvamos isso como pessoas civilizadas.”

“Sei disso.” Minha cabeça lutava para esconder a raiva. De fato, eu havia amolecido. “Mas posso lhe fazer uma pergunta?” Continuei.
“Não se preocupe, ela está segura. Porém, sob observação.” Ele disse. “Você conhece as regras. Saberá o que fazer, Arthur.” Ele continuou dando a última tragada em seu cigarro e o jogando na linha do trem.

“Tenha uma boa noite Arthur.” Foi a última coisa que ele disse, virou-se e saiu andando. E eu fiquei apenas esperando ali em cima daquela ponte maldita. Apenas esperando. Afinal, não podia fazer nada, ou cairia morto no mesmo instante. Sei como eles trabalham e sei que nunca trabalham sozinhos. Quando eu percebi que os dois se foram, eu continuei ali. O vento gélido me lembrava de que eu estava vivo e me lembrava de que eu também teria que voltar a um mundo que eu jurei jamais retornar. Que alguém se apiedasse de mim. Pois nem mesmo um deus teria compaixão pelo que eu teria que fazer agora.

Um texto estranho ao Pub…

sáb - 30/07/2011 1 comentário

Quando o Proprietário abriu a porta de seu Pub hoje de noite, deparou-se com este texto em cima do balcão escrito por… mim mesmo? Estranho, muito estranho. Mas tendo em vista que o Proprietário é um irlandês nato, isso não o assusta e já que é um texto grátis, coloquemos o no nosso quadro.

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Sobre a minha chegada, vagarosamente tranquei a porta do quarto com a máxima cautela possível. Desde que deixei aquela “festa” senti os olhos deles sobre mim. Me observando e ouvindo cada passo que eu dava com o meu velho par de sapatos pretos. A calçada estava quieta como se toda a vida tivesse deixado de existir. Além dos meus passos, tudo que consegui ouvir foi um carro ao longe vindo em minha direção. Eu tinha que me esconder, e nas sombras formadas por uma casa e uma árvore sob a luz da rua eu me escondi.

O carro passou e só então percebi que era apenas um velho e sem graça carro popular da época. A única coisa que chamava a atenção das pessoas; neste caso a minha; era a vívida cor tinta de sangue que possuía. O maldito daquele carro muito possivelmente deveria estar compensando por alguma outra coisa, levando em consideração que o vermelho era vívido como a cor de uma rosa ao meio dia, sendo que no momento era muito além da meia noite.

Porém, apesar do fato da cor, continuei meu caminho para casa e cruzando uma das pontas finalmente percebi o que meus olhos não estavam querendo ver todo este tempo. Sobre o brilho cálido e gélido da lâmpada amarela da rua, uma pessoa conseguiria ver névoa. Muito comum por estas partes, mas não nessa época do ano e especialmente neste dia, essa névoa possuía algo de estranho. Algo que minhas palavras e sentimentos não são o suficiente para definir, algo simplesmente, sinistro. Ao apressar meus passos o olhar que eu senti sobre mim apenas ficou mais e mais forte e antes que eu pudesse dar-me conta eu estava correndo meu caminho através da ponte.

Foi apenas em seu topo que percebi que todos os meus esforços haviam sido em vão. Eles se aproximavam a cada segundo e eu não pude fazer mais nada além de me jogar em meio aos arbustos e esperar. Dois pares de passadas foram ouvidas. Elas se aproximavam a cada segundo, diminuindo o seu ritmo próximo ao lugar onde havia me escondido. Mas as passadas se foram e depois de algum tempo eu não conseguia ouvir mais nada. Eu estava seguro… no momento.

Continuando meu caminho, tive de cruzar um túnel embaixo da rodovia. As lâmpadas quebradas e as pichações na parede apenas contribuíram para fazer um túnel já escuro, pior, e a atmosfera tão pesada quanto chumbo. Mas eu não podia parar. Eu não deveria parar. Eu não poderia desperdiçar a chance que consegui de me livrar deles. Ao caminhar pelo túnel, tomando o cuidado para que meus passos fossem mais leves que uma pena e não pudessem ser ouvidos, vi uma pessoa vindo em minha direção.

O pânico se instaurou sobre mim quando eu vi a pessoa se aproximar cada vez mais. A situação que eu havia acabado de sair não era muito favorável e eu não podia arriscar mais nada. Ele estava num ponto distante de meu campo de visão, porém, o desespero ao aumentar seu controle sobre mim, fez com que eu baixasse minha cabeça torcendo para que a realidade sumisse, além disso, o pensamento de começar a rezar me cruzou a cabeça. Porém, a dama da sorte já havia atendido ao meu pedido e a pessoa foi por um túnel diferente no cruzamento.

Eu corri e corri. Afinal de contas eu não poderia ficar naquela situação qualquer outro segundo a mais sem colocar minha vida em risco. Foi quando decidi pegar o caminho pela avenida. Ele estava quase sem vida se comparado as ruas anteriores, mas alguns carros me salvaram dos olhares que ameaçavam retornar, porém, infelizmente a avenida era apenas um desvio e eu estava apenas adiando o inevitável. Eu precisava voltar para minha rota principal mais uma vez.

Ao retornar, fui obrigado a cruzar uma ponte que passava sobre as linhas de trem. Quando vi, de repente, um trem de carga se aproximar de onde eu estava. Seu barulho era insuportável e eu usei esta chance para cobrir o barulho de minhas largas passadas com ele. Corri, corri e corri até não aguentar mais. O trem já havia ido embora, porém, eu também já havia feito o mesmo. No momento, me encontrava escondido atrás de uma grande e velha macieira logo após a ponte.

Mais uma vez, ouvi o mesmo par de passadas. Prendi minha respiração ofegante na esperança de que isso de alguma forma pudesse me ajudar e atendendo as minhas esperanças, elas continuaram o seu caminho sem saber onde eu estava. Eu finalmente as havia perdido como eu quase havia perdido a mim mesmo.

Não posso dizer que a outra metade do caminho foi tão pacifíca quanto eu desejei que fosse. A neblina começou a ficar cada vez mais densa e minha visibilidade caiu sensivelmente. A noite úmida, começou a ficar cada vez mais e mais fria. Um vento glacial vindo do leste começou a soprar fazendo com que minha camisa e meu próprio corpo ondulassem. Mas ao me sentir um pouco mais corajoso, segui pelo meio da rua e esperava o fazer até o fim de meu caminho. Nenhum carro veio em minha direção, mas isso não me impedia de ouvir carros que saíram da ponte e foram obrigados, pelo sentido da rua, a ir na direção contrária.

Foi quando eu vi uma luz fixa em uma curva no fim de meu caminho. Ela não era amarelada como a luz de um carro e sim branca. Isso geralmente queria dizer polícia. Engoli em seco com este pensamento. Afinal de contas seria fácil para a polícia me parar e me tomar como um suspeito de qualquer coisa. Eram quase duas da manhã e eu não havia um bom alíbi e nem meus documentos por perto. Eu não podia me permitir ser encontrado por eles.

Foi quando tomei outro desvio. Dessa vez tive que ir entre velhos prédios de apartamentos. Alguns deles estavam quase abandonados como pude reparar ao passar. Outros estavam com pouquíssimos sinais de vida. Uma luz acesa ou cores inconstantes nas paredes provenientes de alguma televisão ligada. Percebi também algumas bicicletas paradas por perto. Afinal de contas, nessas redondezas as pessoas geralmente as usam para seus trabalhos.

No meu desvio ao continuar avançando vagarosa e paralelamente a rua principal pude observar da onde vinha aquela luz. porém, para minha surpresa, não era a polícia, era apenas uma maldita vaca que decidiu estacionar seu carro ali e esperar. Mas esperar pelo quê?

Decidi que já tinha problemas suficientes a tratar e não poderia me importar em investigar uma coisa como essa apesar de muito suspeita. Continuei meu caminho entre os apartamentos até um lugar com escadas que possibilitava acesso e retorno a um outro ponto de minha rota principal. Estava quase chegando ao meu destino quando a névoa ficou ainda mais densa do que já estava e caso não fosse pelas lâmpadas da rua, eu poderia ter ficado completamente cego por ela.

Eu conseguia quase sentir a segurança de minha casa de novo e apesar de ouvir certas vozes femininas e não familiares ao local, apenas ignorei. O que importava era a segurança e eu iria conseguí-la. Ao cruzar o grande e não muito bem aparado gramado para chegar ao meu apartamento, acabei pisando em algo sólido que fez barulhos crocantes ao se quebrar e reparei em um velho senhor que olhava por sua janela.

Corri o mais rápido que pude para a porta de entrada e a destranquei. Subi as escadas devagar até alcançar a porta de meu quarto. Acendi uma vela e comecei a escrever minha história. Portanto, se alguém algum dia ler isto, apenas quero que você saiba que agora eles sabem onde eu estou. E eles irão fazer até mesmo o impossível para que possam me matar. Mas talvez, se eu conseguir me manter vivo e desperto até o sol aparecer, pode ser que ainda haja alguma esperaça nisso, para ela e para mim. Por favor, se você ler isto, não ignore… por favor…

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